ACERVO BF | Entrevista com P,10 (pevírgula 10) – Paz, poder, progresso, prosperidade, perseverança

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Allan de Souza, 21 anos, carioca esse é P,10. Nos mandou um disco com uma capa provocativa e irônica (na capa tem a foto de um PM engraxando seus sapatos). Esse disco tem 8 faixas, produção do DJ Criolo e a participação de outros rappers do Rio de Janeiro. Leia entrevista com P,10 e saiba mais detalhes sobre a sua história, o disco, o significado do seu apelido e sua opinião sobre o Hip-Hop carioca.

Bocada Forte: Quem é, de onde é o P, 10 e quando começou a fazer Rap?
P,10:
 P,10 é o Allan de Souza, de 21 anos, morador de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, que começou a se envolver ativamente no rap à partir de março de 2002.

Capa do disco digitalizada do Acervo BF

B.F: Por que esse nome?
P,10:
Esse nome surgiu à partir de várias pesquisas em busca de uma ideia simples, porém bastante complexa quando colocada em prática. A ideia inicial seria “Pacificador”, mas ainda assim achei sem consistência. Foi então que lendo um jornal carioca fiz mentalmente a seguinte interpretação de uma manchete: “Rafael, 15 anos, assassinado…” e naquele momento, reparei que a palavra vírgula foi dita por mim, não como apenas uma palavra de pontuação, mas como uma expressão que realmente tinha algo a dizer. Nessa época estava com o poema de Drummond na cabeça, aquele que diz: “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio caminho…” onde ele coloca a questão dos obstáculos e das dificuldades para se fazer um poema e foi aí que achei toda a concepção do trabalho que traçaria. Ficou assim: Paz, poder, progresso, prosperidade, perseverança… dentro do P; o número 10 pelo fato de remeter a nota boa em escola, principal jogador do time e por ser um número bastante forte; mas a vírgula é que é a grande barreira que precisa ser transposta para se chegar ao ápice de toda essa função, então se a primeira leitura sobre esse nome for “Pêdez”, é sinal que você não está vendo tudo ao seu redor com clareza. É isso.

B.F: Fale sobre o disco, letras, produção, participações, fotos e tudo mais:
P,10:
 O disco na verdade é uma divulgação do que deverá vir mais pela frente numa forma mais organizada, pelo fato de não haver uma ligação entre algumas músicas . As letras foram escritas por mim, exceto “Falar com Deus” onde contei com Don Killer na composição. Criolo fez a produção de todas as músicas, que teve a participação de Slow Da BF (Ex-Esquadrão ZN), Rodrigo RG, Kapella, Jonne Machado, Cacau (Baixada Brothers), Talita, Tuberco, Literarua, Juli, Treco e Oriundi. Com relação às fotos, quis retratar um pouco o cotidiano de vários brasileiros, inclusive em alguma situações eu mesmo já fui protagonista e em cima disso, quis aproveitar um pouco as minhas outras influências artísticas.

Contracapa do disco digitalizada do Acervo BF

B.F: O que querem dizer as palavras “ Literarua” e “ Oriundi” colocadas entre parênteses ao lado de algumas músicas?
P,10:
A Literarua é um projeto desenvolvido por mim, na qual misturo teatro, literatura, fotografia, dança, poesia e o Rap de uma forma mais pertinente. As músicas “Moleque Sete” e “Pra quem quiser ouvir” já são indícios do que eu quero fazer, agora em “A sombra do Terror”, mergulho fundo na ideia, deixando a métrica de lado e chamando a atenção do ouvinte para a interpretação dos personagens, apesar de que a “Literarua” para ser entendida, não basta ser ouvida, precisa ser vista, pois é aí que tentamos mudar as artes do povo e da elite numa tentativa de concepção sócio–cultural para instigar essa sociedade. Já no Oriundi, Don Killer, Leandro Firmino da Hora (que fez Zé Pequeno no filme Cidade de Deus), Criolo, Rodrigo RG e eu resolvemos unir as nossas influências artísticas e explora-las ao máximo para ver o resultado que conseguiremos.

B.F: Como define o seu estilo?
P,10:
Como um observador do ser humano e do mundo a sua volta. E é à partir da linguagem que P,10 trabalha a sua música, pois não tenho nenhum interesse em me apegar a determinado estilo. Quero sim, me concentrar na minha temática provocando, conservando, brigando, ironizando, balbuciando todas as minhas ideias. Intertextualizando com Brecht, Nelson Rodrigues, Gregório de Mattos, Plínio Marcos, Antônio Abujamra e todos aqueles que arrotaram para essa estética decadente e optaram pelo diferente, sem medo de darem certo ou errado.

B.F: Sofreu alguma ameaça ou represália por causa da foto da capa?
P,10:
 Até agora não. Mas se isso vier a acontecer, não mudarei minha postura de ironizar e “tirar uma onda” com aqueles que se sentem superiores a nós e, além disso, queria dizer que essa foto foi realmente tirada, não é uma montagem, o PM também é verdadeiro, se amarra em Rap e ainda disse que eu estava mais do que certo, até porque é preciso levantar a auto–estima do nosso povo, chega de bancarmos os coitados, de sermos sempre o estereótipo, chega!

B.F: O que está achando da cena carioca de Hip Hop?
P,10:
 Tem crescido bastante, mas ainda é preciso aumentar o nosso mercado, nosso espaço, pois sem isso ficaremos o resto da vida vendo grupos com imenso potencial fazendo shows pra meia dúzia de gatos pingados, enquanto os aproveitadores dessa moda que se tornou o Hip-Hop hoje, ganham rios de dinheiro fazendo festas onde apenas um elemento (que é o DJ), está inserido e assim não iremos pra frente nunca.

B.F : Espaço Aberto:
P,10:
Primeiramente eu queria agradecer a minha família que sempre me apoia , a toda nata que faz o Hip-Hop crescer nos quatro cantos do mundo. B.boys, grafiteiros, DJs e MCs, a toda galera do AI, da BF, Vila Operária, La Bella Máfia, A junção, Mentháfora, H2P, Brasília, Vitória, Fator Moral, Fábio Rogério, Rodrigo Mendes, Alexandre de Maio, Marques Rebello, Daniela Carrara, MD2, Yuka e Criolo.

1 comentário

  1. […] Não sou tão assíduo nas redes sociais então fico tipo “rubinho” em alguns acontecimentos e essa semana vi que o vídeo que o Professor Allan de Souza fez com seus alunos viralizou. Allan é o mesmo que em 2003, quando ele tinha apenas 21 anos, entrevistei aqui mesmo no Bocada Forte, mas pra nós ele é o P,10 (Pevírguladez) – leia a entrevista e entenda o significado do apelido. […]

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