Por onde anda: X (Câmbio Negro)

Entrevista feita por Noise D, com colaboração do DJ Cortecertu, última edição em 08 de outubro de 2019

X

Ele é considerado e respeitado como um dos maiores MCs da cena nacional nos anos 90. Conhecido por seu timbre de voz inconfundível e rimas contundentes, o Rap nacional com certeza deve muito de sua história vitoriosa e promissora a esse artista. Estamos falando de X, vocalista de um dos grupos mais efusivos da cena nos anos 90, o Câmbio Negro.

Morador da cidade satélite de Ceilândia, no Distrito Federal, X foi o principal vocalista do grupo de 1990 até 2000, quando a banda desfez-se. A partir daí o MC seguiu em carreira solo. No total foram cinco discos gravados. Três pelo Câmbio Negro e dois individualmente, muitos sucessos e histórias pra contar.

Já faz um tempo que X anda sumido. Muitos se perguntam: por onde anda o poeta rimador de Brasília? O que anda fazendo? E, assim como ele, muitos outros artistas, espalhados pelo Brasil, estão incógnitos, tocando suas vidas de forma discreta.

“Por Onde Anda” pretende, com a sua ajuda e a dos colaboradores, encontrar essas figuras. Fazê-las vir a tona, dividirem suas experiências e contarem suas histórias.

X é o nosso primeiro convidado, mas contamos com você para sugerir e nos ajudar a encontrar mais artistas que no passado tiveram grande importância para a cultura Hip-Hop e a música Rap nacional. Boa leitura.

Ouça o primeiro álbum do Câmbio Negro

BF: Por onde anda o X?

X: De volta ao lar. Continuo morando na Ceilândia ao lado de meus familiares e próximo de amigos. Meio afastado do Hip-Hop por ter outras prioridades há algum tempo.

BF: X é sinônimo de atitude, postura e por muito tempo foi referência no Rap do DF e nacional. Conta pra gente, o que você fez, e fez bem, e o que deixou de fazer e ainda queria realizar no Hip-Hop?

X

X: Comecei no Hip Hop em 1983 dançando Break, venci o primeiro e o segundo concursos de Rap do DF, no início dos anos 90, gravei três discos com o Câmbio Negro – “Sub-Raça” (1993), “Diário de Um Feto” (1995) e “Câmbio Negro” (1998). Concorremos várias vezes em premiações da MTV e em 1999, concorrendo com dois vídeos em três categorias, ganhamos o prêmio de melhor clip de Rap do ano. Após isso, gravei dois discos solo – “Um Homem Só” (2000) e “Curto e Grosso” (2005). Participei de vários discos de Rap Nacional, fiz shows por boa parte do país, com artistas de Rap e de outros estilos musicais. Ministrei oficinas de Rap no Presídio da Papuda, no DF, trabalhei em alguns outros projetos com jovens em situação de risco e participei de debates em Universidades e faculdades no DF e fora dele.

Pude participar, juntamente com os outros integrantes do Câmbio Negro, da campanha nacional do Ministério da Saúde contra o abuso de drogas em toda a rede de TV do país. Fiz uma pequena aparição no filme “Domésticas” – um filme da O2 – e participei de um documentário do cineasta Adirley Queiros, chamado “Rap o Canto da Ceilândia”, que ganhou dois prêmios no Festival de Cinema de Brasília.

Eu gostaria de ter visto o último disco do Câmbio Negro e meus dois solos saírem em vinil. Gostaria de ter vendido 100 mil cópias e de ter tocado mais pelo país e fora dele. Também gostaria que todos os integrantes do Câmbio pudessem ter comprado a sua casa própria. Ainda quero fazer um disco e pretendo fazer um vídeo-clipe ainda esse ano. Sonho em gravar um DVD do Câmbio Negro, só que em estúdio, mas sobre isso não posso adiantar muito, pois ainda é um sonho.

Ouça o segundo álbum do Câmbio negro

BF: Como X vê o Rap nacional hoje em dia?

