Renata Peron fala sobre as dificuldades de ser uma mulher transsexual no Brasil em entrevista exclusiva

#Entrevista #OrgulhoLGBT | Junho chegou, e com ele o mês do Orgulho LGBTI+. Com várias paradas do Orgulho LGBTI+ por todo o mundo e muitas comemorações, é também época de reflexão. Para isso chamamos Renata Peron para uma entrevista exclusivíssima aqui no Bocada Forte onde falamos sobre as dificuldades vividas por mulheres trans no Brasil, a importância da representatividade LGBT na política e sobre como os próprios LGBT’s tem fortalecido (ou não) a luta das mulheres trans.

Mulher, trans, atriz, cantora, ativista dos direitos humanos, assistente social e militante LGBTQ, Renata Perón é também pré candidata a Deputada Federal pelo PSOL/SP.

Como diz em seu perfil no Facebook,“Sou o retrato de um Brasil que não desiste de lutar por oportunidades com igualdade e justiça para todos. Trago um sorriso estampado no rosto e um histórico de muitas lutas. Nasci na Paraíba e desde cedo aprendi a lutar pela defesa de minha vida, ao perder minha amada mãe muito cedo. (…) Adotei São Paulo como meu lar. Aqui me descobri como ser humano, aqui descobri a beleza feminina dentro de mim e a guerreira dentro do meu peito. Aprendi a juntar a minha voz a milhares de outras vozes, que clamam por uma vida com dignidade e respeito”. Confira:

Bocada Forte: Como está sendo essa fase de ser pré-candidata a deputada federal pelo PSOL? E, para você, qual a importância de termos uma deputada federal transsexual no Congresso Nacional?

Renata Perón: Bem, eu estou em uma fase de muita esperança de pensar que a comunidade LGBT está realmente acordando e entendendo que a palavra REPRESENTATIVIDADE importa não só para os meios de televisão e artísticos, mas para todos os lugares inclusive no Congresso Nacional. Então nós estamos fazendo várias rodas de conversa com meninas e meninos para que essas pessoas me vejam como uma referência empoderada, que pode sim representar e responder pelo movimento LGBT e pela sociedade de forma geral porque uma candidata a deputada federal precisa entender que vai estar lá para lutar pelas famílias e pela sociedade brasileira – não só dela, mas de todas. Especialmente considerando que vivemos no país que mais mata LGBT’s no mundo, somos o país que mais temos negros presos por conta da sua cor, somos o país que mais tem água e esgoto a céu aberto. Então é uma série de coisas que existem que nós podemos tentar mudar estando lá dentro como uma representatividade forte.  E eu posso falar que sou pobre, sou de periferia, sou da comunidade LGBT e tenho sangue negro nas veias porque meus avós e meus parentes são negros. Então estou aqui para representar as minorias.

BF:  Dentro de todas essas dificuldades sociais que você citou (como o racismo, o preconceito social e a Lgbtfobia) para você quais são as principais dificuldades enfrentadas por travestis e transexuais? E como é possível diminuir essas dificuldades?

Renata: Ainda bem que você perguntou as principais, porque são tantas… (risos). A principal dificuldade é nós não termos uma política de inclusão nas escolas para quando os filhos ou filhas, expulsas de casa por assumirem uma identidade de gênero diferente, possam ser recebidas. E é através da educação que se muda a realidade de um país e de uma sociedade. Então acho que o principal fator que dificulta a vida das trans e travestis são principalmente 5: 1) ela ser expulsa de casa, 2) não ter uma política de inclusão na escola e em lugar nenhum, 3) o fato de sermos condenadas por religiões que dizem que somos filhas do Diabo, 4) então nos sobra a prostituição e 5) a marginalização. Então a própria sociedade é culpada pelas mazelas que nos são causadas. Além disso existe o não-reconhecimento da identidade de gênero [trans]: ainda que o STF tenha aprovado a retirada da documentação [de pessoas trans] com seu nome civil, não há um trabalho na sociedade para que se respeite essa identidade.

“Não quero dizer com isso que elas parem de fazer prostituição, mas que elas tenham uma opção porque o que sobra para elas é só a prostituição exclusivamente”

BF: Quais medidas seriam possíveis para melhorar a vida dessas mulheres trans que trabalham na noite, na prostituição?

