#ÉoVale: A.X.L., “Antes de tudo”

10603753_802670729789698_8976058632934806909_nFoi no início de 2004 que A.X.L. iniciou sua carreira dentro do cenário local do Vale do Paraíba, ainda integrante do grupo Incognitivos, onde permaneceu até o ano de 2006. Em 2008, com a criação do RUADOFLOW, começou sua caminhada solo, lançando seu primeiro trabalho, o EP “Curta Metragem”. Entre 2010 e 2012, mostrou grande amadurecimento em seu trabalho, com os lançamentos da mixtape “Caos Pessoal”, o disco “Quando é preciso voltar” (em parceria com o produtor Skeeter), além de diversos videoclipes, realização de vários shows e a participação no programa Manos e Minas, da TV Cultura. Em 2012, quando colocou na rua o single “O Bagulho é Doidão”, chegou a anunciar seu próximo trabalho, porém sem nenhuma data para seu lançamento.

Em agosto de 2014, ressurgiu com o vídeo de “O Mundo Em Mim, Se Encontrar”, deixando claro que seu próximo trabalho traria – de maneira profunda –  história de vida e importância sentimental. Precisamente em 10 de dezembro do mesmo ano, a primeira parte da trilogia anunciada foi lançada, levando assim seus ouvintes ao duro ano de 1998, o início de tudo.  Responsabilidades, dúvidas e incertezas são relatadas em “Antes de Tudo, A Vida de Axel Alberigi”.

Bocada Forte – Quando decidiu que era hora de expor essa parte de sua vida, que mudou principalmente de 1998 pra cá?
Axel Alberigi (A.X.L.):
Não vejo como uma exposição dos fatos simplesmente. Era algo que precisava fazer para conseguir dar o próximo passo em vida. Karma negativo, retirar de mim as energias negativas para restar somente as energias boas.O processo de mudança é confuso no começo, o olhar para dentro é dolorido e profundo. A sabedoria e loucura são a mesma coisa. Os dois anos que estive afastado me renderam esse olhar e maturidade para passar com responsabilidade e retirar essa energia da maneira correta como uma ferramenta de aprendizado. Pra mim também é algo novo, um novo olhar, se ver como o observador. São vibrações por qual eu passei, existem, sejam elas boas ou ruins. Quando fiz o último lançamento, antes do hiato, foi em uma data especial e com muita ligação a Profecia Maia que diz que no dia 22 de Dezembro de 2012 a humanidade entraria em uma Nova Era de Luz. Então lancei “O Bagulho é Doidão”, a capa e a música simbolizam a morte do antigo eu e a partir daí houve muita mudança na minha vida espiritual e esses dois anos simbolizam essa busca onde o disco “Antes de Tudo” é o primeiro passo, tirar de mim o antigo e renascer.

Bocada Forte – De 2004 até os dias de hoje, a música tem o mesmo peso pro A.X.L?
A.X.L.:
Nada tem o mesmo peso. A música sempre foi meu escape pra tudo, meu universo, meu ponto de conforto, um acolhimento, mas muita coisa não podia ser dita. Sempre tive minha própria prisão… Sempre precisei falar tudo e colocar pro mundo como A.X.L, entende? Agora é como Axel. Aprendi e senti muitas obras somente agora. Somente depois de falar de si pra si que todo o véu vai caindo… A visão é diferente, não escrevo como antes, não gravo como antes, tudo que estou registrando são momentos da minha vida onde muita coisa não se resolveu. É o caminhar…

Bocada Forte – Como você fez os recortes e escolheu as partes de sua vida para rimar e colocar neste trabalho?
A.X.L.: Quando bati no fundo tinha um ponto inicial, a nascente de um turbilhão de pensamentos e percebi que isso influenciava em tudo na vida, aquele “pretérito”. O que levo comigo é o que sou, minhas histórias me fizeram, meu caráter, a mente, e essa dor guardada não importa o tamanho dela, estará em você e nesse caminhar altera até a nossa consciência sobre tudo, não deixa enxergar, não deixa ser quem você é, porque nos guardamos até o ponto de fingir aceitar que esse mundo é assim. Preferi pegar todos os pontos que me confrontavam mais, porque é confrontante falar sobre, mas quando você resolve entender o que acontece com você, o universo acontece.

