Álbum ‘The Sun Rises in The East’ completa 25 anos

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Capas dos singles e album
Capas dos singles e do álbum

#MemóriaBF #Internacional
Antes de qualquer coisa, é ótimo escrever sobre clássicos. Acabamos por relembrar discos, mas não é o caso desse, que muitas vezes estão esquecidos na estante. Digo que esse não se encaixa nesse esquecimento, pois ele sempre está nos meus sets noturnos e particulares e também sempre levo pra rua quando rola qualquer festinha na quebrada. Sem contar que é mil vezes melhor escrever sobre qualquer obra, com ela nas mãos.

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Capa do Disco
Capa do disco

O disco “The Sun Rises In The East“, de Jeru The Damaja, traz na capa o World Trade Center em chamas. Pouco mais de um ano antes do lançamento, o arranha céu nova-iorquino sofreu um atentado terrorista, em fevereiro de 1993.

Apesar de boa parte do disco ter sido gravada em 1993, ele foi lançado oficialmente em 24 de maio de 1994. O título diz uma grande verdade e nós que somos do leste, ou zona leste, sabemos bem disso, “O Sol Nasce no Leste”.

O meu disco, a minha cópia, tem uma história um pouco triste. Um grande amigo DJ tinha muitos discos repetidos. Um belo dia ele resolveu se desfazer dos discos. Pediu minha ajuda e aí eu disse: – “eu não tenho grana agora para comprar seus discos, mas a gente pode fazer assim, eu conheço muita gente interessada, vendo os discos pra você e em troca eu escolho alguns pra mim”. Ele concordou, levei os discos pra casa, fiz uma lista e comecei a fazer os contatos. Este disco rapidamente foi vendido, não apenas por já ser um clássico, mas também pelo preço que estava muito bom para um álbum duplo. Vendi um, fiquei com o outro e aí quando fui ouvir o disco novamente descubro que fiquei com os dois discos lados A e B (1 e 2) e vendi os dois lados C e D (3 e 4), ainda bem que tenho os três singles do álbum e isso acabou compensando a falta de algumas músicas. Como vendi o disco para um dono de loja, não sei o paradeiro dele. Portanto, se o dono desta cópia estiver lendo esse texto, por favor, entre em contato e vamos juntar os pedaços.

Contra capa do álbum
Contracapa do disco

Voltando as músicas, produção, samples, letras e a importância histórica desse clássico, ele começa com Jeru The Damaja citando alguns trechos de um mangá japonês dos anos 80, falando sobre equilíbrio, bem e mal e isso é um tema recorrente em outras composições do disco também, o título é “Intro (Life)”. Em “D.Original” ele traz uma espécie de apresentação, assim como em “Brooklyn Took it”, onde ele vem ressaltando a força do seu bairro no Rap. Nem preciso citar aqui o porquê dessa força, que é esmagadora, ironicamente a colagem usada é do grupo Boogie Down Production (B.D.P.), que é do Bronx.

Single D. Original
Capa do single D.Original

Depois vem o skit “Perverted monks in tha house”, anunciando o Kung-fu lírico, preparando para a entrada e a apresentação para o mundo de outro grande nome do Rap, Afu-Ra em “Mental Stamina”, onde os dois falam sobre a força e o poder de suas rimas. “Da Bitches” é uma música na pegada “Mulheres Vulgares” do Racionais, não com a mesma abordagem. Na verdade mais radical, basta traduzir o título para saber. É uma música difícil de ser apresentada hoje, mesmo ele dizendo na letra “que não está falando das rainhas, das irmãs e que respeita as mulheres verdadeiras, guerreiras”. É uma música que se tocada hoje, vai sofrer duras críticas. O instrumental é matador. DJ Premier no seu auge. Beat pesado, lento, scratches e colagem no refrão. Premier matador.

Em “You can’t stop the prophet” ele narra uma luta com a ignorância, fugindo de armadilhas e lutando para o profeta continuar sua saga. Na sequência mais um interlúdio “Perverted monks in tha house (Theme)”, um instrumental que em outros casos poderíamos chamar de “resto de estúdio”, mas no caso de um beat do Premier nunca é resto, esse tenho certeza que muito grupo ao redor do mundo usou pra criar seus Raps no anos 90.

Capa do single You cant stop the prophet
Capa do single You can’t stop the prophet

Em  “Ain’t The Devil Happy”, uma tradução literal seria “o Diabo não é feliz” ou “não faça o diabo feliz” – Gabriel O Pensador tem uma música com o título parecido em seu segundo disco (“Ainda é só o começo”). Talvez tenha se inspirado, pois o clima das duas faixas é parecido. Jeru fala sobre a violência, as drogas e muitos problemas das quebradas, irmãos contra irmãos e quem ganha com isso é apenas o “diabo” ou o “sistema”.

“My mind spray” é um termo muito usado por Jeru em diversas músicas. O refrão novamente só com colagens e scratches do Premier e a letra segue a linha de se vangloriar, de ser zica nas rimas e nas ideias.

“Come Clean” é o maior clássico não apenas da carreira do Jeru e da Golden Era, mas do Rap mundial. No Brasil, o grupo S.N.J usou parte do instrumental na música “Mundo da Lua”. Essa faixa tem colagem do grupo Onyx (“Throw ya guns”), e para mostrar que é embaçado nas rimas, assunto comum em muitas letras até hoje, Jeru canta “controlo o microfone como Fidel Castro, como em Cuba”.

Capa e contracapa do single Come Clean
Capa e contracapa do single Come Clean

Quase no fim do disco, uma das melhores letras de uma música pouco conhecida. Lado B total. No caso aqui, lado D, que fala sobre ancestralidade, a força ancestral, a descendência real e não de escravos, afrocentrada. Os primeiros versos de “Jungle music” dizem “- meu estilo sobreviveu a navios negreiros, chicotes e correntes, dificuldades…”, “- Quem estupra e estraga, nos chama de selvagens? / Coelhinha da selva, eu não sou engraçado, eu sou mortal / Eles sabem que um dia aprenderemos como usá-lo / É por isso que eles temem nossa música da selva”.

Na última faixa, o chiado proposital do vinil, bem underground e sujo, parece um freestyle. Lembra muito o beat da participação do Jeru na faixa “I’m The Man”, do Gangstarr. Se não me engano, não confirmei ainda, mas a bateria parece ser do grupo Funkadelic.

O disco tem inúmeras colagens e samples, dos mais variados estilos, mas o funk e o Rap dominam as escolhas do DJ Premier, tem B.D.P, Mary Jane Girls, Doug E. Fresh, Slick Rick, Michael Jackson, Isaac Hayes, Bob James, James Brown, Ahmad Jamal, Roy Ayers, dentre muitos outros. Apenas alguns desses samples estão descritos na contra-capa. A maioria ficou no “anonimato”.

Divulgação

Turnê pela Europa

Esta semana Big Shug – que assim como Jeru foi lançado por Guru e DJ Premier como parte da Gang Starr Foudantion – publicou em suas redes sociais uma tour Européia que será realizada durante o mês de junho, para comemorar os 25 anos do disco.

Farão parte dessa tour, além de Jeru The Damaja e Big Shug, o grupo Group Home.

Em tempo, os três singles desse álbum foram lançados respectivamente nas seguintes datas: “Come Clean”, em 21 de outubro de 1993;
“D. Original”, em 29 de janeiro 1994;
“You Can’t Stop the Prophet”, em 6 de abril de 1994.

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Escute o álbum completo:

Assista ao vídeo da música “Come Clean”:

Assista ao vídeo da música “D.Original”:

Assista ao vídeo da música “You cant stop the prophet”:

 

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