Opinião: Precisamos falar dos direitos dos negros e de você | Por Yara Morais

POR YARA MORAIS*
(Texto originalmente publicado no blog Rabisco de Vinil, etc… & tal!)

Sim, é a mesma história chata de sempre. Chata, mas, essencial. Hoje, precisamos falar de James Meredith e da importância dos que lutam pelos direitos dos negros. Meredith, de ascendência afro-americana, nasceu em 25 de junho de 1933.

Como muitos jovens americanos, se alistou na Força Aérea dos Estados Unidos (1951-1960). Ao término da carreira militar, tentou por duas vezes cursar a Universidade do Mississipi e, então, chegamos ao ponto principal da história dele: teve o pedido negado em ambas as vezes. O motivo? Era negro e a Universidade possuia uma política de segregação racial que permitia apenas o ingresso de alunos brancos . Em outubro de 1962, James Meredith conseguiu, após intervenção federal, o ingresso na Universidade do Mississipi, se tornando o primeiro negro “aceito” na graduação da mesma.

Foto: Divulgação (James Meredith na formatura da turma de Direito da Universidade do Mississipi)

Mas, Yara… Por que falar desse cara?” Simplesmente para explicar que o problema do racismo e de vários outros fatores englobados pelos direitos humanos, não começaram a “florecer” na década de 90. Não. Aliás, se você pensa que os direitos básicos e de segurança no mundo funcionam de forma igualitária para negros e para brancos, você precisa estudar, pesquisar, se aprofundar.

Foto: Divulgação/ Ruby Bridges em sua sala. Ao fundo, quadro retrata ela quando criança sendo escoltada à caminho da escola

Para te ajudar, cito um outro exemplo: Ruby Bridges. A primeira criança negra a estudar numa escola caucasiana em Louisiana, também nos Estados Unidos. Moldados pelo ódio, os pais das demais crianças impediam os seus filhos de ir à escola. Jogavam objetos em Ruby no trajeto para escola. Uma criança de apenas 6 anos, sendo humilhada por ser negra. Desistir? Ela nunca desistiu. Sua família ainda sofreu diversas perseguições por pasmem: desejar e dar uma educação de melhor qualidade para sua filha. Então, amigo (a), se você acha que a luta contra o racismo é em vão, pare de ler por aqui.

Eu poderia passar horas e horas relatando casos de racismo no mundo para te fazer entender o que os negros passam todos os dias nas grandes metrópoles, mas, talvez eu não consiga. Você pode ainda se imaginar às 4 da manhã, voltando de uma balada. Você branco, de olhos azuis. No seu bolso – cocaína. Na mesma cena imagine um jovem negro, indo para o trabalho, do outro lado da calçada. Mais à frente, uma viatura policial. Responda se puder: quem a policia vai abordar primeiro? Se você disse: o negro – bingo! Você é muito esperto!

Bato na mesma tecla quantas vezes forem necessárias: precisamos sim, falar de racismo, de cotas, de história. Essa última, nunca me deixa na mão: você pode enganar à todos. Mas a história, a história não perdoa.

Vou te dar um exemplo ainda mais claro, só que dessa vez, real. Marcos Vinicius da Silva, 14 anos, era morador de uma comunidade no Rio de Janeiro. Há uma semana atrás, Marcos estava indo para a escola quando de repente, foi misteriosamente atingido por um tiro. De onde veio o tiro: do blindado da policia especial do RJ. (“Mãe, ele não viu que eu estava com o uniforme da escola, mãe?” – se você não se aterrorizou com este caso e, não se sensibilizou com essa situação, você já tem menos um ponto nessa “brincadeira” toda).

Bato na mesma tecla quantas vezes forem necessárias: precisamos sim, falar de racismo, de cotas, de história. Essa última, nunca me deixa na mão: você pode enganar à todos. Mas a história, a história não perdoa. É certeiro. Existe uma coisa que eu espero deste país – educação básica de qualidade à todos. Ou você acha mesmo que um aluno negro, da periferia – eu digo negro porque se você nasceu no Brasil e mora numa zona considerada de periferia, querido, mesmo que seja branco, você não faz parte da seletiva raça ariana. Desculpa por destruir seu pensamento de uma vida inteira. O cara da periferia, não tem as mesmas oportunidades de educação do cara que nasceu na zona sul, estuda em um colégio de 5,000 mensais e, desde pequeno é treinado para falar inglês, espanhol e, até mesmo, comer com 7 talheres diferentes. Não, não tem.

Foto: Divulgação/ Velório do estudante Marcos Vinícius da Silva, 14 anos, morto por tiro da tropa especial da Polícia Militar do Rio

Nós precisamos de mais negros nas cadeiras dos juízes de Direito. Precisamos de mais negros nos bancos. Precisamos de mais negros com CRMs. Precisamos de mais negros no topo. Por isso, e agora falo com pais de crianças negras, é tão importante educar as nossas crianças negras como crianças negras. Para que nenhum Estado branco tente educá-las ilusoriamente como crianças brancas elitistas.

Alguns estudos ainda mostram que, nas universidades, 70% dos alunos são brancos enquanto 30% são negros. Ainda te digo que, é fato: as universidades brasileiras são elitistas. Yara, por que demônios vamos continuar falando dos negros? Porque é necessário. Enquanto tivermos jovens de periferia sendo mortos, presidente golpista tentando de todas as maneiras mexer na educação para pior, é necessário falar do jovem da periferia. Do jovem preto da periferia. O jovem do futuro. As cotas raciais são plenamente justificáveis partindo do nosso passado escravocrata, longe de ser superado. E vou mais longe, não vamos falar apenas de cotas.

Foto: Divulgação/ Romelu Lukaku (Jogador do Manchester United e da Seleção da Bélgica)

Nós precisamos de mais negros nas cadeiras dos juízes de Direito. Precisamos de mais negros nos bancos. Precisamos de mais negros com CRMs. Precisamos de mais negros no topo. Por isso, e agora falo com pais de crianças negras, é tão importante educar as nossas crianças negras como crianças negras. Para que nenhum Estado branco tente educá-las ilusoriamente como crianças brancas elitistas. Para que elas tenham valores e saibam lutar por esses valores. É necessário falar de tudo. É necessário se posicionar como descendente de escravos, aqueles, tragos ao Brasil e enganados por uma “escola” européia que sempre se intitulou uma raça superior.

Na teoria é muito bonito bater no peito e dizer que não precisou das cotas. Mas e na prática? Na prática não passa de um racismo porco atravessar a rua durante a noite, cada vez que vê um negro vindo em sua direção, achando que será assaltado. Preciso fechar esse texto com uma frase de Romelu Lukaku (procure conhecer a história dele se não conhece): “Quando eu ia bem e fazia gols, os jornais me relatavam como o jovem artilheiro do time. Quando eu ia mal, eles me relatavam como o jovem jogador descendente de congoleses. É hora do povo negro vencer, para que conheçam o nosso nome e para que acreditem em nós, sem que precisemos apresentar documentos provando que não somos bandidos!

*Yara Morais é jornalista,
pós-graduada em ciências
políticas e colaboradora
do portal Bocada Forte.

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