Opinião: Sobre ser Gisele Bündchen, mãe de família ou puta | Por Yara Morais

POR YARA MORAIS*

Dona Marisa faleceu. Mas para muita gente por aí, morreu a mulher do Lula. Ataques nas redes sociais, nas ruas, na TV. Nem descansar em paz Dona Marisa pode. Hoje, por 5 minutos antes de sair de casa, abri as redes sociais e a primeira coisa que vi, foi uma mulher, sim uma mulher, dizendo que a morte de Dona Marisa foi resultado do que o Lula plantou. E o que Lula plantou? Tirou 54 milhões da extrema pobreza! Bem, não quero falar de política.

Com a morte de Dona Marisa, é possível perceber um problema extremamente grave no Brasil e no mundo: ser mulher. Mas será um problema ser mulher? Ora, não somos nós mulheres que colocamos toda a antiga, nova e futura raça humana no mundo? Sim, somos nós. Mas o preconceito contra a mulher tem crescido tanto que, coisas absurdas são ditas e feitas contra nós e, acabam sendo mascaradas. Por quê? Porque nós somos mulheres.

Mulher é “obrigada” a casar virgem. Quando não acontece, é puta. “Deu” antes de casar. Quando casa, é obrigada a ter um filho, para honrar a genética do marido. Além disso, tem que trabalhar, cuidar da casa, fazer almoço, janta. Aguentar gente dando palpite. Ainda tem aquelas que sofrem violência doméstica e se calam. Por quê? Porque a culpada sempre é ela. O marido? “Ele trabalha, chega em casa cansado. Não encha o saco dele“.

E se você se separa? É puta (Como se existisse algum problema em ser puta, já que ninguém paga as contas delas).

Separou, não presta. “Desgraçou a vida do marido. Coitado, vai ter que pagar pensão. Vai ter que pegar o filho de 15 em 15 dias“. Namorado? “Não, mãe com filho não pode arrumar namorado. Quem vai querer você agora?

Deixar o filho com a avó para poder se divertir por algumas horas? Jamais. Só puta faz isso.

Solteira ou separada, ficar com vários homens não pode. Usar roupa curta? “Menina, você está pedindo para ser estuprada“. Modelo de corpo? Qualquer coisa próxima à Gisele Bündchen. E se você está “fora de forma” – “Nooooossa, como você está gorda“. Ninguém vai te querer assim. Como se “estar gorda” fosse algo surreal ou impróprio.

Se você gosta de futebol é o que? Lésbica. “Olha lá a lésbica com a camisa do Corinthians“. E se você é lésbica – “Olha lá a sapatona beijando outra mulher, eca!

Nunca se casou? “Tá encalhada“.

Tem muitos amigos homens? “Ih, tá rodando a banca.

É tatuada: “Puta e delinquente.

Se engravidar mais de uma vez: “Não toma remédio, esqueceu de colocar camisinha na bolsa, não se previne. Tá parideira, hein?!

Se for de pais diferentes: “É puta, só quer pensão. Coitado dos caras“.

Só esqueceram de avisar para a sociedade, que as mulheres são a raiz da humanidade. É fácil ver os defeitos com olhos machistas, quando está tudo lindo ao seu redor. E esse machismo, não vale só para pessoas do sexo masculino. Definitivamente não. Ele vale também, e principalmente, para mulheres com pensamentos machistas. Afinal, não sejamos hipócritas, esse machismo começa ainda quando você “acha” que uma mulher é “mais bonita” do que você!

Oras, você já viu como todas as raças, cabelos e corpos são bonitos, ou você é daquelas que quer ser a Gisele Bündchen? Que difícil, não?

E a Dona Marisa, mulher do Lula? Você já pensou que antes dela ser mulher do Lula, o Lula, na verdade, é que era o marido de Marisa Letícia? Não, né? Você sabia que Marisa perdeu o primeiro marido assassinado, quando ainda estava grávida? Não, né? Sabia que ela era mãe, avó, companheira de um dos homens mais influentes do mundo e a pessoa que tinha que carregar todas as alegrias e tristezas deste homem?

Fatos assim, me fazem perguntar a mim mesma em que diabo de mundo estamos vivendo?! Um mundo onde mulheres se atacam entre si, chamam as que lutam por direitos iguais e melhores de “feminazis” e comemoram a morte de uma mulher que viveu dias de ódio e de glória.

Até quando vamos fingir que nada está acontecendo? Até quando vamos viver nos escondendo, fingindo ser quem não somos por conta de um mundo fascista e cheio de preconceitos? Até quando vamos aceitar salários menores, direitos menores e amores menores? Mulher, liberte-se! O feminismo existe exatamente para que possamos nos unir. E daí que você tem celulite, estrias, pesa 50 ou 100 kg? E daí que o seu cabelo é curto ou longo? E daí que você se separou? E daí se você é puta, burguesa, de esquerda ou se quer dar para o primeiro que encontrar na rua? E daí? O que importa é realmente ser quem você é e, nem o Papa Francisco poderá mudar isso. Seu corpo, suas regras (em todos os sentidos).

Você não precisa casar com qualquer babaca que disser que te ama, afinal, já dizia um colega jornalista: “as mulheres perceberam que não vale a pena comprar um porco inteiro só para ter uma linguiça“.

*Yara Morais é jornalista,
pós-graduada em ciências
políticas e colaboradora
do portal Bocada Forte.

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