Clássicos do Hip-Hop: voltando ao começo

Kamau e Emicida, foto por Bruno Gil – Acervo BF

É necessário voltar ao começo

Quem foi à casa noturna Hole no último sábado (1º de agosto) conferiu um momento histórico para o Hip-Hop brasileiro: no mesmo palco, os geniais Kamau e Emicida* fizeram o show intitulado “Clássicos do Hip-Hop”, em que resgataram canções históricas no surgimento e no desenvolvimento da cultura de rua. A festa foi promovida pela rádio Boomshot e, mais uma vez, teve casa lotada.

Nos toca-discos, o DJ Erick Jay deu o tom para dois dos mais criativos MCs da cena atual destilarem versos importantíssimos para a história do Hip-Hop brasileiro, mas desconhecidos por muitos adeptos recentes da cultura. Na abertura, improvisaram sobre o instrumental de “Good Times” (Chic), imortalizada no sample de “Rapper’s Delight” (Sugarhill Gang), tida por muitos como o primeiro rap da história. O único ponto negativo do show foi o baixo volume dos microfones, que dificultou bastante a compreensão das rimas.

Kamau e Emicida costuraram “Deixa isso pra lá” (Jair Rodrigues), com “Mas que linda estás” (Black Juniors) e relembraram “Nomes de menina” (Pepeu), “Corpo fechado” (Thaíde & DJ Hum) e “Voz ativa” (Racionais MCs), três das mais importantes canções do rap brasileiro. A cada música, faziam questão de bradar “Obrigado, Thaíde”, “Obrigado Pepeu”, etc.

Um ponto forte da apresentação foram as participações de Tio Fresh, cantando “Enxame” (SP Funk) e homenageando Sabotage, e Suave, cantando “Corre corre” (Jigaboo). Outra surpresa foi ver Kamau e Emicida cantando “Passin’ me By”, do The Pharcyde e homenageando J. Dilla. O coletivo Wu-Tang Clan também foi lembrado como fonte de inspiração dos rimadores.

Kamau, Tio Fresh, Emicida, Suave e DJ Erick Jay ao fundo – Foto por Bruno Gil – Acervo BF

Perto do final do show, em acapella, refrões de vários clássicos do rap brasileiro foram lembrados, como “Sou negrão” (Posse Mente Zulu), “Noite de insônia” (MRN), “Tik tak” (Doctor MCs), “Mano de fé” (Potencial 3) e outras pérolas – algumas, esquecidas ou ignoradas por boa parte da geração atual. Mestres no Freestyle, Kamau e Emicida não podiam deixar de improvisar, sobre o belíssimo soul “Alright” (Zapp), alternando as rimas com o refrão de “Fórmula mágica da paz” (Racionais MCs). Detalhe: a base é a mesma usada pelos Racionais para cantar esta música em seus shows – diferente da versão que foi para o imortalizado álbum “Sobrevivendo no inferno” (1998).

Ponto para reflexão

“É necessário voltar pro começo. Quando os caminhos se confundem, é necessário voltar pro começo”. Peço licença ao genial Emicida para parafrasear esta frase, tema de abertura de sua surpreendente mixtape “Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe” – que, na minha opinião, já nasceu com aura de clássico.

“Quandos os caminhos se confundem”– e acho que isso se encaixa no atual momento do Hip-Hop no Brasil – é necessário voltar ao começo. Foi esta a proposta, cumprida com muito talento e energia, por Kamau e Emicida. Não há árvore sem raiz e não se faz história sem memória. O recado foi dado com muita competência pela dupla que, certamente, daqui a 15 ou 20 anos terá seus clássicos lembrados pelas futuras gerações.

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