Falamos com Marcílio Gabriel, idealizador do Programa Freestyle

Com novo formato, programa estreia no dia 17 de março e promete uma temporada de grandes entrevistas (última edição em 28 de agosto de 2019)

Marcílio Gabriel

MARCÍLIO GABRIEL volta a apresentar o PROGRAMA FREESTYLE, podcast que registrou diferentes momentos do rap brasileiro (clique aqui e saiba mais). Trilhando pelo caminho do audiovisual, o apresentador explica como será a nova fase de seu projeto. “O tempo será mais curto, será mais um programa de bate-papo do que necessariamente aquela entrevista que segue um padrão, e também será bem livre”. O Bocada Forte trocou aquela ideia firmeza com o Marcílio. Confira abaixo.

Bocada Forte: Por que o Programa Freestyle encerrou suas atividades e qual o motivo do retorno?
Marcílio Gabriel: Eu trabalho com comunicação há 14 anos e atuei em emissoras de rádio do circuito comercial do FM de São Paulo, isso sempre foi minha prioridade profissional. O Programa Freestyle surgiu como uma opção pessoal de ouvir e curtir rap no formato e da mesma maneira com qual trabalhava e produzia programas de outros segmentos musicais nas emissoras que trabalhei. Eu produzia os podcasts apenas para ouvir no ônibus, na rua, em casa… mas os hospedava em plataformas públicas e gratuitas de streaming, ou seja, eram podcasts pessoais, mas estavam liberados para quem quisesse ouvir.  Como estava achando legal produzir esse conteúdo, resolvi mandar o link do podcast no correio interno do meu trampo, o pessoal ouviu, gostou  e imediatamente me cobrou para divulgar publicamente, nisso já mandei o link no meu mailing e em todos meus contatos de e-mail.

A partir daí eu oficialmente comecei com o Programa Freestyle, mas sempre como um hobby, uma diversão, um prazer, uma viagem, um “landscape radiofônico”, mas a coisa foi tomando uma proporção muito grande e a qualidade do programa foi cada vez mais avançando e a notoriedade do mesmo acabou sendo inevitável, mas ainda assim não era minha atividade principal. Até que chegou o momento em que conquistei um espaço muito grande e importante como radialista, comecei a produzir e fazer parte da bancada de apresentadores de um programa matinal na rádio Metropolitana FM de São Paulo, o programa foi líder de audiência no horário e começou a ter destaque e reconhecimento em outras mídias e com o público. Me tornei uma pessoa pública, conhecida, que dava autógrafos, tirava fotos na rua e toda essa loucura do qual eu achava muito estranho por sempre ser muito tímido, isso tomou bastante meu tempo e atenção e por consequência foi enfraquecendo minha dedicação a produção do Freestyle na pegada que estava, fui diminuindo a periodicidade dos programas, o ritmo de entrevistas, externas, coberturas de shows e passei a produzir somente podcasts musicais, isso em 2012, até a chegada do momento em que não dava mais conta, pensei até em passar para outras pessoas continuarem, mas sentia que não era a melhor coisa a ser feita. Resolvi dar uma pausa nas atividades do programa até achar um novo formato no qual eu pudesse cuidar e ter a mesma dedicação de quando atingiu seu auge. Essa pausa foi longa, durou 4 anos, agora retomei o projeto já com o novo formato planejado e explorando as novas ferramentas de mídia e comunicação que temos hoje.

Bocada Forte: Quais as principais diferenças entre a cena hip hop atual e a cena da época em que o programa estava no ar?
Marcílio Gabriel: Não vejo muitas diferenças na cena do hip hop brasileiro da época em que o programa estava no aos dias de hoje. A resistência, a inspiração, a educação e cultura do ser ainda é viva dentro do hip hop. Essencialmente, o hip hop é forte, é rico. Quando converso com alguém sobre hip hop ainda sinto e vejo o mesmo brilho no olhar de quando assisti Beat Street, de quando ouvi pela primeira vez o “Ressurection” do Common, o “Illmatic” do Nas, de quando fazia oficina de hip hop com as crews “SUATitude” e “Break D’ Rua” no colégio Virgília no Butantã, quando via os grafites do Evandro “Zero”, os riscos do DJ Pato, as rimas do Edson JR e do Ridson “Dugueto Shabazz”, os passos do Jeff, os ensinamentos do Mateus Subverso, os shows do DMN, a presença de palco do Manos Urbanos… Acho que talvez a grande diferença hoje seja que cada vez mais temos mais acesso à informação, conhecimento, arquivos, fotos, história.

