Graffiti | Dedoth e a ‘Bagunça das Gavetas’, exposição inspirada na música de Parteum

O graffiteiro Dedoth apresenta a exposição Bagunça das Gavetas, inspirada na música do rapper Parteum, lançada em 2008, no disco “Magus Operandi“.

As obras de Dedoth abordam suicídio, racismo, feminicídio, intolerância religiosa e homofobia, questões que o artista acompanha de perto em sua outra área de atuação, Dedoth trabalha no Caps (Centro de Atenção Psicossocial), unidade da Prefeitura de São Paulo com atendimento intensivo e diário aos portadores de sofrimento psíquico grave.

Em seu dia a dia, Dedoth observou a questão do adoecimento mental da população negra, que culmina em muitos casos de suicídio, como comprova dados do Ministério da Saúde que mostram que jovens negros do sexo masculino, entre 10 e 19 anos, são as principais vítimas de suicídio no país. Em comparação ao mesmo grupo de gênero e etário do segmento racial branco, os pretos e pardos são 67% mais vítimas de suicídio.

Foto: Erica Bastos

Para o artista, isso se deve ao sofrimento dos antepassados da população negra durante os séculos de escravização e que passou de geração em geração, com os negros sem acesso aos direitos básicos dentro de nossa sociedade.

Atuante no graffiti, nas artes plásticas e no Caps, Dedoth também é DJ. A música brasileira faz parte de suas pesquisas e claro o rap, e foi aí que revisitou a música de Parteum e entendeu que o nome da música se associava muito bem com seu trampo no Caps, o caos que muitas vezes habita a mente humana.

Quando recebeu o convite para fazer a exposição contou para o rapper Parteum que era seu fã e faria uma mostra inspirada em sua música, Dedoth conta que o rapper rejeitou a palavra fã, por estar ligada ao fanatismo e preferiu que tratasse como um admirador, a inspiração de fazer as obras foi então unir seus trabalhos dentro da arte, no Caps e na música.

“Como eu atuo no Caps da Sé, eu trabalho com saúde mental, eu comecei a perceber algumas questões com pacientes e algumas questões que acontecem na minha vida. Quanto a observação do movimento negro, a gente sempre fala do momento atual, do adoecimento da população negra, do povo negro. Nós temos questões que vem dos nossos antepassados, que infelizmente vem passando de geração em geração, do que a sociedade colocou pra nós, que a gente não tem direito ao acesso às coisas e isso adoece. Aí eu fiz o trabalho da exposição, o tema que segui com as obras foi isso, de trabalhar com a saúde mental”

Foto: Erica Bastos

Ligado à umbanda, religião que contém elementos da matriz africana e da igreja católica, o artista apresenta “Dois Lados de Uma Religião”, obra em que mostra duas imagens de Nossa Senhora da Aparecida, uma branca e uma negra, o que demonstra essa bagunça de ideias e falta de conhecimento e interpretação em que as pessoas estão mergulhadas. As obras então circulam nesse contexto de intolerância e preconceito.

“Uns dizem que Nossa Senhora é negra, uns falam que é branca e ai pessoa fica naquela. O que que eu faço sobre a homossexualidade é a violência que as pessoas homossexuais sofrem que vem desde a aceitação da família até a sociedade em si. O feminicídio, que a gente nem precisa falar, que a gente vê todos os dias, e o suicídio”

Atuando como grafiteiro desde 1998, Dedoth curtia desenhar desde pequeno, mas despertou para o graffiti quando trombou uma galera pintando um muro na rua, quando ia para casa de um amigo fazer trabalho de escola. Ali entendeu o que queria fazer da vida. Em 1998 não havia acesso à informação tão fácil como hoje e o artista procurava se informar trocando ideias e indo na Galeria do Rock, na região da República, para ver o que rolava na cena.

Mas foi só quando mudou de bairro, quando foi para o Jardim Três Marias, na zona leste de São Paulo, por influência de um grafiteiro amigo, deu os primeiros passos para pintar um muro. Na época começou com o throw up, também conhecido como bombing. Depois disso, o artista tentou desenvolver personagens, quando foi desafiado por um colega grafiteiro que afirmou que o artista não seria capaz de criar personagens. Tempos depois, trabalhos de seus personagens saem na capa da revista Graffiti.

Foto: Erica Bastos

O artista confessa, porém, que foi difícil estudar personagens na época, pois não havia muitas referências e representatividade. A inspiração para continuar veio quando soube que o grafiteiro Onesto era negro.

“Foi um período bem tenso. Eu estava desistindo de fazer graffiti, porque eu não me via dentro da cena de graffiti. Porque todo evento que eu ia só tinha pessoas brancas pintando, e eu achava que aquilo não era pra mim. Meus personagens não eram negros, porque eu não tinha o lance da representatividade. Quando eu vi que o grafiteiro Onesto era negro e ele que fez o vídeo ‘A Invasão’, pra mim aquilo foi uma injeção de energia pra fazer graffiti”

Depois disso, surgiram vários projetos de graffiti e uma oportunidade de explorar mais ainda sua veia artística explorando outros suportes.

A exposição “Bagunça das Gavetas” vai até o final do mês de dezembro de 2019, no espaço Laje 795, que fica na Rua Pamplona, 795, na região da avenida Paulista, em São Paulo.

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