X: Não tenho estado muito atendo ao Rap nos últimos tempos por ter outras prioridades, mas o pouco que ouvi me deixou descontente. Quero crer que existe muita coisa boa por aí, mas infelizmente não aparece. Infelizmente, com a evolução tecnológica, que deveria ser utilizada a nosso favor, apareceram sons que eu considero inaudíveis. Em minha época, e nem faz tanto tempo assim, o cara – ou grupo, mina ou banda, seja lá o que for – tinha que ter conteúdo e não vejo muito isso hoje. Mas, como disse, estou meio afastado e acredito que exista. Já ouvi umas coisas legais por aí!

BF: A busca pela profissionalização no Brasil virou uma “briga interna”. Muita gente contribui com a evolução da cultura de rua, com uma postura de valorização e seriedade. No entanto, muita gente persiste com pensamento pequeno, pisando em tudo e todos pra alcançar seus objetivos e vendendo seu trampo como se fosse um enlatado na prateleira… O que falta pra isso mudar? Você acredita que um dia a cultura Hip-Hop terá o mesmo respeito no Brasil que outras manifestações nativas?

X

X: Acho que falta um pouco de vergonha na cara. Um pouco mais de amor próprio, seriedade, maturidade e que o público seja mais seletivo com aquilo que leva pra dentro de seus lares e coloca para sua família ouvir. Acredito sim, que possamos ter o respeito que as outras manifestações culturais tem, mas para isso temos que amar e não ser somente amadores. Temos de nos profissionalizar, termos respeito e responsabilidade.

BF: A gente sabe que sua linha sempre foi a conscientização, sem sensacionalismo ou apelação. Em todas as suas músicas você explora muito bem a realidade, no sentido de aproximar aqueles que não a conhecem e de alertar quem a vive pros caminhos positivos a seguir. Você acha que está faltando isso hoje em dia? Que ingredientes você acha que um clássico do Rap deve ter?

X: Não sou perfeito e nem pretendo ser. Quem me conhece um pouco sabe que tenho uma personalidade forte e sou um cara difícil de conviver, mas dentro de minhas limitações e guardadas as devidas proporções tento fazer um som original. Um som com a minha cara e não ser cópia, clone de ninguém. Digo que sejam vocês mesmos. Thaide já existe, Racionais já existe, Dina Di já existe, GOG já existe, Câmbio Negro já existe, X já existe, Hood já existe, Zé Brown já existe e assim dezenas e dezenas… Seja você, tenha a sua cara. Faça seu nome!

Assista o DVD do Câmbio Negro

BF: Você acha que o Rap com teor político é pouco atrativo para os mais  jovens? Porque? Fale um pouco sobre isso.

X: Acho que ainda sim… Boa parte dos jovens ainda não teve a real consciência da politização e por isso ainda votam em um bando de caras que só querem grana e depois mandam eles aqui pro DF pra ficar falando mal de Brasília em noticiários de TV. Acredito que sem uma postura politizada da juventude estamos fadados a continuar a aguentar a volta de “Fernandos” ao poder. Se diz que é de atitude, então prove! Vote em quem tem propostas e não em promessas. E se esse ou essa não sustentar o que diz então tire-o de lá! Inteligência a juventude e todos nós temos, mas tem que usar. Chega do papo “rouba mas faz”, tá ligado?

Véi, votei no Lula e pedi votos pra ele, mas não vou lá no Palácio de pires na mão pedir nada pra ele. Se quiser que o Hip-Hop trabalhe junto tô aí, mas se não, vou estar aí depois de sua saída fazendo minhas paradas. Respeito o meu presidente, mas sem o povo ele não é nada! Assim que acho que deve ser. Quem se abaixa demais mostra o próprio rabo! Vou morrer como uma árvore, véi… De pé!

BF: Como afastar os jovens das armadilhas do capitalismo, se vários grupos de Rap falam apenas em bens materiais, fazendo Rap como se fossem jingles para comerciais?