No rap a figura, na minha visão, já muda e mudou completamente. É da natureza e da humanidade as coisas mudarem, crescerem, evoluírem e se transformarem, por isso acredito mais nas transformações dos acontecimentos do que nas diferenças, é claro que elas existem por conta do tempo que passa e passa cada vez mais rápido, mas se for pra fazer uma comparação é visível a transformação na forma em que a informação chega, é aceita e interpretada por nós. A internet democratizou mais o acesso aos conteúdos, deu abertura para as pessoas exporem seu gostos e preferências sem receios. A abertura de mídia e da grande mídia é maior, o público é mais abrangente, não é mais seleto. Onde não tinha rap, hoje tem, o rap também é uma plataforma de negócios e grandes negócios – assim como a música no geral – onde era discriminado é requisitado, criou-se novos caminhos dentro do rap, novas vertentes, novos galhos dessa árvore, e existe público para todos eles, o rap como corpo cresceu, então de fato a coisa se transformou, está se transformando e vai se transformar, é uma constante.

Bocada Forte: Você ainda possui os arquivos os programas anteriores? Quais são os programas memoráveis?
Marcílio Gabriel: Possuo sim, tem uma CPU em casa que tem um HD com todos os programas renderizados e em projetos guardados, também tenho os back-ups em DVD, pois era o que usava para guardar os programas na época em que começou. Agora com mais opções de armazenamento coloquei em nuvem para guarda-los também.

Sobre programas memoráveis eu sempre tive a preocupação de fazer entrevistas que ficassem marcadas, e consegui com a maioria dos programas. Tenho orgulho de todos eles, ouvia todos diversas vezes por justamente ter gostado das entrevistas, das músicas… Vou destacar dois aqui, o primeiro deles, o com o Mzuri Sana, foi o programa em que tive a oportunidade de conhecer os caras com quem trabalhei como produtor artístico posteriormente, Secreto, Suissac e Parteum. E o outro foi com o KL Jay e Edi Rock, esse programa era pra ser só com o KL Jay, mas ele colou com o Edi Rock, foi o programa mais longo, quase três horas de duração e uma aula de respeito e amor ao que se faz, quem ouviu percebeu e sentiu isso na entrevista, eu estava simplesmente com KL Jay e Edi Rock no meu programa de internet. Foi memorável, ou melhor, esse dia foi loko, haha!

Bocada Forte: Como você vê a comunicação do hip hop atual? Quais os pontos positivos e o que precisa melhorar?
Marcílio Gabriel: Confesso que quando pausei o Freestyle me desliguei um pouco, deixei de acompanhar com frequência o que estava rolando na comunicação do hip hop brasileiro, mas vi que a coisa avançou com os blogs e sites migrando boa parte de seus conteúdos para as redes sociais. Hoje as notícias estão mais nas redes do que nas páginas institucionais dos veículos independentes, é mais prático e dinâmico criar uma página de notícias no Facebook do que um site ou blog.

E a rapaziada que mantém suas homes e cria novas acaba usando as redes para “manchetar” suas notícias e redirecioná-las aos sites/blogs. Por conta do fácil acesso e da rapidez, o uso das redes sociais para esse tipo de comunicação acaba sendo mais eficiente no sentido de atingir mais rádio a pessoa que vai receber aquela informação, além de ser uma forma mais barata e interativa de se trabalhar. Hoje o próprio artista usa suas redes para passar informações de shows, novidades, projetos, sem a necessidade de ter que exclusivamente falar a algum veículo ou site/blog/rádio/TV/revista/jornal, se você acompanha o feed do facebook ou instagram do artista automaticamente já vai saber o que ele está fazendo ou vai fazer.

