Augusto Oliveira: “Nunca é só a música”

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Por: Erica Bastos

Dentro da nossa cena é comum o artista desenvolver não somente seu lado ligado a arte,como também o lado empreendedor e assim movimentar o cenário com eventos, encontros, saraus, batalhas etc.

Com AUGUSTO OLIVEIRA as coisas funcionam assim também, idealizador da Batalha da Leste, realizada todo sábado no metrô Itaquera, ele também participa de saraus, canta e mantém um blog em que alia sua veia nerd e a questão racial por buscas da representatividade negra em Histórias em Quadrinhos. “Além do lance da música, atualmente tenho tentado conectar pessoas pretas que procuram representatividade no mundo Nerd através da Revista Digital O Lado Negro da Força e futuramente lançaremos nosso podcast”, comenta o artista

Augusto lançou em 2014 o EP Delorean, sim o nome do carro futurista do cultuado filme “De Volta para o Futuro”, de 1985, em que o ator Michael J. Fox, protagonista do longa, viaja pelo tempo, junto com um cientista maluco.

Atualmente ele prepara show de lançamento de seu primeiro videoclipe “Perto de Você”, com participação de Drik Barbosa, no dia 14 de Março, sábado, ali na avenida São João, centro de São Paulo.

Sobre o vídeo, Augusto adianta: “a gente tentou fugir um pouco do “storytelling” e partiu para um lado experimental. É a síntese do “Delorean” o choque de geração assim tentar uma criar uma parada nova” , diz o rapper.

Abaixo Augusto fala um pouco do disco, batalhas Apropriação Cultural no Rap e etc.

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Bocada Forte: Seu disco totalmente inspirado num filme muito cultuado dos anos 80 que é “De Volta para o Futuro”, de 1985, como surgiu essa ideia?
Augusto Oliveira: 
Eu sou nerd desde que eu me entendo por gente. Ouvi numa entrevista antiga sobre rap o pessoal do Wu-Tang falando sobre como todos os rappers e produtores são Nerds. De alguma, forma, acredito muito nesse lance. A maneira como a gente se interessa sobre novas tecnologias de produção musical, leitura, entre outras coisas. Existem inúmeras referências aos filmes “Star Wars, Star Trek”, quadrinhos e outros materiais icônicos da cultura nerd dentro Rap. Isso vai do Big rimando sobre um Super Nintendo, Jay Z falando sobre sua esposa e ele estarem cobertos de ouro como C3PO, o Sabotage falando de Thundercats, Emicida falar de X-men e o Planet Hemp citar o Episódio V de Star Wars (meu favorito). Isso é visível também na minha lírica. Sempre tento acompanhar o que tem de novidade na cena e fazer um trampo com alguém que curte uma parada mais tradicional, então me deu o breque que eu precisava. Queria que o disco soasse como uma coisa tradicional e nova ao mesmo tempo, sabe? As principais referências para o disco, da minha parte,  são Kanye West, Will.i.am e Talib Kweli. Os três começaram trabalhando com boom bap, hoje são tidos como exemplos de criatividade e inovação dentro e fora da música. Acredito que quem conseguiu tirar esse som “Delorean” muito bem também é o Joey Bada$$.

Bocada Forte: Hoje, no Rap, alguns setores têm discutido muito sobre apropriação cultural por parte dos artistas brancos, como você vê esse cenário?
Augusto Oliveira: É um lance que vem desde e o jazz, blues, rock, samba. Agora ameaça o rap e o funk em um momento que o rap tenta retornar ao seu estado mais contestador. Me preocupa muito porque a apropriação vem como a imagem que alguns artistas brancos tem da cultura negra e também demonstra a falta de entendimento sobre o que motivou essa forma de arte no estado mais puro.

Com a gente nunca é só a música, assim como o Jazz surgiu por conta dos músicos não saberem ler partitura, então cada vez que tocavam era uma coisa diferente. O rap surgiu como uma forma de expressar as dificuldades vividas em um ambiente hostil pra gente preta. The Message, do Grandmaster Flash and The Furious Five, deu o tom que o rap tem até hoje.

É mais fácil vender um artista branco do que um artista negro, mesmo que o artista negro seja mais concreto musicalmente que o artista branco. Um dos exemplos disso foram os “Grammys” desse ano, uma premiação que contempla artistas brancos que são produzidos em sua maioria por negros. Nossa música é feia, suja e vulgar, até que eles consigam emular e monetizar para transformar em um artigo de luxo, e é isso que me deixa mais “puto”. Em um mundo onde os padrões de beleza e as relações de poder são eurocentradas, o Roberto Carlos vai ser Rei, e o Jorge Ben é só Jorge.

Ouça o EP “Delorean”:

Bocada Forte: Em 2014, ano da Copa, a Batalha da Leste, realizada no metrô Itaquera, perto do estádio do Corinthians, sofreu algum impacto por conta do evento? Vocês tiveram alguma visibilidade?
Augusto Oliveira: Antes dos jogos rolou um medo de que a batalha fosse interrompida, o que gerou um interesse de alguns jornais e blogs, mas durante o mundial foi bem tranquilo e nossa média de público não aumentou nem diminuiu com a exceção do policiamento ostensivo.

Bocada Forte: Falando um pouco sobre batalhas, que é algo que você está totalmente envolvido. A galera que geralmente cola nesses eventos é, em sua maioria, um público mais jovem, que quer adquirir experiência através delas, você acredita que esse formato pode em algum momento se esgotar?
Augusto Oliveira: Acredito que já estamos nesse momento. Foi uma “fórmula” que serviu uma geração que veio antes da minha e para algumas pessoas da minha geração que estão chegando agora com EP, mixtape, disco. Muita gente só via as batalhas como um meio para um fim. O pessoal tentava repetir a “receita do Campeão das Batalhas”, só que o que funciona para um não funciona para todo mundo. O que muita gente não entende é que o freestyle é uma cena muito diferente da musical – se misturam em alguns momentos mas são diferentes – acho que isso acabou desmotivando uma parte da rapa que faz batalha, a falta do retorno imediato ou pelo menos a sensação dele. Acredito que seja o momento da cena se fortalecer em outras cidades e estados, até que possamos voltar a ser a Meca do freestyle, não só no papel.

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