X: Livros, conhecimento, ouvir os mais antigos, ter princípios… Se aprofundar naquilo que diz que faz. Se diz que é, então seja! O trabalho que vai pra uma prateleira é o produto de seu intelecto, faz parte de você e vai influenciar várias pessoas. Então cuidado com o que escreve e diz. Ninguém é perfeito. Eu mesmo já fiz muita coisa errada, mas tô tentando aprender e ensinar com meus erros. Bens materiais são como palavras sem fundamento, sem sustentação. Se desfazem com o vento! Nós devemos aprender com nossos erros e não cair nos mesmos. Tem que saber que é como no Jiu Jitsu, véi… Nem sempre quem está por baixo está em desvantagem. Pode estar preparando o golpe final, então preparem-se e finalizem. É isso.

Assista ao vídeo da música “Circulo vicioso”

BF: Quem você destaca da nova cena do DF e porque.

X: No Rap tá difícil, mas ainda tem coisas boas… Cara, gostei dos trabalhos do Dino, que não é novidade e do Viela. Tem um grupo que achava legal, chamado Artigo 2, mas parece que já tá vindo numa outra linha aí. Mas o som era bom. Tem um grupo desconhecido, chamado Maverick, que tá gravando o disco de estréia e acho bem legal, tanto que faço participações com eles e tal. Mas o Rap tá devagar por aqui. Deve ter mais coisa boa com certeza, mas me afastei bastante depois de ouvir tanta bosta. Agora destaco as incontáveis manifestações de B.boys, B.Girls, e Grafiteiros. A qualidade cresce a cada dia e não poderia deixar de falar da DF Zulu, Souto, Satão, Snoopy e da minha rapaziada. Bons produtores vem se destacando. Além do já conhecido Raffa, tem o Ariel Feitosa também, que tá mostrando a que veio no cenário nacional. Diogo, do Riacho Fundo, fez alguns trabalhos com o GOG que achei interessantes. E não poderia deixar de falar da luta incanssável do DJ Tydoz pela sobrevivência do vinil, discotecando somente com vinil em eventos e sempre tocando Eletro para os B.boys, o que é raro hoje em dia e mais raro ainda ver DJ fazendo scratchs.

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Abaixo alguns comentários do #AcervoBF sobre a entrevista, com a formatação original

a onde anda x?

Por: heldersoare de souza – Em: 04/07/2011 14:48:30


PORRA MANO CAMBIO NEGRO FOI DUKARAIO ARREBENTOU NÃO SEI POR QUE OS CARAS TERMINARAM + SERIA UM SONHO SE ELES VOLTASSEM !!! ENTÃO EX SOU AQUI DA PERIFA DE MAUÁ-SP E LHE PEÇO VOLTA CARA O HIP HOP PRECISA DE VC !!!

Por: LIL BLACK – Em: 22/04/2011 07:43:50


comecei a curtir rap com cambio negro, minha familia toda me condenou,,, porem contornei a situaçao e apresentei a face real e boa do rap, q hoje e tambem trilha sonora das nossas vidas. x nao pare véi, ainda precisamos das rimas indubitavelmente verdadeiras. aquela noite no sesi do plano piloto, com os play cantando subraça tem q se repetir, no fundo o rap e a maior força revolucionaria cantada.repita aquela cena, seja como um homem só ou curto e grosso, eu so tinha 10 anos, mas eternizou. so do rap , to pelo rap, e torço pelo rap, por isso utilizo o hip hop em meu dia a dia , facu, trampo ou na rua o rap é o meu som, obrigado!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!paz!!!

Por: claytinho – Em: 11/03/2011 19:54:15


ousso cambio negro des de pequeno e amo esse som me desanima muito saber que o x esta fora do cenário espero que ele volte com tudo boa sorte

Por: jorge – Em: 07/03/2011 11:22:20


Por que será que o GOG não dá uma força pro “X”?

Por: RoniSpike – Em: 27/07/2010 02:24:23


O som “NÃO PARE” mudou minha vida totalmente,assim como “MOVA-SE”,eu acho que letras como estas são cada vez mais raras no cenário do rap nacional,isso e muito desanimador,mas por mim a transformação foi feita e eu so tenho a agradecer.

