Antiéticos: “querem desassociar o rap dos pretos”

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“O questionamento a esse ‘tradicionalismo branco’ se faz necessário para que saibamos da força criadora que nós negros possuímos”

Por: Fábio Emecê

Frávio SantoRua, Thiago Ultra e DJ Will – Ow são ANTIÉTICOS, um grupo de rap da metrópole do Rio de Janeiro. Eles se intitulam os três pretos mais perigosos do Rio de Janeiro. E são perigosos por questionar a herança dos herdeiros da Família Real, dos capitães hereditários e dos senhores de engenho. Recentemente lançaram a mixtape ÉTICA MOLOTOV e vem arrastando uma gama de pessoas em seus energéticos e contundentes shows. Quer saber o que eles pensam? Confira a entrevista.

Bocada Forte: Antiéticos depois da “Etica Molotov” se tornou um grupo em que muitos admitem que ouvem e seguem as ideias. Como está sendo isso pra vocês?

DJ Will – Ow: É uma responsabilidade e tanto, mas temos capacidade de segurar a “bronca”. Em meio as confusas informações que o rap nacional passa, o nosso povo carece de ouvir as verdades que nos escondem. Antiéticos vem para mostrar o real de forma versátil.

Thiago Ultra: Nós do Antiéticos estamos cientes que o tipo de som que a gente faz e a postura que a gente adota confrontam com o que estão tentando estabelecer como rap hoje em dia. Saber que as pessoas estão ouvindo nossos sons, entendendo a nossa proposta nos impulsiona, nos dá força na construção de novos trabalhos.

Frávio SantoRua: A gente buscou a reflexão sobre a violência, a resposta com violência e uma alternativa de amor entre nós. Somos massacrados há cinco séculos. O plano do estado-nação Brasil sempre foi fazer daqui um bordel tropical para os europeus, nos dizimar e os pouquinhos que sobrarem, servirem como capachos intelectuais ou capachos sexuais. A gente cansou de assistir esse cenário e essa mentira toda. O Brasil é racista e a bomba que a gente taca é essa. Um Molotov de reflexão, violenta se for o caso e amor se for o caso.



Bocada Forte:  Se posicionar diante de uma nova cena se torna fundamental pra mostrar que os discursos são múltiplos no Rio de Janeiro?

Frávio SantoRua: Sim. Possibilidades! A gente só mantém o fundamento, aquilo que os mais velhos fizeram. Só que é isso. A nossa cultura sempre é disputada, sempre é tentada, daí surgem outros discursos com a roupagem de rap. Para além de mostrar que no Rio de Janeiro existem vários posicionamentos, o próprio rap no mundo todo tá em disputa. Querem se apropriar, a indústria cultural quer engolir, bandeiras partidárias querem monopolizar sua representação e nenhum deles querem afirmar que o rap é de preto! Expressão cultural, política e artísticas da comunidade negra nos centros urbanos. Manifestação de quem foi sequestrado e empurrado para os guetos. Se posicionar se torna fundamental pra conservar a vida do rap e o movimento da comunidade negra no brasil.

DJ Will – Ow: Com certeza. Acredito que o rap tem um seguimento que começou com os mais experientes (antes de nós) e estamos continuando a saga. O rap sempre foi música de reivindicação e de luta. Mudou minha vida e de muitos irmãos por causa de sua característica original. E como o Frávio disse. O rap é de PRETO!!! Nasceu com nós e ainda tem muito por fazer por nós. Só nos querermos.

Thiago Ultra: Sim irmão. Acreditamos que a sigla R.A.P transcende o estilo musical. Aprendemos que rap – acima de tudo – é um instrumento de reivindicação do povo preto. O ato de cantar traz uma grande responsa. Muitas pessoas ouvirão o que você tem a dizer e assim sendo, não dá pra ficar cantando “o nada” falando um monte de besteira. Hoje em dia querem desassociar o rap dos pretos, mas o Antiéticos tá aí pra lembrar que essa cultura é nossa, é do povo africano.

Bocada Forte: Os pretos ao redor do mundo ou melhor, os africanos radicados ao redor do mundo têm aprofundado um discurso de retomada ao seu eu e a comunidade? Pergunto isso pautado no disco do Kendrick Lamar – que pode ser considerado um discurso de retomada e que está similar ao discurso do Antiéticos. A descolonização mental está em evidência?

