#Contextos: rap, rupturas e continuidades

hebreu“Vejo o Sabotage como um elo entre a velha escola e esta nova escola”

Por: Anderson Hebreu*

Os fãs de rap mais saudosistas, os conservadores, aqueles que batem no peito e dizem “Eu só ouço rap de verdade”, têm passado mal de um anos pra cá. Pois o rap brasileiro está muito diferente daquele rap feito nos anos 90, aquele rap sisudo, pesado, conservador e machista, apesar de – na época – ser considerado libertário (e até era).

Ele era libertário da ponte pra cá, pois em alguns aspectos era conservador e tinha uma ser resistência. Resistência no sentido de não cantar pra playboy, de ter o olhar diferente para pessoas brancas no movimento, e o principal: não ir à TV, principalmente à Rede Globo. Poucos rappers naquele tempo fazia um rap mais “suave”, como Doctors Mcs, Ndee Naldinho, Thaide e mais alguns. (Falo dos que eu lembro e ouvia na época).

De 10 anos pra cá, muitos rappers brasileiros têm mostrado que o rap pode ir além de falar sobre o racismo, ir contra o sistema politico e a PM. Hoje em dia temos rap feminista, feito por mulheres que lutam contra o sexismo e toda opressão machista, temos rapper gays lutando contra a homofobia, temos rappers que reforçam sua ancestralidade e não tem vergonha de mostrar que é de religião de matriz africana. Temos também aqueles rappers que enxergam o rap simplesmente como música, e não só como uma arma de luta e, lógico, temos ainda o rap gangsta, estilo que bate pesado contra o sistema. Hoje o gangsta tem menos espaço, mas ele ainda tem grande impacto e influência no rap brasileiro.

Eu não vejo a cena atual menos politizada. Vejo que os rappers viram que podem falar de outros assuntos, porque os tempos mudaram, muitas coisas já foram ditas, ficaria chato e repetitivo reproduzir discursos que já foram ditos. Este fato abriu um leque de assuntos, pois os bons rappers da nova escola são muito bem informados.

O que mudou é que antes um rapper fazia um álbum com 15, 20 músicas, com sons de protesto. Hoje já é diferente, é algo mais curto e plural, no mesmo álbum/EP/mixtape, com no máximo 14 musicas e temas variados. Eu acredito também que o fato do rap esta mais plural está ligado com a mudança do governo FHC pro governo LULA, vou explicar:

Pra quem viveu os anos 80/90 a lembrança ainda está na mente, na favela tínhamos ruas de terra, esgotos a céu aberto, violência, chacina etc. Neste contexto, acho natural que gere ódio e revolta. Vários rappers canalizaram este ódio e revolta em suas letras de rap, por exemplo “Panico na zona sul” faz uma clara citação aos matadores de aluguel, os famosos “pé de pato”, pois na zona sul, em regiões como Capão Redondo e Jardim Ângela, as pessoas falavam que se matavam um já encomendando o próximo, o bagulho era tenso. “Isto aqui é uma Guerra”, do Facção Central, “A burguesia Fede”, do De Menos Crime, inclusive o refrão desta música resume bem o rap dos anos 90: “Eles produzem a miséria e nos impedem de chegar a um nível social”.

Eu nasci em 1987, lembro bem como era os anos 90. Desemprego, salário mínimo por volta de 110 ou 120 reais, a mistura era ovo, quando tinha o ovo. Não estou pagando de miséria, mas era a realidade de muitos aqui na zona sul de São Paulo. O rap era reflexo da situação politica da época, ou seja, o rap “era o efeito colateral que o sistema fez”.

Naquele tempo, precisávamos daquelas letras para formar um exercito de pessoas com a mente blindada. Quando o Lula chegou à presidência, o pobre se sentiu representado, sua autoestima ficou lá em cima. Geral botou fé que iria melhorar. Durante oito anos, a periferia melhorou, isto é inegável. O Lula fez um bom mandato, o país cresceu economicamente.

Com este crescimento, a favela também modernizou, chegou telefone, internet, asfalto, crediário fácil. Hoje boa parte dos pobres tem seu carro. A situação econômica facilitou a vida de muita gente. O Brasil mudou, as pessoas mudaram. Hoje eu vejo que alguns discursos em letras de rap, como “Mulheres vulgares uma noite a nada mais”, dos Racionais MC’s, que é um discurso machista, se fosse lançados hoje, os integrantes do grupo sofreriam. As minas que ouvem rap não aceitam mais letras assim, o Emicida que o diga, né? Sabemos o que rolou quando o rapper lançou o som “Trepadeira”.

O que ajudou também nesta mudança do rap brasileiro foi a internet, e eu nem falo da praticidade de você gravar a musica num dia, mixar e masterizar no outro e, no terceiro dia, por na net. Falo que a internet, muitas vezes, faz o trabalho de educar as pessoas. As pessoas aprendem coisas na internet que não aprendem ou não aprenderam na escola. A internet também aproximou as pessoas, com isso, pessoas com pensamentos iguais se encontram virtualmente e trocam informações, conhecimentos. Esta é uma geração mais bem informada que a antiga, portant,o seu leque de assunto é maior.

Não estou dizendo que a favela é uma maravilha, só não é a mesma situação de antes. Na época, eu não tinha maturidade pra entender isso, mas hoje, 13 anos após sua morte, eu vejo o Sabotage como um ELO entre a velha escola e esta nova escola. Recentemente assisti o documentário do Sabotage: O Maestro do Canão. Durante a entrevista na favela, ele fala assim: “Agora eu falo pra você, se eu fosse falar de tanto sofrimento meu tempo não dá, olha ai ó olha o meu redor”.

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Rapper Sabotage. Ilustração de Alexandre de Maio.

Nem o Sabota gostava de falar só de sofrimento, e eu fiquei com uma ideia fixa na cabeça, pois um rapper genial, com um dos álbuns mais foda do rap brasileiro, fez filme, ganhou prêmios, foi aos programas de TV e outras fitas. Me deixa triste a situação da família do Sabota. Não que eu esperava que eles estivessem numa mansão e pá, mas pelo menos numa situação melhor. O sonho do Sabotage era ganhar dinheiro com sua arte, inclusive com rap, não só no cinema. Os fãs do Sabotage batem no peito com a frase “rap é compromisso”, com o intuito de que não se pode ganhar dinheiro no rap, mas eu fico pensando, até onde tem que ir este compromisso?

Enquanto alguns diziam que faziam rap pra adulto, o Sabota se importava com as crianças. E um documentário mostrado pelo extinto programa YO!, da MTV, isso fica bem claro. É fácil ver como as crianças amavam o Sabota e, no fim do documentário, creio que o repórter pergunta sobre isso, ele diz: “Tiro a atenção da criançada, pra min já deu pra entender que eles estão aprendendo alguma coisa. Pra min é bom pra caralho. Eu poderia morrer amanhã, minha parte eu fiz”. Infelizmente ele morreu. Eu tenho certeza que ele fez sua parte.

O Sabotage é o grande precursor desta nova fase do rap nacional. Nesse lance de TV, aparecer nas grandes mídias, o Sabota mostrou um lado do rap que ninguém via: o sorriso, a alegria. Todos os gangstas tinham cara de mau, o Sabota já vinha na contramão. Por isso ele conquistou as crianças. Hoje…várias destas crianças cantam rap.

*Anderson Hebreu é responsável pelo blog Noticiário Periférico. O blogueiro escreveu este artigo para a série #Contextos a convite do Bocada Forte.

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