1992: Guerra em Los Angeles

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As ruas de L.A. e sua influência no rap brasileiro dos anos 1990

Vou contar uma história. Ao ver o trailer do filme “Straight Outta Compton”, uma imagem fez minha mente retornar aos anos 1990. Em parte do vídeo, dois negros encaram a polícia com os braços levantados e lenços amarrados, um vermelho, outro azul. Naquela época, a tensão racial e a violência explodiram nas ruas de L.A. “Fuck tha police”, canção do N.W.A, era o hino. Pixações com a frase que dá título ao rap do grupo de Compton marcavam paredes e muros.

Jovens brasileiros envolvidos no hip hop acompanharam os acontecimentos pela TV,  numa época sem internet, mas que tinha a brutalidade policial contra negros e periféricos como conexão. Esse é um pedaço do quebra-cabeça do rap, algo que deixa explicita uma das razões da politização de grande parte dos MCs e DJs dos 90. Foi assim…

1993. A população branca de Los Angeles – região retratada nas letras do grupo N.W.A e em filmes como Boyz’n The Hood (Os Donos da Rua), do diretor John Singleton – está em pânico. Segundo o Jornal do Brasil, duas gangues rivais, CRIPS  e BLOODS , assinaram um acordo de paz e trabalham juntas contra a polícia racista. Panfletos distribuídos em South Central registram o “olho por olho, dente por dente”. A palavra de ordem é: “dois policiais mortos para cada negro assassinado”.

De acordo com a imprensa, um exército de 70 mil negros das gangues promete incendiar Los Angeles se os policiais que agrediram RODNEY KING não forem condenados.

Back to back
1992. 29 de abril. Policias comemoram sua absolvição com amigos e familiares em frente aos jurados. O vídeo de 81 segundos, feito no dia 3 de março de 1991, mostra os absolvidos espancando Rodney King, após infração de trânsito. As imagens circularam nos quatro cantos do planeta, mas não fazem nenhuma diferença neste tribunal. “Os policiais estavam fazendo simplesmente o que foram instruídos a fazer”, disse um membro do júri, que tem em sua formação dez brancos, um negro e um asiático.

A mídia brasileira registra o discurso dos jurados:
“Rodney King, ficou bem claro, é um bandido, traficante e consumidor de narcóticos, fichado como criminoso irredimível e resistiu à prisão. Isto é, foi perseguido por vários carros policiais até que estacionou na estrada. Dois de seus companheiros fizeram o gesto clássico da rendição, as mãos sobre suas cabeças, e nada lhes aconteceu. Rodney, segundo a defesa dos policiais, não. Daí o espancamento”.

O vídeo mostra o contrário, não houve resistência. Gravações do rádio da polícia também mostram a comunicação entre os policiais e a central: “Dois macacos apreendidos, falta um […] atenção, planeta dos macacos chamando central”.

No mesmo dia 29 de abril, três horas depois da absolvição dos policiais racistas, centenas de negros tomam as ruas para protestar contra as injustiças. A tensão racial chega ao seu limite, Los Angeles vive quatro dias de violência. Repressão policial, saques, destruição são os elementos da batalha de rua. Onze mil homens do governo – em posição de tiro nos telhados e ruas – controlam L.A. A Rebelião atinge 16 estados dos EUA.

Após três meses, um novo julgamento é marcado. Os quatro policiais enfrentarão outro processo. Como citado no começo desta história, as ruas estão de olho. Em 17 de abril de 1993, dois agentes são condenados, outros dois são absolvidos.

As imagens, sentimentos e reações que rolaram nos EUA também influenciam uma parte dos artistas do nosso rap. Afinal, muita coisa é semelhante, o racismo e o descaso são iguais. Caneta e papel registram o crescimento do rap brasileiro. Gangsta rap e political rap adaptados ao nosso ambiente. Muitos aqui ainda desacreditam…

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