O hip hop na lente de Pedro Gomes

Com olhar crítico, diretor de  ‘Marco Zero do Hip Hop’ ajuda a recontar as histórias da cultura de rua

Pedro01Pedro Gomes, diretor e roteirista da zona sul de São Paulo, conhecido no hip hop por trabalhos como filme “Freestyle – Um Estilo de Vida“, e videoclipes para os artistas dos grupos Pentágono e Gueto Organizado, entre outros, como tantos seres que pensam o hip hop, já ficou decepcionado com a cultura de rua e tentou abandonar o movimento, mas não conseguiu. O diretor segue trabalhando e divulgando seus mais recentes registros: a gravação do show do GZA, do Wu-Tang Clan, com Edi Rock, dos Racionais MC’s, e o documentário ‘Marco Zero do Hip Hop‘.

Conversamos com Pedro Gomes sobre todo o processo de criação do ‘Marco Zero do Hip Hop’. Além de falar da importância deste registro histórico, o diretor abordou temas espinhosos. A falta de compromisso com a cultura de rua é um deles. “A geração retratada no documentário deu frutos. De repente, a minha geração, se posso me identificar com os mais novos, não deu frutos. Você pega esses grupos de rap novos, digamos grupos pós-Projota, pós-Emicida, pós-Rashid, esses meninos novos não sabem nada, não conhecem nada, não sabem quem é ninguém, não conhecem sequer Racionais. Ou seja, a próxima geração saberá menos ainda“, afirma Gomes. Leia a entrevista exclusiva que produtor de ‘Marco Zero do Hip Hop’ concedeu ao Bocada Forte.

Bocada Forte: Nesse mundão onde a maioria olha apenas para o futuro e para a ideia modernidade, o que lhe fez olhar para o passado e contar essa parte da história do hip hop?
Pedro Gomes: Eu tenho uma sedução por história. Gosto de conhecer as raízes pra saber se essa árvore vai dar fruto mesmo. Eu tenho um projeto aí, pretendo falar sobre os discos que fizeram história no rap nacional, contar um pouco dos bastidores e como estes trabalhos foram feitosNeste caso específico do documentário, foi a própria Secretaria da Cultura Municipal que entrou em contato comigo para eu fazer um registro, eles [integrantes da secretaria] pediram algo bem simples, só pra passar no telão no dia da inauguração da pedra, o marco inicial do hip hop de São Paulo. Isso rolou no dia 26 de outubro. Eu tinha a possibilidade de fazer aquele mero registro que pediram, mas preferi pegar a grana que me repassaram e fazer um documentário.

Bocada Forte: Foi muito difícil reunir as personagens?
Pedro Gomes: Foi difícil “equalizar” as agendas. Tinha muita gente que que eu queria que participasse do documentário, mas não rolou, pois os caras não tinham data. Alguns das antigas estão fora do país, outros já morreram, infelizmente. Estou falando de uns manos da época de 1981, 1982, 1983. Entre os artistas mais novos que eu queria que participassem, muitos não tinham espaço na agenda também. Eu tinha um prazo pra entregar o filme, que era o dia da inauguração. Eu tinha que correr.

Falei com o Nelson Triunfo, ele foi o capitão disso tudo. Ele que brigou pela pedra, ele que fez as reuniões com a Secretaria de Cultura. Nelsão sugeriu uma lista de nomes para o documentário. Eu trabalhei em cima desta lista, adicionei outros nomes e passei para a produtora, um time de profissionais que montei para fazer o trabalho, oito pessoas.

Pedro02Tivemos dois dias de filmagem de entrevistas apenas. Eu tive que ter a sorte de encontrar uma galera disponível nestes dois dias. Fiquei feliz,  pois tive a sorte de entrevistar um representante de cada estilo. Se você parar pra pensar, Nelsão, Rooney, Pepeu, Jack, Alan Beat, representam os diferentes elementos do hip hop. Também tentei falar com DJ Hum, Thaide e KL Jay mas não tinha como entrevistá-los na época, cada um estava com seus corres. Quem sabe posso ter outra oportunidade quando transformar o projeto em um longa-metragem. Muita gente falou que tinha pouco tempo, mas pra fazer algo maior custa uma grana também.

Bocada Forte: Com o material gravado, como você conseguiu alinhar o trabalho e traçar o fio condutor da história?
Pedro Gomes: Aí temos dois méritos: uma pré-produção bem feita e o fato do documentário ser feito por uma pessoa que, além de apaixonada pelo hip hop, é integrante do movimento. Digamos que ficou menos difícil. O primeiro passo é elaborar perguntas  que se encaixam. A do Nelsão foi a entrevista guia, a primeira, a mais longa. Por exemplo: Nelsão falou sobre a perseguição da polícia, daí eu já perguntava para outro integrante do documentário sobre essa perseguição. Fazia tudo de maneira cuidadosa para não ficar repetindo muitas perguntas, acabar com muito material e o tiro sair pela culatra. Sabendo que teríamos pouco tempo na ilha de edição, fui derecionando as perguntas, mas deixando os caras livres para responder.

