Nego E: ‘evolução e maturidade’

IMGDesde 2011, quando lançou o EP ‘Egresso’, NEGO E vem mostrando inquietação e modificando sua maneira de encarar o que muitos chamam de jogo do rap. Ao invés de abraçar sem questionamento as novas tendências, o MC escolheu parceiros como Tico Pro e DJ Duh, expoentes da nossa safra de produtores musicais, para gravar o disco ‘Autorretrato’, trabalho cheio de personalidade que equilibra temas sérios e passeios por áreas mais tranquilas. Apesar do nome trazer uma ideia de introspecção, Nego E trata seu álbum como uma obra universal. “O disco autorretrato é um autoconhecimento, evolução e maturidade. Não é uma ode ao ego, é um álbum de fotos de diversos momentos da minha vida e de coisas que vejo ao redor”, afirma o MC.

No próximo dia 14, na Lapa, Nego E vai apresentar a versão ao vivo do disco ‘Autorretrato‘ (clique aqui para saber mais), durante os ensaios para sua festa de lançamento, o rapper trocou uma ideia com o Bocada Forte. Leia abaixo a íntegra da entrevista exclusiva.

Bocada Forte: Hoje em dia, para um jovem do gueto, o que significa seguir em frente e avante? Sendo que a sociedade vangloria apenas os vencedores e diz que é preciso ter para ser, como equilibrar progresso financeiro com consciência social e igualdade?
Nego E:
Um jovem do gueto já é vencedor por acordar todo dia, por sair e voltar vivo pra casa porque sujeito à brutalidade policial gratuita, porque escolhe caminhos corretos em meio à tantas opções que oferecem realizações rápidas e que acabam da mesma forma que aparecem. A nossa função é alertar esses jovens que a parcela da sociedade que vangloria ou que diz que é preciso ter pra ser não merece tanta atenção quanto acham que devem.

O equilíbrio vem com a maturidade e com estrutura fornecida pelas pessoas ao redor, cansamos de ouvir histórias de atletas ou músicos que não encontraram suas bases e acabaram em situações ruins, queremos guiar mentes pra que isso não aconteça.

Bocada Forte: Poucos artistas colocam em pauta a história negra. Nossa trajetória é deixada de lado. Você faz várias referências ao passado e ao cotidiano dos negros em seu disco. Qual a razão dessa escolha um tanto fora do padrão comercial? 
Nego E: É acreditar que não existe um padrão. A partir do momento que minha música está na rua e sendo vendida, ela é comercial. Se você não tem perspectiva, cai em padrões, em latas, em potes, fica preso e quando acorda já é tarde pra se desvencilharAo falar de pessoas pretas eu reitero a necessidade do reconhecimento da própria história, “Tinha Que Ser” teve um trabalho de pesquisa que não é feito em escolas (principalmente pela falta de aplicação da Lei 10.639/03).

Quando falo de Gordon Parks ou o cinema Blaxpoitation, falo de culturas que são majoritariamente brancas e tento mostrar que gente preta também pode fazer parte. É entender que os lugares que tentam nos colocar não são suficientes, o poder tem que girar entre os nossos e consequentemente retomar o que nos foi retirado por uma apropriação forçada.

Bocada Forte: Muitos acham que a realidade do genocídio da juventude negra é um exagero da militância. Qual sua opinião?
Nego E:
Não é um exagero. Esses “muitos” são os mesmos que acreditam que o racismo não existe ou que está na cabeça do próprio preto, que o machismo também não atinge mulheres todos os dias e reproduzem discursos cheios de clichês e com pouco embasamento, que a culpa do pobre ser pobre é dele, que não tem que só dar o peixe, tem que ensinar a pescar, que mulher de verdade se valoriza, que a escravidão já acabou e por isso os negros não tem mais do que reclamar e todas essas frases que são replicadas constantemente.

Bocada Forte: Insistir numa poesia que aborda temas sérios como drogas e prostituição é algo necessário para você? Qual a ligação que estes temas tem com seu Autorretrato?

