Jay P: “A mudança vem de dentro”

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Se o papo atual é empreendedorismo, JAY P é um dos exemplos de luta do rap brasileiro. MC, designer autodidata, videomaker, Jay P inaugura sua nova fase em 2015 com muitos projetos musicais e a continuidade da POSSIBILITE, produtora independente que registrou o Quartz 2014, campeonato de DJ organizado por KL Jay, dos Racionais MCs . O artista já trabalhou na Casa 1, produtora conhecida na cena pelos vídeos da série RapBox e fez parcerias com Flow MC e Biritinho, em seu mais recente single chamado “Samisul”, e a banda Black Caesar, no início de sua carreira. Conheça mais sobre o trabalho e as ideias de Jay P na entrevista que o MC concedeu ao Bocada Forte.

Bocada Forte: Você atua em diferentes frentes que ligam audiovisual, rap e design. Fale um pouco de sua formação. O quanto se informar e estudar faz de você um artista diferenciado? Foi o rap que chegou em sua vida para unir e expor toda sua bagagem cultural?
Jay P:  Obrigado pelo convite, é uma honra ser entrevistado por um site “milianos” como o Bocada Forte. Comecei por baixo, onde todos devem começar. Trabalhei como panfleteiro, bicho de posto, frentista, garçom. Depois entrei no mundo publicitário, como assitente de direção, depois diretor de arte, diretor de criação, diretor de videos, editor, produtor. Segui até o exato momento onde estou, trabalhando com a minha própria idéia de empresa. Minha formação é extremamente autoditada nunca vi a necessidade de cursos ou afins depois da internet, nunca gostei de estudar, escola pra mim sempre foi osso, na internet você aprende o imaginar,  aprender. Comecei a mexer no Paint, Photoshop, fui do Windows Movie Maker até o After Effects, tudo é uma questão de interesse, e isso é o mais difícil de se despertar, onde se enxerga só obstáculo, não há solução. O Estudo pra mim sempre foi diário num sentido vivencial: vejo filmes, imagens, videos, escrevo, procuro trabalho de outras pessoas, tudo isso me faz entender que não existe ruim ou bom, mas sim a peculiaridade de cada artista, tudo é trampo. Independente do gosto de cada pessoa, o trabalho sempre deve ser respeitado. A palavra que mais refletiu respeito na minha vida se chama rap, nele aprendi a respeitar pra ser respeitado, o rap direciona minha vida até hoje, nunca me largou, rap é foda.

Bocada Forte: Seus primeiros sons e parcerias foram experimentações em home studio?
Jay P:
 Teve coisas em casa, outras em estúdio profissional. Minha brisa sempre foi fazer música, o rap foi onde me enxerguei, não sabia como fazer corretamente, o que era mixagem ou masterização. Fiz desde rap 90, remix de Jack Johnson, reggaeton com o Mocambo, de Curitiba, ragga, com o Ghetto I e o Kna-man, até desenrolar com os gringos no myspace. Na época do myspace era mais fácil desenrolar ideia, eram menos produtores e músicos, bem menos.

Bocada Forte: Seus primeiros registros autorais que estão no Soundcloud são paradas acústicas, com uma banda e rimas em inglês. Qual a razão desse formato?
Jay P:
 Eu “briso” no inglês como sonoridade, sempre gostei de filme, videogame. Até minha adolescência, a música sempre foi o rock, depois veio o rap, quando peguei umas letras do Tupac,  logo me identifiquei e filtrei essa idéia pro “meu rap”. Na real, ali tem trampo desde 2005 até 2014. De lá pra cá, foi ideia pra tudo que é canto com Rimativos, meus irmão de S.A., o 3 Pilares, Reis da Praça, Afrika Kidz Crew, Mesclando Rimas, com meu irmão de rimas Dirty Flow, hoje Flow MC, mas em 2009 eu me afastei do universo do rap, queria fazer mais do que já havia experimentado. Nessa época, estava trabalhando em agência, conheci os talentosos manos da Black Caesar, que são do Morumbi, então foi totalmente outro universo, fizemos a banda e rodamos até 2012. Ali entendi o funk, o soul e como direcionar a música, não só as rimas.

Bocada Forte: Levando em conta o variado leque temático do conjunto dos seus trabalhos, quais temas você acha que aborda de melhor forma, que tem mais desenvoltura entre beats, letras e flow?
Jay P:
Hoje em dia eu não tenho uma linha de raciocínio referente ao tema, eu já falei sobre muita coisa diferente enquanto eu escrevia inglês, mas ninguém entendia (risos), eu estou rimando em português faz 3 anos, preciso falar tudo que quero e isso vai bem longe. A minha desenvoltura se desenrola aonde eu “briso”, o beat fala primeiro, eu vou depois seguindo. O ritmo fala demais pra mim.

