Arigatou, Banks!

B-Boy Banks. Foto: Facebook do artista

POR GILBERTO YOSHINAGA*

Quando fui convidado para participar do 1º Encontro de Literatura Marginal de São Carlos, em outubro de 2015, o que mais me animou foi a oportunidade de conhecer uma pessoa cujo nome eu tinha escutado diversas vezes, na fase em que eu fazia a pesquisa e colhia informações para escrever a biografia de Nelson Triunfo.

Banks em ação. Foto: Facebook do artista

Aliás, não sei como não o conheci antes, porque nossos caminhos se cruzaram diversas vezes, seja em razão de encontros culturais na Casa do Hip-Hop de Diadema ou de outros eventos em São Paulo. O convite para ir a São Carlos, há pouco mais de dois anos, foi a deixa para que eu pudesse conhecer pessoalmente o b-boy, educador e poeta BANKS, ícone da Back Spin Crew.

Contatei os organizadores e comentei: “Eles vão pra São Carlos de que? Ônibus? Poxa, eu vou de carro. Posso dar carona para eles! [porque Banks iria com seu parceiro Cérebro, com quem formava a dupla mais afiada do circuito de slams de São Paulo]” No dia do evento, já com o endereço de Banks em mãos, busquei ele e Cérebro e fomos a São Carlos.

Pegar estrada junto com Banks, participar do encontro de literatura marginal e conviver com ele por aqueles dois dias em São Carlos também me ajudou a conhecer um pouco do ser humano Ericson Carlos Pires da Silva. Um cara que foi “salvo” pela cultura hip-hop duas vezes: a primeira, quando se desvencilhou dos tentáculos negativos que seduzem muitos jovens de periferia e se tornou um dos melhores b-boys de sua geração, tendo excursionado com Thaíde & DJ Hum por todo o Brasil e até mesmo para a França; e a segunda quando teve um grave problema nas pernas, que o impediu de prosseguir na dança, e encontrou refúgio nos livros, nas letras, tornando-se respeitado poeta nos inúmeros saraus e slams que abrilhantou com sua performance – sempre ao lado de Cérebro.

Depois disso, nos cruzamos na inauguração da Casa do Hip-Hop de Bauru e na festa de 30 anos da Back Spin Crew, para a qual, mesmo em meio à grande trabalheira de organizar um evento desse porte, ele próprio me telefonou fazendo o convite – uma verdadeira convocação! – e oferecendo uma mesa para que eu pudesse divulgar meu livro.

Acordei hoje pouco depois das nove da manhã, com um recado da Ana P., esposa do Thaíde. E soube que Banks foi convocado para o slam divino, para a batalha das almas que já cumpriram sua missão e merecem descansar em um bom lugar. A cultura hip-hop brasileira perde um de seus mais importantes agentes, mas o legado por ele deixado será eterno.

Vou guardar para sempre duas imagens de Banks. Uma delas, dançando, gingando, rodopiando e desafiando as leis da Física com seu corpo. E outra, mais recente, segurando um livro como se fosse uma arma de fogo, “apontando-o” para a cara do público e atirando “violentas” palavras, à queima-roupa, para a testa e o cerebelo de quem quer que fosse.

À sua família de sangue desejo todo conforto possível. E à sua família das ruas desejo que sua importância nunca seja esquecida nem desonrada.

Descanse em paz, Banks. E muito obrigado por tudo o que fez pela nossa cultura hip-hop! Arigatougozaimasu!

O SENTIDO DA VIDA É EU CONTINUAR PROSPERANDO NO QUE ESTOU FAZENDO. QUEBRANDO CADA DIA UM PRECONCEITO (…) É FAZER DA MINHA CULTURA A MINHA MOVIMENTAÇÃO SOCIAL, A MINHA PARTE DENTRO DA SOCIEDADE (…) QUER MAIS SENTIDO QUE ISSO? A GENTE FAZ O BEM. MEU SENTIDO DA VIDA É SER UM VÍRUS DO BEM. (Banks Back Spin em reportagem de Gabriela Gasparin, no Blog Vidaria)

*Gilberto Yoshinaga (Gilponês) é jornalista,
escritor, produtor cultural e colaborador do
portal Bocada Forte. Um dos fundadores do
coletivo/selo Shuriken e autor dos livros
Nelson Triunfo: Do Sertão ao Hip-Hop” (2014),
“Thaíde: 30 Anos Mandando a Letra” (2016) e
“Thaíde: Sr. Tempo Bom” (no prelo).

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