Bocada Forte – As pessoas tendem a deixar “no gelo” cenas dolorosas do passado, você preferiu mostrar, numa cena que só vangloria os vencedores. Você acha que segue na contramão?
A.X.L.: Isso é vencer. Já não sou mais quem eu era… Nisso se esconde a vitória.

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Bocada Forte – Passou pela sua cabeça que suas histórias poderiam não despertar interesse? Surgiram dúvidas ou teve uma vontade de refazer o trabalho?

A.X.L.: O começo foi bastante complicado, não sabia como iria chegar até mesmo para as pessoas mais próximas, da família. É muito fácil entender errado, quando se escuta com algum julgamento inicial você não consegue extrair a verdade de nada, você tá embarreirado e isto é criação sua. Até mesmo as músicas que não contam em si histórias do meu passado são distorcidas, esse primeiro disco é o alto suor, matar o velho, renascer, Oroboro. Um exemplo disso é “O Mundo Em Mim, Se Encontrar”, “Feito Com A Gente” e “Quando o Céu Se Abriu” não são apenas sequências de músicas no CD, são o caminho… Teve um momento em que não consegui gravar, foi difícil revisitar. Mas fez parte da transição de tirar isso de mim, tem sido um aprendizado enorme e fico muito feliz por conseguir finalizar. As histórias acabam despertando em várias pessoas pelo Inconsciente Coletivo, tem um contexto em si, da prisão, crime, mas é como qualquer coisa na vida, no seu dia a dia, só estou usando como base o que vivi.

Bocada Forte – A vida no rap brasileiro não traz instabilidade e segurança sempre. Sua família é seu porto seguro? Existe apoio e compreensão?
A.X.L.: A compreensão é um dos maiores apoios que se pode ter. Aprendi muito com todos, hoje consigo compreender e só o fato de não me impedirem de alguma forma faz me sentir seguro.

Bocada Forte – Acredita que o rap pode ser uma batalha de egos?
A.X.L.: O mundo aí fora. Esse que a gente vê de olho aberto. É tudo sobre isso… A guerra contra o ego é muito dolorida. Volto nas músicas “O Mundo Em Mim, Se Encontrar”, “Feito Com A Gente” e “Quando o Céu Se Abriu”, este está sendo meu caminho pra me livrar disso… Dentro do próprio rap. Esse é o nosso estado de batalha atual.

Bocada Forte – Diss serve para ataque, defesa, mas também serve como uma forma de publicidade? Uma diss é mais uma reação solta, algo fora do contexto dos seus trabalhos?
A.X.L.: Como publicidade é fazer parte de um jogo que não existe já que você colhe o que planta. O mundo esqueceu do sentido de “vibração” e “energia”. Acredito que até certo ponto é necessário cortar essa energia/vibração pela raiz, naquele momento e só, cresce e morre ali. Não é para o entretenimento da massa e nem disputa de MC.

Bocada Forte – Nesta primeira parte da trilogia, você relata a prisão de um pai e o sofrimento de um filho. Com base nos fatos, você acredita que o sistema carcerário pode resgatar ou isso depende muito mais do prisioneiro?

A.X.L.: Pra alguns é só o aumento da bola de neve, mas o contato muito intenso com o núcleo de qualquer coisa pode gerar uma grande mudança, pra outros religação com a família, afastamento da família, se apegar há alguma doutrina, depende somente do que você escutar de você lá dentro. O sistema carcerário não te ajuda nisso, só mostra um caminho que é o mesmo pelo qual você entrou.

Bocada Forte – O rap te ajudou e continua a te ajudar a enfrentar as tretas que a vida joga no ar?
A.X.L.: A música tem feito esse papel por mim, escrever é se enxergar. É como uma meditação no real sentido dela, caminhar no escuro, tocando tudo bem devagar, buscar ver e se encontrar.

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