Trap x boom bap, onde está o verdadeiro rap?

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POR DJ NEEW

A música rap sempre foi um estilo musical conhecido por ser extremamente questionador e nesse sentido acaba se diferenciando dos demais estilos musicais, por conta disso encontramos muitos conflitos internos e divergências quanto a forma ‘correta’ de fazer rap ou o famoso ‘rap verdadeiro’ que alguns dizem.

A alguns anos o conflito era entre o rap chamado gangsta versus o rap chamado de underground, o primeiro muito contundente e extremamente questionador relatando situações que acontecem na periferia como criminalidade, violência policial e drogas, já o segundo falava de sentimentos, de situações de rolê, de skate, e muitas vezes também de violência policial e drogas só que de uma forma diferente.

Nos dias atuais percebemos um novo conflito no rap brasileiro, dessa vez com relação ao estilo de cantar rap, a famosa briga boom bap x trap. O boom bap é um estilo de batida clássica do rap, originária do soul e do funk em forma de loop foi e ainda é responsável pelos maiores clássicos da história do rap mundial, grandes produtores como DJ Premier, Pete Rock, 9th Wonder, J Dilla entre outros marcaram a cena com o estilo de bateria que transcende o rap e pode ser percebido em diversos outros estilos musicais.

Já o trap surgiu no decorrer dos anos 1990 mas só deu uma grande repercussão após 2008/2009. É um estilo de instrumental geralmente com um BPM ( batidas por minuto ) menor que o boom bap, possui um bumbo com um grave mais potente ( 808 ) e caixa mais fraca, geralmente clap. Outra característica do instrumental trap é que em sua minoria é feito uso de sampler deixando mais evidente sons de efeitos, sirenes e repiques de chimbal e bateria, produtores como Lex Lugger, DJ Khaled entre outros tem se destacado nesse estilo.

Muitos dizem que trap é uma evolução do rap, já outros dizem que é apenas uma tendência da indústria fonográfica. Ouvimos alguns beatmakers com experiência no estilo boom bap e trap a respeito dessas questões.

SKEETER, beatmaker que já produziu clássicos para artistas como Emicida, Rashid, Coruja BC1, dentre outros.

“Eu não acredito que o trap é uma evolução do Rap, e sim sub-gênero dentro do Rap. Eu acredito que o trap esteja mais pra uma “evolução” do dirty south, do crunk, esses dois sim tem muito mais a ver com o trap, tanto em questão de lírica quanto em questão de batida (timbres/sequenciamentos). Eles já usavam os kits de bateria derivados da Roland 808, já usavam BPM parecido, o que mudou mais foi o sequenciamento do chimbal.”

Sobre a questão do trap ser a música maintream em alta no momento Skeeter completa:

“Não acredito que seja uma moda, eu como produtor/MC/ouvinte de rap gosto bastante de trap, não gosto de tudo nem de todos artistas que se arriscam nesse sub-gênero, mas quando bem feito fica foda!”

“Eu torço pros caras que fazem rap de qualidade mas tem preconceito com o trap vençam essa barreira, assim as chances da gente ouvir uns trap pesado serão maiores. Posso destacar do cenário nacional dois artistas que trabalham comigo e que dominam esse sub-genero: Rashid e Coruja Bc1.”

“Sobre minha preferencia: sim, é o boom bap! Ele é cerca de 80% dos beats que saem do forno por aqui, mas isso se deve também ao fato de que é o tipo que eu mais domino. Eu adoro os beats West Coast por exemplo, mas não consigo produzir sempre, e assim também ocorre com outros sub-gêneros do rap. Independente do sub-gênero, desde que tenha batida e rima bem feita, isso é o que importa pra mim. Tem hora pra protesto, hora pra conscientização, hora pra dançar e se divertir, é só saber usar essa arma chamada rap.”

LUCAS BEATMAKER produz vários estilos, mas teve destaque em produções para Flow MC, Emerson Rosa, dentre outros.

“Acredito que o trap seja uma vertente, um estilo diferente de rap e não a evolução, o rap é o que é e nunca vai mudar, o trap chegou no Brasil com os artistas do mainstream e os produtores começaram a fazer também, eu prefiro trap não por escolha mas por influência, sempre gostei de ouvir UGK, Tree six mafia esses caras da nata da cena antes mesmo de produzir, era o que eu gostava então apenas me adaptei e o que tá acontecendo na cena é que o pessoal que ouvia antes e gostava está começando a fazer também, e é só um tipo diferente de rap entende? Assim como o funk.”

SAID NO BEAT, produziu a mixtape homônima Said no Beat e trabalhou com MCs como Criolo, Treze, dentre outros.

“Quando criança sempre sonhei que o rap tinha que dominar tudo, não ficar somente nas esquinas e favelas, teria que ter uma voz maior pra outras pessoas que não são do rap ouvir nossa mensagem, porém, o trap nos dias atuais esta sendo algo mais aceitável, não acho ruim, a única coisa que me incomodo é que alguns ouvintes da nova escola colocam o trap acima de tudo e não é, é apenas uma vertente do rap.”

