Mano Brown e a Roda Viva – Parte 2

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O Bocada Forte revela parte do que rolou nos bastidores da entrevista do rapper ao Roda Viva e compara o fato ao movimento posterior de Mano Brown durante entrevista publicada na Rolling Stone, um dos primeiros passos para a mudança de sua relação com a mídia. Em 2010, uma das preocupações de Mano Brown parecia estar ligada ao processo de criação de um mercado no rap, algo para movimentar a e fazer girar a grana na cena.

Artigo publicado originalmente em 16 de fevereiro de 2010.

É a verdade mais pura, postura definitiva. A juventude negra agora tem voz ativa…
A gente quer ter voz ativa. No nosso destino mandar. Mas eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá…

Não tenho boas lembranças da primeira vez que Mano Brown me falou: “É a hora! Tenho coisas pra falar. Querem me ouvir, vou falar”. Isso aconteceu semanas antes de sua participação no Roda Viva (em 2007), famoso programa de entrevistas da TV Cultura. Eu tinha ligado para o Brown para confirmar a informação e tranquilizar o Zé Maria, responsável pelo setor de pesquisa da emissora. Zé era a ponte entre o rapper e a direção do Roda Viva, os funcionários da TV queriam saber se o Brown iria mesmo ou se ele mudaria de ideia por algum motivo. Todos temiam a sua postura radical.

No dia 26 de setembro daquele ano, eu estava infiltrado no prédio desde às 19 horas. A expectativa era grande, pude presenciar algumas conversas, os jornalistas temiam até a saída repentina do rapper no meio do programa. Ninguém parecia disposto a colocá-lo contra parede. Prova disso foi a decisão de não mencionar os acontecimentos da Virada Cultural, na Praça da Sé, onde jovens entraram em confronto com a PM durante o show dos Racionais MCs, em Maio de 2007. Um cinegrafista veio me perguntar se o Brown ficaria nervoso se ele registrasse os bastidores do coquetel que antecederia o Roda Viva. Eu disse pro cara ficar sossegado e fazer o trampo dele na boa. O que muitos não sabiam: Mano Brown estava muito diferente.

Antes de revelar porque não tenho boas lembranças das frases que ele repetiu em sua recente entrevista ao jornalista André Caramante, na Rolling Stone (dezembro/2009), voltemos um pouco na linha do tempo.

O Ano é 2004, mês de agosto. Inicio meu trabalho de pesquisa para o primeiro DVD dos Racionais MCs. Aguardo Mano Brown no metrô Vila Madalena, juntos iremos ao centro de informações da TV Cultura, em algumas semanas conheceremos o Zé Maria.

Brown chega num Vectra verde (que só sei que é Vectra porque ele falou um dia), o som que saí dos falantes é disco music. “Eu curto a pegada desses sons, bem feitos, têm algo de magia nesse baixo que os caras tocam, é muito dançante. O Edy Rock não curte muito não.

Figura nacionalmente conhecida, Mano Brown é parado por fãs na rua que dá acesso ao edifício da TV Cultura. O ritual é o mesmo, os manos, as minas, todos citam o bairro de origem, algo que parece legitimar a admiração pelos Racionais. “Brown, sou da zona norte, mas nasci em Guaianazes, lá na leste”, afirma um. “Sou do Jardim Miriam, vocês já tocaram lá em 1993, diz outra.” Do local onde estacionou o carro até a portaria da emissora, um trajeto que duraria uns 2 minutos, leva quase vinte. Esse fato se repetiu durante o processo de pesquisa para o DVD.

Certa noite, quando voltávamos do trampo escutando Espaço Rap, Mano Brown desligou o rádio e colocou um CD no player. O motivo da mudança repentina: uma música dos Racionais rolava na 105 FM. Já tinha percebido antes, ele ficava meio sem jeito quando ouvia suas músicas numa das únicas emissoras que tocavam rap. No mesmo instante, o rapper começa a falar “Eu acho que só agora aprendi a fazer rap e a entender o rap, sempre falaram que eu era marrento. Eu abracei esse lado meu, mas anulei parte de mim. Por vaidade? Por inexperiência? Não sei. Hoje sei utilizar melhor as palavras, as rimas. A palavra é como uma navalha. Os efeitos provocados por uma navalha podem ser bem diferentes. O que pode provocar uma navalha no chão, na horizontal, deitada? Levante essa navalha, faça com que ela fique na vertical. Imaginou o estrago? Precisamos saber utilizar o que temos.

Roda Viva
Em 26 de setembro, Mano Brown esperava ser impiedosamente atacado. Deu “um migué”, se fez de desinformado para os entrevistadores, foi provocador. Mas ninguém ali estava pronto para questionar o rapper de forma contundente. O que vimos foi um Mano Brown tentando desconstruir o mito que o engessou durante anos, mas o tempo foi passando, o programa acabou e sua estratégia falhou. A repercussão não foi das melhores e isso me deixou desapontado. No final de 2009, a entrevista publicada na Rolling Stone mostrou o que Brown, sem sucesso, tentou fazer na TV Cultura. Com vinte anos de rap, o MC linha de frente inicia outra missão. O rap sempre falou em resgatar. Agora o canto falado precisa ser resgatado. O preço é alto. Brown fez mais um dos seus movimentos. Outras surpresas virão? O rapper será mais compreendido do que atacado? Respondo com a filosofia de terreiro – Tempo disse. Tempo dirá.

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