Renata: Aqui em São Paulo, uma medida que deveria ser copiada do município para o Estado é o o Projeto TransCidadania, um projeto do nosso querido ex-prefeito [FernandoHaddad. Antes havia um projeto chamado Operação Trabalho, do qual eu fiz parte, que foi ampliado pelo Haddad se transformando no Transcidadania. Isso seria uma iniciativa maravilhosa se fosse um projeto de lei.Uma das proposta que penso em levar para Brasília é que o projeto vire um projeto de lei a nível federal: para que as meninas travestis e transsexuais possam estudar, ganhar uma bolsa de R$1200,00 a R$1500,00 para que possam ter um pouco de dignidade. Não quero dizer com isso que elas parem de fazer prostituição, mas que elas tenham uma opção porque o que sobra para elas é só a prostituição exclusivamente.

BF: A gente sabe que dentro do nosso movimento (LGBT+), as pessoas em mais vulnerabilidade são pessoas trans, especialmente mulheres trans. Na sua opinião, porque isso acontece?

Renata: Então, a vulnerabilidade é maior em relação às travestis e transsexuais porque nós não temos amparo de nenhum lado: nós não temos uma lei que criminalize a transfobia, nós não temos uma política de inclusão social para que as travestis tenham a opção de sair da prostituição, nós não temos o acolhimento das famílias que possam aceitar suas filhas travestis ou transsexuais como elas são. Então por conta de todas essas negações de um Estado que é muito heteronormativo, machista e que não acolhe as meninas [trans] é que nós temos esse déficit. O próprio movimento LGBT tem os resquícios da própria sociedade porque você não vê um empresário homossexual ajudando uma travesti a largar essa vida [de prostituição], oferecendo emprego a ela, por exemplo. Existem travestis e transsexuais que conseguem sozinhas se formar e largar a prostituição, mas é muito difícil o movimento [LGBT] chegar junto. Então precisamos desconstruir esse preconceito que está arraigado na sociedade que respinga no próprio movimento LGBT.

O próprio movimento LGBT tem os resquícios da própria sociedade porque você não vê um empresário homossexual ajudando uma travesti a largar essa vida [de prostituição], oferecendo emprego a ela, por exemplo.

BF: Não sei se você acompanha a cena do Hip Hop no Brasil, mas é um espaço ainda bastante masculino e, por conta disso, com pouca expressão e representatividade de mulheres (cis) e LGBTs no geral. Quais conselhos você daria para nós, LGBT’s, que estamos buscando ampliar nossos espaços de fala e representatividade dentro desse cenário?

Renata: Eu não acompanho muito o Hip Hop. Mas sou cantora de MPB e trabalho muito com axé, samba e bossa nova e posso falar desse lugar. Esse lugar não abre espaço para nós nas rádios, nem os próprio produtores que são gays e poderiam dar um espaço para a gente não dão, nós não temos uma gravadora que queira lançar uma trans que cante Bossa Nova ou Samba. Eu tenho um trabalho gravado de homenagem a Noel Rosa que eu jurava que iria ser um sucesso para a indústria porque não tinha ninguém fazendo isso no meio T – e sequer quiseram me ouvir ou me dar algum tipo de retorno. Então é um preconceito muito grande. Então imagine: se na MPB nós temos essa dificuldade, imagine no Hip Hop que certamente é mais machista e mais hétero – para uma trans entrar é uma luta.

BF: Quais mensagens você gostaria de deixar para quem estiver lendo essa entrevista?

Renata: A mensagem que eu sempre deixo quando vou a uma palestra ou evento é a poesia de um amigo, Velasque Brau, chamada “Filhos da Sorte“: “Cada um é feliz do jeito que pode/ Eu posso gargalhar, mas você também pode/ E assim vou vivendo, tropeçando, caindo sempre a levantar/ Só tenho a agradecer/ Erguer as mãos pro céu por mim e por vocês, por tudo que Deus nos deu/ Sabe porque?/ Eu sou feliz desse jeito/ Eu só tenho amor no peito e o amor comanda tudo/ Na minha casa só tem espaço pra alegria/ O estresse, a rotina, o dia a dia não conseguem me atingir/ A gente é o que é/ Cada um tem seu valor/ Sofra menos, plante amor/ Salve a nossa mistura de cor/ Me aceitem assim e eu respeito vocês assim/ Somos filhos da sorte/ Sobrevivemos por um triz/ Não, não tememos a morte/ Viver é meu esporte, beijar na boca é ser feliz”

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