DJ Will – Ow: Pra mim está em processo. Muitos antes fizeram, outros poucos continuaram e hoje temos uma realidade que tenta voltar com essa temática. É de suma importância. Precisamos ser espelhos para que os nossos jovens tenham referência, conheçam a verdadeira história e não se omitam na hora que escutarem um rap que não curtam. O papo sempre foi único, viemos estabelecer princípios que foram deixados de lado por vaidade. Agora vamos cobrar.

Thiago Ultra: Irmão, infelizmente somos doutrinados dentro do pensamento europeu. Somos ensinados a achar que tudo que vem do branco é a verdade absoluta. O questionamento a esse “tradicionalismo branco” se faz necessário para que saibamos da força criadora que nós negros possuímos. Existem muitas formas de questionar esse poderio branco, e o Rap é mais um. Antiéticos, Kendrick Lamar, Fábio Emecê, são alguns dos muitos pretos que cantam o valor e a beleza do povo Africano. A diferença que alguns irmãos conseguem furar o bloqueio que o branco impõe sobre as mensagens faladas, escritas, pintadas e cantadas do movimento Hip Hop que tem como objetivo o empoderamento do povo preto. O que hoje parece ser uma “tendência” nada mais é do que um resgate ao propósito pelo qual o Rap nasceu.

Frávio SantoRua: Irmão, desde que o primeiro africano pisou aqui já carregava em si a retomada da nossa dignidade e da nossa comunidade. O discurso não está se aprofundando, sempre foi profundo. O primeiro, do primeiro navio quando desembarcou gerou a resistência e começou planejar a retomada. Digo que essa noção está agora começando a ser mais amplificada, digerida por uma maior parte do nosso povo e isso me parece gradativo. Ficamos 5 séculos escravizados, retaliados. Caso houvesse alguma revolta, havia toda aquela relação de abdicar do conflito, negar interferir ou atrapalhar nos privilégios dos brancos. Os brancos vieram pra cá usufruir e nos trouxeram pra que servíssemos a eles. Então essa mentalidade, essa cultura de subserviência nos domou e nos doma por todo esse tempo, mas o que me parece é que de pouco a pouco estamos aumentando a composição, estamos começando a acordar, nos acordar, nos alertar e nos proteger.

11185840_10206215497604175_6808140_nBocada Forte: Vi em uma camisa que dizia que rap menos mentira é igual ao hip hop. Concordam? A galera anda omitindo esse princípio básico?

Frávio SantoRua: Discordo porque o rap com ou sem mentira não é o Hip Hop. O rap é um elemento base do Hip Hop, mas não toda sua expressão ou representação. Eu diria Rap menos mentira igual mais progresso e melhores frutos ao Hip Hop.
DJ Will – Ow:
Rap é uma coisa e Hip Hop é outra. Buscamos aprender e sobreviver com ambos. Isso é o ideal, mas não podemos confundir.




Thiago Ultra: São duas potências diferentes, porém não tem como desassociar o rap do Hip Hop. O Hip Hop transcende a questão poética e rítmica que caracterizam o rap, tornando-se uma filosofia de vida, baseada em paz, amor, união e diversão. Quanto a mentira, acho que devemos abdicar dela em qualquer situação das nossas vidas, não só do Rap.

Bocada Forte: Voltando ao trampo atual. Como foi a concepção e feitura do “ÉTICA MOLOTOV”?

DJ Will – Ow: Em cima de desejos, sofrimentos, luta e uma vontade enorme de ver os pretos felizes e sendo representados.




Frávio SantoRua: A concepção foi toda pautada em gerar questionamento e dar força pros que ouvissem. Momento de muitas conturbações políticas, disputas ideológicas e por representações. A gente viu que era fundamental marcar o território da luta mais antiga desse país que é a luta de libertação do povo negro. Assegurar que nós em meio a isso tudo garantíssemos antes de tudo nossa saúde psicológica, espiritual e física. Em nome do amor, amor enquanto força criadora, força motivacional, mas, que também a gente tem pedra pra tacar e bomba pra atacar se for o caso, mas, em meio a isso tudo, a gente interpretou que esse processo é sempre violento pra nós, as retaliações, os massacres, as mortes desse jogo político, ideológico, simbólico sempre cai pra nós. A gente sofre as consequências efetivas, práticas, físicas desse tensionamento político que em outra esfera é uma mera disputa intelectual abstrata. Pra gente não, pra gente chega em forma de projéteis de fuzil, bombas, soco, tapa na cara, remoção de residências, falta de saneamento… e por aí vai.