Bocada Forte: Desde seus primeiros trabalhos com pegada mais eletrônica, você mostra que está conectado ao que está sendo feito recentemente no rap internacional. Acha que consegue fazer essa mescla sonora e dar personalidade ao seu rap? É algo que você pensa, se preocupa, ou apenas produz sem maiores planejamentos?
Jay P: Referência, essa palavra pra mim é tão necessária quanto água. Eu vejo tudo que sai, independente da linha musical, isso faz minha inspiração vir de longe, sou um pessoa fissurada por detalhes, “briso” em escrever rimas como música sendo verso/passagem/pré-refrão/refrão, hoje treino dança e canto porque quero chegar pesado como se faz lá fora, a única nomenclatura lá é a de artista, onde não há medo ou limites, a preocupação com o que os outros pensam não existe. Aqui reside demais o medo de muita gente em fazer o que curte, porque todo mundo fala demais e pouco faz.

Bocada Forte: Fale sobre suas parcerias nos trabalhos posteriores. Como rolaram?
Jay P:
Quando deixei o vocal da banda Black Ceasar,  sobrevivi fazendo o que eu sabia: vídeo e design. Cansei da publicidade e procurei o CASA 1, onde já tinha gravado várias faixas. Junto com o Léo Cunha, vivi e aprendi coisa demais. Quando a gente fez o Rapbox, pude acompanhar 39 episódios, onde cada artista era uma ideia, um trampo, uma correria, foi surreal trabalhar com vários renomados da cena, fora fazer videoclipes, algo que se tornou uma parada foda depois do “Quartinho Obscuro”, do Flow MC, ali minha direção destravou. No final de 2013 sai do Casa 1. Estou no meu próprio mundo agora, fiz a “SAMISUL”, veio meu filho favorito, um ano de trabalho em cima de um som é muita ideia. O Bitrinho e o Flow são meus “parças”, nos encontramos depois de uns cinco anos e fizemos o que sabemos, que é largar rimas em cima de um beat monstro. Daqui pra frente é só estouro.

Bocada Forte: Qual fase do seu trabalho considera melhor?
Jay P: A atual, meu passado me trouxe até aqui, o amanhã só vai prosperar se hoje eu for mais do que fui ontem.

Bocada Forte: Você está preparando um novo trabalho? O que vem por aí?
Jay P:
  A POSSIBILITE, minha empresa independente começa a rodar, já tenho pessoas trabalhando comigo, interesse e procura de diferentes áreas a serem atendidos, quero fazer mais trabalho com mais pessoas, estamos no caminho certo e com trabalhos a serem lançados em 2015.  Na parte musical, vai ter muita doidera criativa minha, observei bastante tudo que me chamou atenção pra saber o que eu quero e como eu quero, isso é o mais difícil, tudo tem seu tempo.

Bocada Forte: Acredita que 2015 será um ano de melhores oportunidades para a cena, ampliando o alcance para outros artistas e estilos?
Jay P:
2015 é a peneira de 2014, vivemos na melhor época do universo, estamos conectados, temos exemplos fodas em todos os cantos e estilos, é só entender que o sobrenome do rap é trabalho. Tem uma rapa trabalhando bem, mas ninguém vê muito essa parte, ainda tem uns de chapéu achando que somos maconha e camarim.

Bocada Forte: Você acha que a necessidade de popularização do rap fez com que artistas deixassem de lado temas mais sérios para serem aceitos?
Jay P:
A necessidade só acontece quando existe a procura, o rap se modernizou porque o mundo se modernizou, pro bem ou pro mal a molecada do bullying e Iphone não tão afim de saber uma pá de fita e tudo bem. O rap dos 90 falou pra gente não fazer fita errada, a gente não fez, e a gente falou sobre outras coisas. Isso evolui pro “fale o que quiser e abraça quem quer”, já era. Ou evoluímos ou perecemos.

Bocada Forte: Já que tocou no “fale o que quiser”,  qual a sua opinião a respeito das declarações homofóbicas e machistas que são reproduzidas e, de certa forma, defendidas no nosso rap?
Jay P: Isso é ignorância funcional, eu vejo uma coisa diferente, logo não compreendo, portanto a excluo do meu ciclo e a bloqueio. Somos todos iguais e ponto, homem ou mulher, é penis e vagina o resto é igual, a diferença vem do resultado de vivências e isso se chama psicológico. No rap, o grande teste chegou. O Rico Dalassam é um mano que é preto, mora na periferia, faz rap e é gay. O que o rap fizer ou falar em cima disso, vai ser reflexo pra sociedade, portanto temos que ser melhores que uma opinião sobre uma definição inventada por nós mesmo. Paz sempre.