Nego E: Esse ‘autorretrato’ é coletivo, o disco autorretrato é um autoconhecimento, evolução e maturidade. Não é uma ode ao ego, é um álbum de fotos de diversos momentos da minha vida e de coisas que vejo ao redor. Se em músicas como “Mata Hari” e “Vegas” falo sobre drogas e prostituição, é porque são temas que dificilmente são abordados no Hip Hop e que estão em contato quase que direto com a sociedade, mas são negligenciados ou tratados com sensacionalismo por outros veículos.

O autorretrato pode soar como um nome genérico quando tenho músicas que não falam especificamente sobre mim ou diretamente sobre minha vida, mas acredito ser um caso de empatia com situações e pessoas, ser um veículo de comunicação de quem e pra quem não tem voz.

Bocada Forte: Mesmo colocando o dedo na ferida, seu disco tem espaço para temas mais tranquilos. Você acha que conseguiu equilibrar bem essa parada, para o disco não soar como algo tipo “salada temática”?
Nego E:
Em um ano desenvolvemos as 12 faixas pra conversarem entre si, espero ter cumprido esse papel.

IMGBocada Forte: Nem todos os MCs se dão bem quando vão falar de relacionamento afetivo e sedução em seus raps. Você acha que conseguiu ser diferente? Quais suas influências nesta área? O samba é uma delas?
Nego E: Não penso em fazer um rap falando de relacionamentos sendo MC, senão vai surgir um rap sobre rap. Quando falo de relacionamentos afetivos, entram mais casos pessoais ou menos do Nego E que normalmente.

É o que falo na “Relaxa”: nosso ritmo flui de Azymuth a Wu Tang, de Doja Cat a Vic Mensa, portanto minhas influências são diversas, a construção narrativa do samba é incrível e sem dúvida tem grande parte na minha obra.

Falar sobre relacionamentos, sexo, sedução, é complicado, vivemos numa sociedade com raízes machistas e sexistas, além de tabus pra uma parte das pessoas, surgem discussões e discussões, mas o debate é importante e necessário. Eu busco ser natural, tratar com respeito e não limitar minha arte.

Bocada Forte: Como surgiu a parceria com o Tico Pro, já que você também produz e já fez trabalho anterior com Green Alien? Qual foi o principal motivo para mudar o rumo dos seus instrumentais?
Nego E
: Conheço o Tico há quase 8 anos e nunca trabalhamos diretamente, ele apenas tinha gravado e mixado o EP Doze do Seis, no segundo semestre de 2013 decidimos finalmente fazer uma produção juntos, dessa troca de ideias surgiu a “Tinha Que Ser”, pontapé pro disco. Convidamos o DJ Duh pra co-produzir o álbum, o conhecia por um remix que gravei em 2012, desde lá acompanhei seu trabalho, ele foi vencedor de uma das etapas da Battle Beats Brasil e produziu o disco do Marcello Gugu. Não hesitamos em chamá-lo pra fechar essa parceria, ele se dividiu entre o autorretrato e o “Corpo & Alma” do Inquérito.

O rumo dos instrumentais mudou por conta das novas referencias que recebi, por mais pesquisa musical, por criarmos um disco e não uma mixtape ou EP.

Bocada Forte: As letras já estavam prontas? Você mudou a forma do seu Autorretrato conforme ouvia os instrumentais? Houve um pré produção?
Nego E:
Nenhuma das letras estava pronta, todas foram criadas simultaneamente, criava algumas estrofes, mostrava referencias aos produtores e desenvolvíamos trocando ideias e influências de formas de produção, rima, escrita. MCs tem suas rimas soltas e escolhem desenvolvê-las ou não, algumas eu achei perdidas no bloco de notas e as redefini pro disco.