Vejo uma rapaziada firme por aí, tem alguns que gosto, e sempre abro os links de acordo com a manchete postada na rede social. E sou mais fã de rap do que um comunicador de rap, dizer o que pode melhorar vai muito de visão de modo pessoal, da maneira como você quer receber determinada informação, do que você busca, que tipo de matéria ou notícia é do seu interesse, qual site você quer acompanhar, seguir… mas num modo geral acho importante a gente sempre apurar o que vai publicar, se atentar realmente ao que acontece, ser sensato e apto para ouvir todos os lados, para publicar um editorial ou uma opinião, ter tranquilidade nas emoções, a coerência nas análises também é importante, enfim… apurar, acho que essa é palavrinha mágica pra gente sempre ter uma comunicação forte e com credibilidade no hip hop brasileiro.

Bocada Forte: A mídia alternativa é reconhecida e respeitada pelos artistas?
Marcílio Gabriel: Momento polêmico da entrevista, haha! Acho que pra dizer se existe um respeito nessa relação é preciso fazer um raciocínio se colocando nos dois lados. Como disse na resposta anterior, o artista acaba usando suas redes para falar e mostrar seu trabalho para seu público, mas por outro lado a mídia independente do rap reforça isso, ajuda na campanha de valorização do trabalho do artista, dá espaço pra quem não tem uma abertura tão grande nos meios de informação, por isso ela continua sendo essencial no desenvolvimento da nossa cena. Dos artistas que acompanho sempre vejo que postam links dos sites/blogs que falaram de seu disco, lançamento, agenda de shows, lista de melhores do ano, vejo que existe essa troca ainda. Não posso falar que todos artistas respeitam a mídia independente, podem respeitar, mas seu produtor ou assessor talvez possam não reconhecer um veículo ou outro, acontece…O ruim é que isso liga diretamente a imagem do artista. Eu já estive dos dois lados, como produtor de artista e como o cara que vai atrás pra falar com o artista. Mas eu acho muito classe quando um artista grande fala e dá atenção a um veículo independente ou menor da mesma maneira que fala a um do mainstream. Às vezes fala mais, se sente até melhor e tem mais segurança falando com canais que atingem diretamente o público do rap do que com um canal grande que tem um alcance que atinge diversos segmentos.

Bocada Forte: Quais são as primeiras atrações do programa em 2016?
Marcílio Gabriel: Segredo, hahaha! Eu já dei algumas pistas, postei foto de gravação, um dos artistas que já gravaram também postou uma foto do set, do cenário… Mas vou fazer o suspense aqui e deixar para a estreia da temporada, que é dia 17 agora, quinta-feira.

Bocada Forte: Questões como racismo, machismo, e desigualdade social serão abordadas no Freestyle?
Marcílio Gabriel: Se pintou uma pergunta assim creio que é por que existe uma carência na abordagem desses assuntos, o que não deixa de ser verdade. Diferentemente do formato antigo de rádio, agora com essa versão em vídeo, o tempo será mais curto, será mais um programa de bate-papo do que necessariamente aquela entrevista que segue um padrão, e também será bem livre. Adotei um esquema de condução do programa em que não vou seguir roteiro, irei sentar na frente da câmera com o convidado e vamos trocar ideias, o que vai possibilitar a abertura para todos os tipos de assuntos. Não quero caracterizar o Freestyle como um programa que só fala disso ou daquilo, mas de qualquer forma é importante lembrar que todo mundo aqui é atento, tem a gana da comunicação, capacidade de absorver o que acontece e ter uma determinada coerência para expor suas ideias, sem se apoiar em discursos rasos para influenciar e motivar negativamente ações de quem vier a acompanhar os programas. Fazer comunicação relacionada à música é de uma responsabilidade muito grande, a música, principalmente o rap, tem um poder persuasivo muito forte e a gente que trabalha para passar e multiplicar as informações do meio musical tem que ter um pouco essa dimensão.

[+] Confira a entrevista com Marcílio Gabriel, feita em 2009

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