Thiago Ultra: Ética Molotov nasceu do desejo que temos de ver os pretos felizes e saudáveis. O maestro dos beats GORIBEATZZ, foi peça fundamental pra que a obra se concretizasse. Ele gentilmente abriu a porta de casa pra que passássemos horas ouvindo as bases, as vezes até varando a madrugada. Além dos beats, contribuiu nas ideias e na pós produção das faixas. Nessa mixtape também realizamos o desejo que tínhamos de cantar com pessoas que possuem o mesmo sentimento e acreditam nas mesmas coisas que nós. A gravação e finalização ficaram a cargo da nossa produtora QG do Horizonte.

11117936_10206215497764179_1476801174_nBocada Forte: Opa, falem mais sobre a QG do Horizonte e que vocês almejam com ela?
Frávio SantoRua:
O Quartel Guardião do Horizonte é o nosso laboratório. Onde a gente experimenta composições.
Thiago Ultra: Quando a gente começou a cantar rap, tínhamos uma dificuldade muito grande em gravar os nossos sons. A dificuldade maior se dava pela falta de dinheiro e conhecimento. O QG do Horizonte surge pra sanar essa dificuldade que muitos irmãos ainda hoje possuem. Queremos produzir uma rapa que tem o mesmo objetivo no rap que nós. Dando suporte nos beats, nas gravações, na finalização, enfim, fazer com que a rapaziada consiga caminhar. Acreditamos na filosofia do Ubuntu. Nos rolés que a gente dá por ai, percebe que tem muito talento escondido, principalmente nos lugares onde as informações chegam de forma mais demorada. O QG ainda é um embrião, estamos nos estruturando pra dar suporte pra esses irmãos e irmãs que acreditam no rap como um instrumento de libertação do povo preto.
DJ Will – Ow: Como o negro que chegou “pós inauguração” (risos) participo no QG como DJ mesmo. Aproveitamos para colocar nossas ideias e desejos, afim de concretiza-las.

Bocada Forte: Quais são as expectativas do cenário da música rap no Rio de Janeiro e como isso pode refletir nacionalmente?

Frávio SantoRua: Minha expectativa é positiva. Vários grupos “envolvidão” com o compromisso. Vários artistas com muito potencial. A galera tá se organizando, estudando, se aprimorando. Só que essa galera que eu me refiro ainda não são os mais populares da cidade. Mas tão ali, percorrendo o cenário e trazendo alternativa pra quem não curte muito essa pegada de boate e maconha. E em relação com o resto do país, acho que é influência. O RJ querendo ou não, é uma das maiores cidades do país e as coisas que saem daqui chegam com força nos outros estados. O rap precisa de uma repaginada, de uma reformulada, porque se a gente se prender muito a verdades absolutas a gente pode acabar engessando o movimento. Porque a gente quer que o movimento aconteça, mas, muitas vezes sobre nossas rédeas. Queremos o controle dele e não é por aí, acredito que devemos somar forças, compor com o movimento.

DJ Will – Ow: Sempre terei esperança no rap carioca. Tenho uma perspectiva muito boa principalmente para os outros elementos do Hip Hop. Necessário uma retomada de ideias centrais que cunhem para o fortalecimento da cultura periférica. Muitos problemas nos atingem diretamente e indiretamente. Evidencia-los é fundamental. Vamos com tudo.

Thiago Ultra: Boto fé na rapaziada que tá vindo. Na baixada fluminense o rap e a cultura hip hop em geral tá se fortalecendo cada vez mais. Mesmo com pouco recurso, os irmãos ocupam os espaços públicos e colocam suas caixas amplificadas (ou não), pegam seus mics e fazem seu Rap movidos pela vontade e sonho de mudança, usando o Ritmo e poesia como instrumento. Acredito nesses!! Acredito nessa rapaziada que não tem os holofotes sobre, mas luta o quanto pode pra que o rap continue salvando vidas. Tem música de protesto sendo feita em todo lugar, mesmo com a tentativa de amenizar o discurso, mesmo com a tentativa de embranquecer o rap, em cada favela do Brasil tem sempre um preto fazendo poesia em cima de uma batida, cantando pelos nossos. E esses são os responsáveis de manter a cultura viva.



Bocada Forte: No clipe “Eleveulove” existe uma pergunta que vocês fazem, olhando pra imensidão do subúrbio carioca. Agora peço licença pra perguntar: Acham que tem jeito essa porra de Mundo?

Frávio SantoRua: Claro, estamos vivos.



DJ Will – Ow: Temos que acreditar sempre…



Thiago Ultra: Boto fé irmão… Boto fé…

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