Opinião: Sarau Divergente – Energia e sinceridade

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Por: Fábio Emecê

Dei um rolé na capital carioca na última semana. Fui gravar músicas com o Coletivo Muntu (www.soundcloud.com/coletivomuntu) e olhar algumas coisas da metrópole, ciceroneado por Flávio XL (www.soundcloud.com/flavioxl). E eis que ele me leva, em um dia chuvoso, no Sarau Divergente.
O Sarau Divergente rola na Cinelândia, em frente a ocupação Manuel Congo. O mestre de cerimônia é o Mano Teko, que vai chamando as pessoas para cantar sua música, seja qual estilo for e recitar seu poema, seja qual ele for.

Mano Teko, filho de oxalá, dominador do verbo como poucos, canta funk, rap e faz uns afoxés. O artista conduz de forma linda e inteligente os olhares e a atenção de quem tá ali presente. Só que não é só a arte em si, é a periferia, os lutadores, os subversivos, os divergentes que estão ali.

Ouvi relatos de um coletivo do Complexo do Alemão, ligado ao Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morta, sobre a situação do Rafael Braga, pois eles dão assistência direta a família do irmão e senti o quanto o dia a dia e o cotidiano são fundamentais para se formar lideranças contundentes e capazes de modificar o meio.

Ouvi relatos sobre as ocupações e a luta pelo direito à moradia, onde política pública genocida do Governo do Estado e do Município do Rio afunila em direção para expulsar os moradores de suas áreas que já são precárias, para colocar em áreas precárias, mas longe do centro. 275 favelas a serem removidas pelo aparato público. Entende isso?

Ver a Preta Rara recitando e também o MC Dolores foi uma alegria. Recitei um poema do meu livro virtual “Involuntário”, chamado “Chuva”. Tremi na base como ansioso e tímido que sou, só que é muita energia, muita mesmo.

Brigamos por atenção, para ser vanguarda, para termos mais acessos ou apresentações e palestras lotadas. Não estamos percebendo que existe uma estrutura apoiada no Estado, pronto a nos eliminar, não importa qual teoria te abarca, seja você, pan-africanista, afrocentrado, comunista, anarquista, feminista e afins. É preto e não tem como fugir disso, se prepare, pois, ser eliminado é uma meta do Estado.

Como disse o Leonardo Souza, uma das lideranças do Complexo do Alemão, “Rafael Braga é o retrato do Brasil de hoje”. E o que é esse país de hoje? Um país que não tem nenhum pudor em exterminar pretos e pobres. Seja qual for o partido no poder, seja qual for.

O Sarau Divergente me trouxe essas reflexões, também me trouxe amor e acolhimento. E é o que eu tava precisando para continuar as lutas, com as dificuldades e com gatilho moral, estético e real apontado para mim a todo instante.

Vida longa ao Sarau Divergente.

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