Bocada Forte: Acha que existe um discurso conservador sendo fortalecido no rap?
Jay P:
 Hoje em dia eu vejo muito mais sorrisos do que eu via quando comecei a rimar, acredito que a cada ano que passa esqueceremos o que quer dizer essa palavra e enxergar a liberdade como o único discurso.

Bocada Forte: Qual sua opinião sobre a atual cena política. Acredita que haverá mudanças? O povo está mais esperto?
Jay P:
 Política faz o sistema e o sistema é escroto, o mundo está na mão de poucos, esses fazem o mundo girar como querem, somos apenas marionetes, cabe a cada um cortar seus fios. A mudança vem de dentro, enquanto não paramos de ver TV todo dia, vivenciar as mesmas coisas e falarmos sobre as mesmas coisas todos os dias, nós nunca enxergaremos o outro lado da moeda. Essa eleição de 2014 foi um terror, todo mundo perdia a linha ao entrar nesse assunto, então é difícil você julgar a política do país quando a política pessoal fala mais alto. Simples, tenta explicar pra pessoa que ainda troca de lado da calçada quando vê um preto na rua o que é vir de um lar desestruturado, a pessoa vai falar: “ah, eu sei como é”, porque ela viu o “drama” na novela, mas nunca ficou sem ter o que comer um dia. Enquanto a gente não nos respeitar como ser humano, vai ser sempre essa papagaiada, culpa o partido e deixa de enxergar a situação do irmão ao lado.

Bocada Forte: As redes sociais colocam em evidência o discurso carregado de ódio, racismo, machismo etc. Acha que as pessoas não veem mais problema em mostrar que são preconceituosas?
Jay P:  A internet é o canal pro estrelato na eternidade da pessoa comum, as pessoas estão malucas já com essa parada, pra mim a internet é um meio de conhecimento, pra outros, uma forma de chamar atenção. Eu entendo muito a clássica do Morgan Freeman “Como acabamos com o preconceito? Não falando sobre ele”. Como eu atravesso um obstáculo? Eu pulo e sigo a minha caminhada.

Bocada Forte: Quando entrevistei o Cabal, fiz duas perguntas que não podiam passar batido. Mesmo sabendo que são pessoas e artistas bem diferentes, gostaria de repetí-las: em sua vida, quais portas foram abertas para você pelo fato de ser branco? Quais portas foram fechadas pelo mesmo fato?
Jay P: Se portas foram abertas por esse fato ou não, eu nunca me importei, sempre soube pisar “fofin” onde fui, eu sou o branco no meio dos pretos no rap, nos outro lugares eu sempre fui branco e sempre foi suave. Existe um puta preconceito com preto pelo qual sinto muito, na forma de respeito e compreensão disso, eu nunca me permiti se quer relevar o fato da minha cor em alguma situação na minha vida.

Bocada Forte: Tem acompanhado a discussão sobre apropriação cultural – principalmente no rap dos EUA? Como encara estes fatos? Poderia falar sobre isso?
Jay P:
A liberdade criativa sempre vai prevalecer numa discussão como essa, se no rap eu posso ouvir um clássico de Bach e querer samplear o mesmo, quem vai poder falar pra mim que aquela cultura não me pertence? Somos todos uma coisa só. Música, cultura, arte, é uma coisa só, ao longo dos anos fomos dando nomes pras coisas pela necessidade de criar uma “unidade de medida” pra tudo.

Bocada Forte: Acredita que o poder econômico do rap brasileiro pode chegar ao patamar dos EUA? Se sim, quais os pontos positivos dessa ascensão?
Jay P:
Claro! Vai ser gol! A economia dentro do Rap funciona como uma rotatividade, precisamos uns dos outros. O MC dá dinheiro pro estúdio, pra gráfica, faz o CD. Do show ele tira dinheiro, investe no clipe, identidade visual, foto, produtor, DJ, faz outro show. O mesmo ciclo se repete, nesse meio tempo, o MC  já deu dinheiro e trabalho pra varias pessoas, gerou o seu e correu para outro círculo. O caso do Emicida é o mais gangsta, o mano sentava na calçada do Santa Cruz e bebia chá, enquanto todo mundo bebia goró, hoje ele faz girar o rap dele, da maneira que ele “brisa”. Você fazer acontecer o que acredita do jeito que você imagina nunca vai ter pontos negativos, nem em 1 bilhão de anos.

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