Por: Tânia – Em: 27/06/2010 22:01:38


Já chorei muito ouvindo som desde icone do rep. que bandaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!! Aguardo dvd/cambio negro.

Por: Marcos – Em: 27/01/2010 20:00:59


Este cara mudou totalmente a minha vida com suas rimas e letras,para ter uma ideia eu montei um rep de banda no meu Estado por causa do som dele, mesmo eu não participando mas da banda, ela ainda existe atualmente. Todo e qualquer tipo de participação que ele fazia em outro som eu lutava para conseguir,um dos meus sonhos ela ir para um som dos caras,aguardo este possivél dvd. que Deus abençoe este estrumento de resgate do submundo. salvador/Bahia

Por: Denison – Em: 27/01/2010 19:44:55


Respeito muito esse cara.

Por: Adler Medrado – Em: 30/12/2009 22:10:13


Esse Cara é o Melhor e Unico Rapper ‘Verdadeiro’ Só Peço ao X Que ele não Pare de Fazer Rap porque O Sistema ja Conceguiu Acabar com o ‘Cambio Negro’ Mais Ainda Existe X e ele Faiz a Diferença no Cenário Musical. Eu Sou um Seguidor da Ideologia X-Cambio Negro e Faço meu Som Como se Fosse a Sequencia dos Trabalhos do X Sempre Transparente,Ideológico,Convincente,e UNICO. Tenho a Honra de Ter Apresentado o Som do Cambio Negro Pra Todos que eu Conheço aki Na minha Cidade, Quando vamos preparar o show com a minha Banda Só rola Cambio Negro e X-Sólo e Quem ouvi e Não conheci Se Assusta com A Sinceridade e Imponencia da Voz inconfundivél do Jamaica-x. Que o Cambio Negro Volte aos Palcos da Vida Para que Deus possa Cruzar nossos Caminhos Para Acabar de uma Vez por toda com tudo e Todos que se Dizem ser Rapper, e não passam de Imagens Comercial filho da Ganancia, Manipulado pelo Dinheiro,ou seja Mercenarios do ‘RAP’ Que Não Sabem o o que é Rap De verdade. Rogerio…. Itu…. São-Paulo….

Por: Rogerio – Em: 06/09/2009 09:00:38


X , este maluco e sem comentários, meu amigo e vizinho, grande homem e pai de familia, e um ícone no rap nacional.

Por: marcos vinicios morais – Em: 09/04/2009 10:53:13


Sub-raça… foi meu primeiro vinil de rap. Apartir dele vieram outros e estou nessa até hoje. Devo ao “X” o privilégio de ter entrado nessa cultura e permanecer até hoje, porque quando eu começo a desanimar ele lança um novo trabalho com sua já conhecida coerência, postura e atitude e me animo novamente. Aguardamos ansiosos o novo cd e se Deus quiser também o dvd. Velozulu Minas Gerais

Por: carlos velozulu – Em: 04/04/2009 20:27:36


Bro, sou fã deste cara..parabens pela matéria

Por: Richard big – Em: 03/04/2009 18:01:54


cara muito boa essa entrevista com o X , que com certeza e um dos maiores letrista e vocal do bom rap nacional , esse sim, tem atitude de ser rapper e morador da cei . salve X e vida longa . queria ainda sugerir uma materia dessa com o marcao do baseado nas ruas , outro que anda sumido ha tempos . dj leo .

Por: leopoldo feitoza filho – Em: 03/04/2009 12:04:08


Tenho muito respeito por esse maluco. “Um Homen Só” (2000) Ta na minha ista dos melhores álbuns de Rap de todos os tempos. Muitas idéias e a produção é bem loka.É o tipo de disco que vc pode explorar cada linha e cada seg. de batida. JunioRG – Guaramiranga – CE –> myspace.com/OtraFace

Por: JunioRGuaramiranga/Ce – Em: 02/04/2009 03:29:26

Assista ao vídeo da música “Esse é o meu país”

 

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