Suicídios se espalham entre povo indígena no Brasil

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Por Charles Lyons, no The New York Times

Amigos e familiares se reuniram em torno do corpo inerte de um menino de 15 anos de idade, deitado numa cama na cabana de palha próxima à cidade brasileira de Iguatemi, perto da fronteira com o Paraguai. Um Xamã sacudia um chocalho de madeira enquanto cantava e dançava – ritos finais para mais uma vítima de uma ‘epidemia’ de suicídios que tem atormentado os indígenas Guarani de Mato Grosso do Sul, estado da região Oeste do Brasil.

O menino Dedson Garcete havia se enforcado – um dos 36 suicídios entre os membros da etnia do início do ano a setembro de 2014 e um dos cerca de 500 desde 2004 entre os membros desse povo que tem 45.000 indivíduos no estado, de acordo com Zelik Trajber, um pediatra que trabalha junto à Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde, em Mato Grosso do Sul.

Os povos indígenas sofrem o maior risco de suicídio entre grupos étnicos ou culturais em todo o mundo. Aborígenes australianos do Estreito, com idades de 25 a 29 anos, têm uma taxa de suicídio quatro vezes maior que a da população geral da Austrália nessa mesma faixa etária, de acordo com o Departamento de Saúde do país.

Nos EUA, o suicídio é a segunda principal causa de morte, atrás de acidentes, para os indígenas estadunidenses e nativos do Alasca entre 15 e 34 anos, e é duas vezes e meia maior do que a média nacional para essa faixa etária, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças

Entre os indígenas do Brasil, a taxa de suicídio foi seis vezes maior que a média nacional em 2013, de acordo com estudo divulgado em outubro pelo Ministério da Saúde. Isso significa 30 suicídios em 100.000 pessoas. Entre o Povo Guarani, maior etnia do Brasil, a taxa é estimada como mais de duas vezes maior que a média geral para os indígenas como um todo, segundo o estudo.

Na verdade, ela pode ser ainda maior. O Conselho Indigenista Missionário [Cimi] diz que houve mais de 70 suicídios em 2013, substancialmente mais que os 49 informados pelo Dr. Trajber.

Os Guaraní perderam seu território na terra fértil do sudoeste do Brasil: trechos de vastas florestas e savanas foram transformadas em fazendas e ranchos. No processo, os indígenas foram esbulhados e arrancados de seu modo de vida tradicional. Grande parte enfrenta extrema discriminação e vive em situação de miséria, perto dos fazendeiros e pecuaristas que ocupam a terra que já foi deles.

“Por viver nesse ‘não-lugar’, eles cometem suicídio”, disse Maria de Lourdes Beldi de Alcântara, antropóloga da Universidade de São Paulo que há anos vem estudando os suicídios entre os adolescentes Guarani.

Há quase 100 anos, os Guarani, que vivem hoje principalmente no Brasil e no Paraguai, foram expulsos de seus territórios ancestrais quando o governo brasileiro distribuiu entre fazendeiros e pecuaristas o título legal dessas terras. Os indígenas foram enfiados em reservas lotadas, frequentemente separando os membros da família.

Em 1988, o governo brasileiro promulgou uma nova Constituição que estabelece direitos para os povos indígenas. Entre eles, ela concede aos Guaraní e a outros povos indígenas o direito de reaver sua terra ancestral, num processo que tem sido lento e frustrante para ambos – indígenas e fazendeiros – e que os colocou ainda mais em desacordo.

Em muitos casos, os fazendeiros também vivem em Mato Grosso do Sul há gerações. Criaram suas famílias lá, trabalharam e lucraram com a terra, primeiro com o mate (uma espécie de chá) e mais tarde com a cana-de-açúcar e a soja. Como os Guarani, eles estão enraizados na terra, o que faz com que o conflito entre proprietários de terras e indígenas seja ao mesmo tempo cultural e material. Enquanto os indígenas encaram a reintegração de posse de sua terra ancestral como essencial para revitalizar suas tradições culturais e recuperar sua sensação de bem-viver, fazendeiros e agricultores vêm isso como um obstáculo para o progresso e desenvolvimento do Brasil.

James Anaya, Relator Especial das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas de 2008 a maio de 2014, disse que em todo o mundo os suicídios entre jovens indígenas são comuns, em situações em que os membros da comunidade vivenciaram uma reviravolta na sua cultura, conduzindo a uma perda da auto-estima e das próprias raízes.

No sudoeste do Brasil, diz ele, a angústia, a pobreza e a violência contra lideranças tribais têm levado os adolescentes Guarani ao desespero, ao sentirem que não têm futuro. “Eles veem tirar suas próprias vidas como uma opção, infelizmente”, disse ele.

Segundo a Professora Alcântara, ao longo dos últimos 10 anos os indígenas passaram a viver entre duas culturas – a da cidades próximas, onde são discriminados, e a de sua própria gente. Os jovens, principalmente, sentem que não pertencem nem à cidade, nem à ‘tribo’, disse ela.

Tonico Benites, Guarani e antropólogo, disse que, durante a ditadura brasileira dos anos 1970 e 80, as condições nas reservas Guaranis se deterioraram. Houve superlotação, e as famílias foram separadas. Hoje, a situação tornou-se ainda pior, disse ele, e muitos Guarani se sentem solitários e isolados.

“Em algum momento, muitas pessoas que eu conhecia, amigos, perderam sua autonomia, sua forma de se sustentarem,” disse ele. “Então, eles acabam pensando na morte.”

Fora da reserva, os Guarani sofreram preconceito extremo, ameaças e ainda pior, disse o Dr. Benites. “Aconteceu comigo três vezes, de eu estar esperando na beira da estrada, e um caminhão vir em alta velocidade na minha direção”, lembrou. “Eu tive que pular, caso contrário ele teria me atingido e matado… e depois eles diriam que era um acidente, mas não é.”

Ele afirmou que pistoleiros contratados por fazendeiros queimaram cabanas Guarani, torturaram seus amigos e mataram lideranças.

Anaya, professor de Direito na Universidade de Arizona, disse que acredita que melhorar os sistemas de ensino para os Guarani e outros grupos indígenas pode ajudar. “Precisamos de uma educação que não tente tirar das crianças indígenas a sua identidade, mas sim ajude a reforçá-la com todas as ferramentas atuais que são apropriadas para a vida moderna”, disse ele.

Ambos os lados querem uma solução pacífica, mas em pequenas aldeias Guarani em todo Mato Grosso do Sul, meninos como Dedson continuam a se entregar ao desespero.

“Nossa maior esperança, pela qual lutamos todos os dias”, disse o Dr. Benites, “é que nossos filhos possam ser mais felizes no futuro. Que um dia eles possam ter um outro tipo de vida, melhor.”

Charles Lyons é um jornalista multimídia e cineasta.
Tradução: Tania Pacheco. Original em inglês enviado por Isabel Carmi Trajber

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