Bocada Forte: Fale um pouco sobre as participações no seu novo trabalho.
Nego E: Sou fã de todos os artistas que colaboraram pra que o disco nascesse e acredito que conseguimos extrair talentos que se conectassem com a proposta do disco e ao mesmo tempo demos liberdade pros convidados palpitarem e adaptarem suas artes à minha. O primeiro convidado foi o Nyack, aceitou na hora, mandei duas referências de colagens e ele chegou com mais várias e me surpreendeu.

Tássia foi uma grata surpresa, tínhamos pouco contato até o dia que ela entrou no estúdio, topou e entrou na nossa ideia pra música, da mesma forma o Dee, que conhecia muito pelos rolês e pelas gravações que já havia feito aqui na Artefato, assim que terminamos de produzir pensamos na voz dele pra entrar na faixa, ainda com o apoio do Outro, criamos uma bela obra.

O Max B.O. é meu parceiro de um tempo, fechou comigo desde o dia que comprou o EP Egresso com um dólar (da sorte) no show de lançamento do “Ensaio, o disco” no antigo Tapas, por ele conheci o Curumin, de quem já admirava muito o trabalho e fiquei honrado por ele ter aceitado participar de uma das músicas.IMG

Já conhecia a Xênia e sonhava em ter uma participação dela desde que ouvi sua voz, fechamos uma parceria linda com Mel Duarte, minha parceira de saraus e correrias. Conheci o Cirillo no lançamento do disco do Aláfia na Livraria Suburbano Convicto, trocamos meia dúzia de palavras na porta, um viu o outro declamar no sarau, nos parabenizamos pelos trabalhos, trocamos contatos e fluiu.

O mais louco foi com o Jean Dolabella, estávamos gravando umas faixas pelo Rubber Tracks no Family Mob, ideia vai, ideia vem, três músicas gravadas e todos cansados. Faltando uma hora pra acabar a sessão ele pergunta “qual eu participo?”, não pensamos duas vezes em reformular a “Vegas” e deixa-lo livre pra criar o groove da bateria e os riffs de guitarra.

Bocada Forte: O que você planeja para divulgar seu trabalho em 2015? Teremos muitos videoclipes também?
Nego E:
O próximo passo ainda é pra 2014, realizar o show de lançamento e assim abrir os caminhos pra 2015, planejando viagens e shows pra disseminar nossas ideias. Tive o privilégio de me estruturar bem durante esse ano, começamos fazendo shows fora de SP, produzindo o disco, no meio do ano surgiu o convite pra abrir o show do Busta Rhymes, a exposição e a abrangência foram bem maiores e consequentemente mais responsabilidades. Formei um time muito competente que acompanha cada passo da caminhada.

Já iniciamos contato com alguns diretores e diretoras de vídeo pra alinhar os videoclipes. Meu desejo é de produzir para todas as faixas, pois acredito que elas tem muito mais pra falar em registros audiovisuais.

Bocada Forte: O que sua geração tem de melhor no hip hop? O que a geração anterior ensinou e você acha que está perdido hoje?
Nego E:
O que minha geração tem de melhor é poder receber a contribuição de gerações anteriores, não sofremos tanto quanto eles, não vivemos o que eles viveram, não passamos pelo mesmo que eles passaram. A contribuição entra na liberdade de expressão que temos agora, nos espaços que foram descobertos e alguns invadidos por eles, só tenho a agradecer por quem veio antes.

Pelo hip hop ser uma cultura nova no Brasil, possibilita que fãs e ídolos estejam em contato constantemente, a troca de gerações acontece lentamente porque o maior expoente da música rap no Brasil ainda tem 25 anos de carreira, enquanto eu 22 de idade, o aprendizado com eles é constante e acontece um câmbio muito forte, porque as influências são mútuas.

O espaço existe pra todos e está sendo conquistado por quem consegue se manter com seriedade, independente do estilo de rima e produção. Quem entende que não chegou no final, ainda tem chance de aprender muito, tanto com gerações antigas ou atuais. Quem acredita que já sabe, fica estagnado e cai logo, são as pessoas que se perdem, os ensinamentos ficam.

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