Surpresa para alguns, decepção para outros. Ouça Nas em ‘The Lost Tapes 2’

Clique nos links para mais informações sobre as fontes citadas na resenha

0
213
A “Fita Perdida” do rapper Nas. Foto: Divulgação

No dia 23 de setembro completam-se 17 anos desde o lançamento do álbum “The Lost Tapes” de Nas, que até então não tinha nenhuma sequência anunciada. As “Fitas Perdidas” do rapper do Queens foram lançadas pela primeira vez em 2002 e a ideia, assim como agora, era usar músicas que foram descartadas dos seus álbuns. Neste disco, que agora podemos chamar de volume 01, o MC usou músicas que poderiam ter entrado nos discos “I am…” (1999) e “Stillmatic” (2001). Ele já tinha planos, antes do contrato com a Def Jam, de continuar a sequência, o que acabou não acontecendo. Mas agora, com a criação da Mass Appeal, Nas tem controle total sobre a sua obra e pode decidir o que, quando e como lançar. Ele vinha anunciando esta nova compilação de “sobras de estúdio” desde 2010 e, com o lançamento, ele mesmo já garantiu que tem material para lançar os volumes 03 e 04.

Siga o BF no Insta – www.instagram.com/bocadafortebf

Quem lê sobre este álbum, sem ouvir ou saber mais detalhes, pode pensar que é uma coletânea de músicas que ficaram de fora por serem ruins, mas não é o caso. Ter um disco com músicas produzidas por Kanye West, Pete Rock, RZA, The Alchemist e Pharrell, só pra ficar nos mais conhecidos, dificilmente será um disco com músicas ruins. Dessa vez ele escolheu músicas que poderiam ter entrado nos seus últimos discos: “Hip Hop Is Dead” (2006), “Untitled” (2008), “Life Is Good” (2012) e “NASIR” (2018).

Swizz Beatz e Nas. Foto: Reprodução/Google

Swizz Beatz está presente em duas faixas. Ele produziu a música de abertura “No bad energy” e participa do refrão em “Adult film”. Ambas as músicas foram criadas em 2016 e adaptadas para fazer parte do álbum. Na mesma sessão fizeram também a faixa “Echo”, que está no disco de Swizz lançado ano passado, “Poison“. RZA (Wu-Tang Clan) produziu duas faixas (“Tanasia” e “Highly Favored”) e, de acordo com o próprio Nas, a vontade de ambos era ter feito um disco inteiro. A música “Family vernon” foi produzida por Pharrel e é uma das que ficaram mais tempo entre as “perdidas”, tem cerca de 12 anos. Al Jarreu, falecido em fevereiro de 2017, deixou sua voz registrada na música “Jarreau of Rap (Skatt Attack)”, que também traz a participação do trompetista Harrold Keyon.

O DJ e produtor Statik Selecktah fez o instrumental da faixa “Lost freestyle”. O instrumental tem uns 10 anos, então provavelmente entraria no álbum “Life Is Good”. O título da música foi dado por ser uma letra com partes do que era um freestyle, outra parte escrita e algumas anotações no celular.

O DJ, produtor e MC Pete Rock e Nas. Foto: Reprodução/Google

Outro produtor que teve duas produções incluídas no álbum, foi Pete Rock. A primeira delas é “The Art of It”, com J. Myers no refrão. Na letra, Nas fala sobre divórcio e diz ter 36 anos, então essa seria mais uma que entraria no disco de 2012 (Life Is Good). A outra música produzida por Pete foi “Queensbridge Politics”, música que merece uma análise mais profunda. Nela Nas fala sobre os que vieram antes dele e todos que fizeram do bairro do Queens um celeiro de grandes DJs, MCs e produtores, esse assunto é recorrente em sua carreira. Uma letra curta, sem refrão e o foco parece ser o Prodigy (Mobb Deep), falecido em junho de 2017. Num trecho ele questiona o porquê do muro grafitado com a imagem do Prodigy ter sido vandalizado, o que pra ele seria uma falta de respeito. Em outro trecho ele diz “eu esperava que o livro nunca tivesse saído”, o que dá a entender que é o livro que Prodigy lançou em 2011 – “My Infamous Life: The Autobiography of Mobb Deep’s Prodigy“. Após o livro ter sido lançado, até um pouco antes, já rolavam boatos de que o Mobb Deep não estava muito bem com algumas pessoas da quebrada e Nas tinha planos de conversar melhor com Prodigy e tentar amenizar essa situação através da música, mas não deu tempo.

O MC e produtor The Alchemist também participa do álbum. Foto: Reprodução/Google

A música “It Never Ends” produzida pelo The Alchemist tem batida bem suave e a letra fala sobre a violência que não tem fim, e assim como o título, no refrão ele usa trechos da música “Come on” (1999) do Notorious Big com participação do Sadat X. Outra faixa que ficou muito tempo nas gavetas foi a “You Mean The World to Me”, essa produzida por Kanye West entraria no disco ‘Hip Hop Is Dead’. Ela não é tão inédita assim, o título era “The World” e saiu em uma mix tape do DJ 31 Degrezz. Uma música que realmente estava perdida é a “Royalty”, produzida por Hit-Boy com RaVaughn no refrão. O título da música era “No Such Thing As White Jesus”, foi escrita por Nas e Frank Ocean e certamente estaria no álbum ‘Life Is Good’, mas de acordo com Ocean e Hit-Boy a música foi levada do estúdio por engano pelos engenheiros de som de Kanye West e só devolvida após o disco estar finalizado. Ocean não participa da faixa nesse álbum, mas seu nome está nos créditos como compositor.

O disco tem mais uma faixa que não é tão inédita e que tinha outro título, “Who are you”, produzida por Eric Hudson, com participação de David Ranier, na verdade era “Who i am” e saiu em uma mixtape do DJ Felli Fell, de 2011, com várias participações.

Indiretamente Lauryn Hill tem alguma participação no disco, o título da faixa “War Against Love” surgiu depois de uma conversa entra ela e o Nas, a produção é dos DJs DAHI e Khalil.

DJ Toomp. Foto: Reprodução/Google

As duas faixas que faltam comentar é a “Queens wolf”, produzida pelo veterano DJ Toomp e a “Beautiful life”, que é a última faixa do disco e foi produzida pelo No I.D e traz novamente no refrão a voz de RaVaughn. A maioria das músicas desse álbum certamente estariam em seu décimo disco (“Life Is Good”), mas essa última é a que mais deixa claro essa certeza. O título do disco está no refrão e toda a situação da vida dele naquele momento é relatada na letra, o divórcio e todos os problemas pessoais que consequentemente aconteceram.

Analisando o disco dentro da proposta de ser uma continuação e de reunir músicas que por algum motivo acabaram ficando de fora dos outros álbuns, é um bom disco. O nível dos seus últimos quatro álbuns é muito alto e assim fica fácil entender essas músicas não terem sido lançadas oficialmente antes. O “lost” do título serve não apenas para o fato de estarem perdidas em gavetas, mas também perdidas no tempo e agora, com o passar dos anos, elas vão se encaixando e sendo entendidas dentro do contexto das histórias da vida pessoal do Nasir e da carreira do rapper Nas.

Ouça o disco

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.