Cado Torre, o MC que respira e transpira o rap alternativo de São Paulo

A história de Torre se confunde com a história do rap no distrito do Grajaú, na zona sul de SP

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Foto: Junior Sá / Quebrada Views

“Eu cresci no meio de toca-discos e álbuns de rap, eu tinha dez anos”, diz Cado Torre, MC e produtor que lançou o disco “Transpiração”, no final de 2021. Inspirado pelo seu tio Sinval e pelo então DJ Anselmo, que faziam bailes na periferia da zona sul de São Paulo, Cado conheceu a estética instrumental que jamais abandonaria.

“Eles me levavam para os bailes. Eu curtia os balanços e o rap nacional. Ouvia Thaide, Naldinho- que também vi cantando no Sesc Interlagos- e Racionais”, lembra o MC.

O olhar mais crítico em relação ao rap e suas letras veio com o tempo, na vivência com os manos do Parque São Paulo e do Parque América. Ao seu redor havia a precariedade de bairros em construção, o crime e muitos jovens fazendo rap.

“Percebi que as músicas que eu escutava com meu tio tinham tudo a ver com aquela realidade. Aí, na escola, aos 14 anos, tive aula com o irmão do Criolo, ele tinha um grupo chamado Sub Gueto. Ele cantou na gincana da escola. Pensei: um cara da minha quebrada cantando rap, tão próximo de mim. Decidi cantar rap também”.

Antes de fazer rap, no meio dos anos 1990, Cado Torre conheceu os corres da pixação. Passou dias e noites na vibe da escrita. Foi na festa Class, entre 1996 e 1997, que Torre conheceu o rap underground e o bate-cabeça. Aí já era. Aos 18 anos começou a escrever rap nas bases gravadas nos discos piratas do seu tio Sinval.

Cado Torre e Drezz (Foto: instagram do Artista/Divulgação)

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O MC conheceu os primeiros trabalhos do rapper Drezz (Xemalami), que na época tinha um grupo chamado Testemunha do Holocausto, no Jardim Reimberg. Também evoluiu nas rimas com seu parceiro Eliseu, “que era mais malandro no rap, na Rádio Grajaú FM”.

“Decidimos gravar umas músicas na minha casa. Nessa época, o Testemunha do Holocausto já tinha acabado, Drezz agora era do Pacto Latino. Eles gravaram fitas demo, gravaram vídeos, foi da hora”.

Eliseu, que tinha a posse Original Sul, convidou Cado para formar o grupo. O nome da parada era pesado: Sangria do Gueto . “Era uma mistura de Facção Central, GOG, Racionais e Consciência Humana. Era virada dos anos 2000, o bagulho era louco na periferia. A gente não tinha que pegar leve, a realidade era aquilo”, relembra.

Sangria do Gueto durou até 2002. Os trabalhos como segurança de Cado e o curso que Eliseu estava fazendo na parte da noite dificultaram os corres do rap.

Entre 2005 e 2006, inspirado pelos integrantes do Clube do Berro, que já estavam fazendo seus próprios beats e deixando de lado as bases dos vinis piratas e importados, Cado Torre aprendeu a fazer instrumentais com Gor-Flow e Eze de Doins.

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Só em 2011, com um pouco mais de experiência nas rimas e nos beats, é que Cado, também influenciado pelo seu primo músico, Guilherme, começou a lançar seus raps. De lá para cá, entre uma pausa e outra, conquistou autoconfiança. Hoje, dominando o Ableton Live, tem seu home studio, onde produz suas músicas e o rap dos parceiros.

“Agora já sei mixar, tenho um projeto com o Xemalami, vários singles e dois discos nas plataformas. O hip hop está na veia”, afirma.

O boom bap, estilo de rap feito por Cado Torre, continua sendo produzido no mundo todo, apesar do trap, drill e grime estar na preferência do público jovem atual. Com batidas fortes e letras politizadas, o MC coloca seu olhar na realidade para criticar, questionar e se encontrar em meio ao que podemos chamar de era da burrice que domina o cenário político e parte do rap nacional.

Em seu mais recente disco, Cado preferiu não falar da pandemia de Covid-19. “É difícil, morreram vizinhos, pessoas próximas. Durante essa parada, tomei cuidado, saí pouco, mas escolhi falar de outras coisas que também são importantes”, conclui.

OUÇA O DISCO “TRANSPIRAÇÂO”

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