#MemóriaBF | O relógio de Kool Moe Dee moldando o Rap

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Na coluna anterior, falei sobre o produtor Kurtis Mantronik, que utilizava diferentes equipamentos para fazer as batidas do Rap do grupo Mantronix. Tudo isso rolou na década de 1980 e inspirou jovens artistas periféricos ao redor do planeta.

Aqui em São Paulo, o Rap começava a ser desenvolvido e, além das emissoras de rádio que tinham horários reservados para a música negra, os bailes black foram fonte e referência para os futuros rappers e DJs do canto falado.

Discos de Rap norte-americano dividiam espaço com álbuns de funk e soul e coletâneas de samba-rock nas lojas do centro da cidade e dos arredores do Largo Treze de Maio, em Santo Amaro. Para quem morava nos extremos da zona sul e conseguia juntar alguma grana, as lojas de Santo Amaro eram a salvação.

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@vinil.quente – Vinis novos, usados, raros e lotes de discos

Um dos artistas internacionais mais procurados na época era Kool Moe Dee, que no final da década de 1980 já tinha dois discos lançados: ‘Kool Moe Dee’ (1986) e ‘How Ya Like Me Now’ (1987). Em 1988, o rapper fez show no Brasil, num evento organizado pela Chic Show, algo que marcou a vida de muitos jovens que pretendiam ingressar no mundo das rimas e dos toca-discos.

“O primeiro show de Rap que eu vi foi do Kool Moe Dee, no final dos anos 1980. Eu
vi o DJ dele, Easy Lee, fazendo scratch em cima de uma música do Tim Maia [a
canção “Você mentiu”], e eu achava que só era possível fazer scratch com disco
importado, com disco especial, e então eu vi a possibilidade de fazer scratch em
cima de qualquer disco quando ele fez no do Tim Maia. Ele estava passando som
com o disco do Tim Maia e fez uns scratches. Pensei: “caramba!”. A sonoridade do
scratch me enfeitiçou”, disse KL Jay, dos Racionais. Fato registrado na dissertação DJs, Remixes e Samples, de Nilton Faria de Carvalho, e confirmado por Mano Brown no vídeo abaixo:

Kool Moe Dee, cujo nome real é Mohandas Dewese, nasceu em 8 de agosto de 1962, em Nova York. Um dos pioneiros na cena do rap, foi integrante do The Treacherous Three, junto com Special K, DJ Easy Lee,  L.A. Sunshine e Spoonie G (que já não fazia parte do grupo nos 80).

Muitos não conhecem este som, mas já ouviram trechos em vários campeonatos de DJ:

No livro I Am Hip-Hop – Conversations on the Music and Culture, de Andrew J. Rausch, Chuck D, do Public Enemy, revela que Moe Dee é uma das suas grandes influências.

Capa do álbum ‘How Ya Like Me Now’ autografado por Kool Moe Dee e DJ Easy Lee – Disco do MC Who (O Credo, Coletivo Hip-Hop Cultura de Rua)

Ainda nos 80, foi numa apresentação em um clube de Nova Jersey que Eric B e Rakim encontraram Kool Moe Dee. No livro Sweat the Technique, Rakim, considerado um dos melhores MCs do planeta, recorda:

“Em uma data do clube, eu conheci um dos meus rappers favoritos de todos os tempos, Kool Moe Dee. Eu aprendi muito sobre MCing ouvindo seu flow suave, sua inteligência, sua voz profunda e grave. Suas rimas me mostraram como chamar a atenção de alguém. Tudo o que Moe disse foi ótimo, e naquela noite Kool Moe Dee disse que ele realmente gostou dos meus discos. Ele disse que meu trabalho parecia sincero. Isso significou muito vindo de um ótimo MC.”

Steady B, DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince, Boogie Down Productions e Kool Moe Dee ao vivo, em 1987

No mesmo período, em São Paulo, Mr. Theo lançou sua versão para a música “Go see the doctor”, do primeiro disco de Kool Moe Dee. “Cerveja” saiu na coletânea “A Ousadia do Rap”, da Kaskatas (1987). O rap de Theo tem produção do DJ Cuca, que já dominava equipamentos que muitos aqui nem sabiam da existência.

Sem as máquinas de produção, a alternativa para os artistas daqui era rimar em cima do que muitos passaram a chamar de “base gringa”, discos de vinil com instrumentais das músicas dos rappers estadunidenses, mas, mesmo assim, os discos importados eram muito caros. Sabemos que isso não impediu o desenvolvimento do rap nas periferias do estado.

A pirataria – sim havia uma produção intensa de discos piratas – proporcionou o acesso ao rap e seus instrumentais. Não sei se isso rolou em outras cidades do país, mas por aqui, muitos DJs de diferentes bairros – que eram conhecidos como baileiros e tinham alguns equipamentos e discos piratas de rap com versões instrumentais em seus acervos – passaram a ser chamados para participarem dos grupos ou duplas da nova sensação da música alternativa e nada respeitada.

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Kool Moe Dee, que é também conhecido por desafiar o rapper Busy Bee para uma batalha de rimas, em 1986, veio novamente ao Brasil em 2015. No início do rap brasileiro, as músicas “Do you know what time it is” e “Go see the doctor” eram obrigatórias nos bailes, espaços que – com o passar do tempo-  já não eram mais abrigo para o breaking e seus adeptos. Abrir uma roda no meio do evento começou a gerar reclamações e repressões de diferentes níveis vindos dos seguranças.

Um dia a gente conversa sobre isso. O tempo passa, as coisas mudam…e o barulho do relógio de Moe Dee continua ecoando.

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