NOVOS SAMPLES | Helixx C. Armageddon abre as portas da sua casa onde a música é terapia

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Mais uma vez a seção Novos Samples traz a indicação de um álbum que nos mostra que o Rap que salva vidas ainda (R)existe. Esse lançamento é estadunidense, mas dialoga com muito do que vem sendo feito no underground ao redor do mundo e também aqui no Brasil. Helixx C. Armageddon é uma veterana, caso nunca tenha ouvido falar dela pesquise sobre, pois ela é uma das grandes guerreiras da Cultura Hip Hop, além de ser MC é uma talentosíssima poetisa. Seu primeiro lançamento oficial está no álbum ‘X-Pressions’ (1997), disco de estreia da Crew de DJs X-Ecutioners, que naquele momento já tinha deixado de ser X-Men e tinha na formação Mista Sinista, Grand Master Roc Raida (em memória), Rob Swift e Total Eclipse. Ela participa na faixa “Poetry in motion”, beat produzido pelo Mestre Roc Raida onde ela declama uma poesia e já mostra o compromisso com a Cultura Hip Hop, seus elementos e principalmente o respeito à arte dos toca-discos.

Seu respeito e compromisso com o Hip Hop não nasceu com essa faixa, já veio de alguns anos antes e é muito importante informar que ela foi a co-fundadora de uma Crew formada apenas por mulheres, a The aNoMoLies. Ela começou a crew em 1995 com a DJ Kuttin Kandi, outra mana que até hoje segue na militância e é inclusive um dos nomes mais atuantes e importantes nesse sentido. Kuttin, entre outros feitos, foi a primeira mulher a participar das finais do DMC EUA, isso em 1998. A crew chegou a ter quase 30 integrantes, entre MCs, DJs, B.Girls e Grafiteiras. As mais conhecidas e atuantes, além das fundadoras, são – MC Pri The Honey Dark, MC Invincible, MC/B.Girl Just (Phen4, Tara, Phenomenon) e B.Girl Dun Deal.

Abaixo assista a DJ Kuttin em ação

Todos esses nomes são estranhos ou novos para você? Pois é, a indústria faz isso, apaga nomes que contrariam a lógica de mercado, ainda mais sendo mulheres, e por isso é muito importante a existência de um veículo de comunicação ESPECIALIZADO na Cultura Hip Hop. Lembra da Apani B-Fly Emcee? Em 1998 ela lançou o single “Estragen”, só com mulheres na rima e além de Helixx e sua parceira de crew Pri The Honey Dark, se liga nos nomes que participaram – Heroine, Sara Kana, Ayana Soyini, Jean Grae e Yejide. Uma gravação importante para ela e para sua crew foi a faixa “Lunchbreak” na coletânea ‘No More Prisons’ (1999), um disco lançado para protestar contra o encarceramento em massa que vale a pena ouvir de ponta a ponta. Ela teve muitas outras participações, mas talvez uma que quem acompanha o “submundo” do Rap lembre bem seja a faixa “Blacklisted” do Jise One (Arsonits).

Cheguei nesse ponto do mano do Arsonists porque ele faz parte da Creative Juices e a Helixx também faz parte e foi justamente pela CJM que ela lançou em 31 de outubro de 2022 o seu primeiro álbum solo, com o título ‘House Of Helixx’. A produção é toda de Shanty Gallos, também conhecido como IDE, membro fundador do selo/crew/gravadora Creative Juices Music junto com Alucard. São 13 faixas com temas atuais, principalmente sobre saúde mental – no release do disco está escrito que Helixx passou por uma situação de “quase morte”, não encontrei informações sobre o que aconteceu com ela, mas ela cita essa situação de “quase morte” em algumas faixas e fala sobre ter sido salva pela musicoterapia.

Destaque para as faixas:
“James Baldwin” – onde ela fala que a suas lutas, pautas e escolhas são parecidas com a do escritor e ativista James Baldwin;
“RollerCoaster” – a tradução do título é montanha russa e nessa música ela está nitidamente falando sobre depressão e o enfrentamento aos altos e baixos da vida;
“Railroad” – nessa faixa ela também fala sobre saúde mental e dá pistas sobre a situação de quase morte que passou e é uma das letras mais poéticas do álbum.
“Akashic records // Blood memories” – Essa tem a participação de Jise e também é pura poesia onde ela recorre a força dos seus ancestrais – “Eu venho dos escravizados / Seu sangue bombeia em minhas veias / Alimenta as guerras dentro de mim / Eu sou o que resta / Esses registros guardam todas as minhas memórias de sangue”;
“Hold the lines”
– Essa é a penúltima faixa, nessa ela mostra a sua essência ativista e convida suas parceiras de crew – DJ Kuttin Kandi, Pri The Honey Dark, Invincible e Big Tara.

Gostei bastante do álbum e esse é o ‘Book 01’, ela já está preparando o ‘Book 02’. Gostei ainda mais de saber que ela continua na ativa. Vejo nas redes sociais alguns artistas falarem sobre mulheres do Rap estadunidense e os nomes citados são sempre os que a indústria impõe. É importante que nomes como de Helixx e toda sua crew sejam conhecidos, bem como Akua Naru, Rita J, Sa-Roc, Apani B, Jean Grae, Heather B, Mercedes Ladies, Sha-Roc, Georgia Anne Muldrow e tantas outras. As The aNoMoLies tem uma história que perdura até hoje com muita luta e resistência contra o machismo e a misoginia dentro do Hip Hop, além de muitas outras pautas. Pesquise, procure conhecer mais sobre todos esses nomes, pois as redes/plataformas/algoritmos/mercado/indústria não vão te mostrar essas informações.

Ouça o álbum

centralhh.com.br
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