O segundo grande mérito é o do editor, trabalhei com o Andres, ele é um argentino jornalista e editor de filmes. Ele trasncreveu tudo e a gente foi montando o quebra-cabeça, lendo no papel e encaixando cada trecho.

Bocada Forte: Você aborda o nascimento do hip hop em São Paulo como marco fundador da cultura e do movimento no país. Cada região do Brasil tem seu “mito de origem”. Você já recebeu algum tipo de reclamação sobre as afirmações do seu documentário?
Pedro Gomes: Diretamente não, mas eu sei que este é um temor que paira no ar. O Rooney toma muito cuidado. Ele já entrou num debate com uma galera no Facebook, está lá. Por isso que fiz questão de colocar no release do documentário: precursores do movimento em São Paulo. Não ousei falar nada de âmbito nacional. É que o Nelsão falou algo no início do filme e uma galera interpretou mal, pegou mal. Mas estou bem tranquilo, não me apego muito a essas paradas.

Se o cara falou: ‘mano, o movimento começou aqui em Recife, a gente começou antes de vocês, o grupo X começou antes do grupo Y, temos mais história’. Temos coisas mais importantes pra ficar com este tipo de discussão entre nós mesmos. Levando essa parada pra um contexto maior, essa discussão foi uma das coisas que travaram o rap na década de 90. Não me apego a essas coisas. História, cada um lembra de um jeito, com pontos de vista diferentes.

Bocada Forte: Você acha que o hip hop ainda tem a mesma força social, política e de entretenimento que teve antes?
Pedro Gomes: A internet mudou o mundo, mudou o jeito como a gente vê as coisas. Ofereceu novas oportunidades pra molecada, novos caminhos. Antes tínhamos o rap, tínhamos o samba, mas o samba já era o que o hip hop é hoje, mais comercial. Como – no passado – o hip hop era mais vanguarda, batia de frente e possibilitava o caminho para o negro ser negro mesmo, tinha esse contexto social que mudou minha vida, por exemplo. Mas eu não sei realmente se nós mudamos, sacou?

O hip hop não mudou. O hip hop perdeu alguns soldados, algumas pessoas se afastaram, os mais antigos perderam a força, por conta da idade, por conta da família, isso é normal. De certa forma, a gente não deu frutos, a gente não gerou novos. Aí o negócio está estagnando. Na comunidade não tem mais oficinas de hip hop como tinha antes, é fato, contra isso não existe argumentos. O funk [Pedro se refere ao “funk carioca”] chegou chegando. O rap, a música do hip hop, está cada vez mais parecido com o funk, é fato, no sentido de ser menos parecido com o que o era.

Temos grandes defeitos, um deles foi ter mudado radicalmente, virou da água pro vinho, de uma hora pra outra. A gente era revolucionário até ontem, hoje a gente é programa da Xuxa. É só um exemplo. Isso não rola, não deveria ter sido assim. Nos EUA veio rolando uma transição e, atualmente, diferentes estilos se dão bem, os caras se cumprimentam, estão tranquilos e o público entende isso. Aqui foi de uma hora pra outra. Tudo que é de uma hora pra outra é difícil de ser assimilado.Pedro

A geração retratada no documentário deu frutos. De repente, a minha geração, se posso me identificar com os mais novos, não deu frutos. Você pega esses grupos de rap novos, digamos grupos pós-Projota, pós-Emicida, pós-Rashid, esses meninos novos não sabem nada, não conhecem nada, não sabem quem são ninguém, não conhecem sequer Racionais. Ou seja, a próxima geração saberá menos ainda.

É necessário fazer esse trabalho de base, esse trabalho de raiz. Por exemplo, é necessário que o Bocada Forte volte e conte essa história pra galera. Estes blogs de hoje também não sabem, não contam nossa história pra galera. Sacou? A gente precisa formar essa galera, ensinar a respeitar as raízes e saber que uma manifestação cultural pode mudar a vida de uma pessoa. Não mudar a vida no sentido do boyzinho, branquinho e rebelde que deixou a casa dos pais. Não é isso.

O hip hop mudou minha vida por me fazer descobrir que posso fazer uma faculdade, por me mostrar que sou negro. Mudou minha vida por me mostrar novos caminhos. Infelizmente, isso a nova geração não faz. Admiro o Emicida, o Criolo, artistas que respeitam os mais velhos. O Criolo viveu a parada, diferente destes outros moleques, que não me soam tão hip hop assim. Aí a gente entra naquele debate que fala da diferença entre um rapper e um MC. Daqui pra frente vai ter tanto rapper, mas tanto rapper, que vai ser fácil mostrar a diferença entre um Parteum, um Kamau, e esses rappers.

Agora estamos no meio do problema. Imagine sua casa sendo invadida pela água, a chuva não parou ainda. Sua esposa pergunta: ‘o que a gente perdeu’. Você responde: ‘não dá pra saber agora. Corre, junta as coisas, quando o sol sair, a gente vai saber o que perdeu’. Estamos no meio da tempestade, se eu não lutar por isso que estou falando, as perdas serão gigantescas. Só que a gente só vai ver mais na frente.

[+] Pedro Gomes no VIMEO
[+] Pedro Gomes no YouTube

Interaja conosco, deixe seu comentário, crítica ou opinião

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.