Umas da vertentes da black music é o r&b que fez grande sucesso entre os anos 90 e inicio dos anos 2000 no Brasil com as famosas coletâneas Black Total, Dinamite entre outras mas que não conseguiu ganhar a cena musical no Brasil da mesma forma que outras vertentes do rap, sobre isso Said diz:

“Tinha minha esperança no r&b, mas é difícil o r&b pegar aqui no Brasil, não sou um beatmaker aprofundado no trap mas algumas coisas escuto apesar do meu estilo favorito é o boom bap… Gosto de ouvir discos com estilos variados até pra mostrar a desenvoltura do MC.”

“Aqui na cena do Brasil tem alguns produtores que já são marcados por um estilo, e tudo bem mas não é porque o trap esta vendendo mais shows e esta alta no momento que todo mundo precisa migrar pra esse estilo, o underground sempre existiu e sempre vai existir independente de quem estiver acima.”

RODRIGO LOCAUT é beatmaker e MC, já produziu para Leandro da Rua, Kaue Damazzio e demais MCs.

“Mano, eu acredito que o trap é um estágio musical do rap, não é necessariamente uma evolução, porque tudo que na teoria, evolui, é melhor, e eu não encaro assim, o boom bap não é coisa que precisava de evolução, mas o tempo fez o rap tomar outro caminho, assim como todo estilo musical. O fato é, às vezes eu encaro como evolução, porque o boom bap era na maioria das vezes construído com samples, e isso no trap mudou um pouco, apesar de a maioria dos produtores se limitarem àquele jogo de 3
notas repetidas, acho que isso deu mais capacidade de ampliação do conhecimento musical em si. Quanto ao tempo (BPM) do trap, ele é mais flexível, isso faz que o MC consiga explorar diferentes tipos de flows, levadas, e etc, quando você ouve um boom bap, praticamente ouve-se o mesmo flow de todos que cantam, aquela levada sem quebra, constante, já no trap, é fácil notar a diferença que cada um traz, por isso hoje, meu estilo preferido é o trap, eu me sinto mais livre ao trampar com ele, no boom bap eu estava sempre com medo de não agradar a cena, então tentava seguir os padrões, mas isso é algo pessoal.”

PAULO JUNIOR, beatmaker que já trabalhou com PrimeiraMente, Yanni k, Branko, dentre outros.

“Mano, acredito que evolução é quando você consegue aprimorar uma técnica. Trap eu vejo como uma evolução do crunk e dirty south. Tem seus traços próprios, porém, até no próprio enredo original o crunk e o dirty south são considerados os pais do trap. O boom bap é uma outra vertente de produção, bem menos sintético e fiel as raízes quem vem do soul/jazz/funk. A evolução do boom bap no meu modo de ver, é a forma como o Just Blaze e o Exile fazem as bases, eles realmente levaram pro próximo nível, mas o ouvinte ainda reconhece como boom bap porque o andamento, BPM, tão presos as origens.”

Sobre suas preferencias Paulo Junior completa:

“Quem me conhece sabe que eu prefiro o boom bap, é um gosto pessoal por instrumentais orgânicos, mas sempre paro pra escutar os lançamentos (que em grande maioria são trap) e acabo descobrindo sons que eu gosto. Acho válido essa diversidade de subgêneros, pro rap conquistar mais público precisa ter material que agrade a todo tipo de ouvido, eu sempre vou ter minhas preferências, você as suas e assim é promovida uma democracia saudável.
Quanto ao trap, a única coisa que me incomoda (assim como no boom bap) é a repetição de fórmulas, eu chapo quando escuto um instrumental original, com timbres originais, ou que pelo menos o produtor se preocupou em mesclar 2 caixas, 2 bumbos e fazer algo único. Mas quando escuto a mesma timbragem, o mesmo tipo de synth e acordes, a mesma vibe, eu pulo a faixa.  Um belíssimo exemplo é a Bey do Slim Rimografia, que tem uma proposta trap com um picote de sample que roba a cena e soa diferente de tudo que foi lançado até hoje no Brasil.”

DJ DUH, DJ do grupo Inquérito, já produziu para Marcelo Gugu, Gah MC entre outros trabalhos.

“Eu acredito que o trap não é o futuro de nada, é apenas uma vertente do Rap e é a evolução do crunck, dirty south e é tradicional de uma região dos Estados Unidos! E pra mim foi facilmente difundido pela facilidade com que se comunica tanto com a música Pop tanto com a Edna e é alvo das pistas de dança e dos DJs principalmente de música eletrônica! Eu particularmente gosto do estilo quando é bem feito, mas a mágica dos beats com o groove do boom bap e o sampling pra mim é insubstituível, resumindo, é mais uma vertente da música Rap, que é mais absorvida pela maioria por fazer um flerte com o estilo de música Pop, mas não, não é o futuro do rap!”

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