Memória BF: Ogi, rimas e histórias na cidade cinza

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Arte digital: Marcus Gorga MP.

RODRIGO OGI, rapper paulistano, vive e respira a cidade de São Paulo 24 horas por dia. Seu álbum “Crônicas da Cidade Cinza” [lançado em 2011. Em 2015 o rapper lançou o álbum ““] é um retrato fiel da maior selva de concreto da América Latina, com seus típicos personagens, problemas, crises e prazeres. Ogi, como todo bom paulistano, é diretamente influenciado por esse dia a dia frenético, entre os arranha-céus do centro da cidade e os casebres e vielas do subúrbio.

Mas quem é esse poeta e rimador do cotidiano? Convidamos você, leitor, a conhecer um pouco melhor Rodrigo Ogi através desse bate-papo com o Bocada Forte [entrevista realizada no dia 13 de junho de 2011].

Bocada Forte (BF): Como surgiu o codinome “Ogi”?
Rodrigo Ogi: Meu sobrenome é Hayashi. Ogi veio da época em que abandonei a pichação e comecei a fazer uns throw ups. Daí, como já tinha um nome no picho, resolvi criar outro pra lançar nos bombs e adotei esse nome como MC.

Dê o play, relembre o álbum “Crônicas da Cidade Cinza” (2011) e leia a entrevista abaixo:

BF: Qual foi o seu primeiro contato com a cultura hip-hop? Qual foi o elemento da cultura que chamou sua atenção primeiro?
Rodrigo Ogi: Foi o rap. Ouvi o som “Corpo fechado”, de Thaide & DJ Hum e pirei. Ouvi Racionais, com “Pânico na zona sul”, e vi que aquilo era a minha praia. Na época, ninguém sabia o nome do estilo. Uns diziam que era ‘funk’. Tinha gente que dizia que era rock. Algum tempo depois, descobri que aquele som que me atraia se chamava rap. Daí pra frente, entrei de cabeça.

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Ogi em ação.

BF: Qual é a diferença entre tag e throw ups? Aproveitando a deixa… Vemos que o graffiti tem uma forte influência no seu trabalho. Qual é a sua relação com o graffiti?
Rodrigo Ogi: Eu vim da pichação. Minha escola é a pichação. Pichei muros durante 15 anos mais ou menos. O tag é aquele rabisco, e o throw up é aquela letra com duas cores, no máximo três, que o cara joga no muro em alguns minutos e de forma ilegal, assim como o picho. Eu fiz throw up por um ano e conheci vários caras que até hoje estão representando nas ruas: Pifo, Kaur, Guiga, Os Loucos, Gueto, Koió, Finók, Dedo, Arco, Zopes… Estes são alguns nomes fortes do throw up que me influenciaram.

BF: O que torna o rap de Rodrigo Ogi diferente do feito por outros artistas da cena?
Rodrigo Ogi: Eu estudo muito a métrica. Procuro diferenciar a abordagem. A temática pode ser a mesma, mas eu tento abordar de uma maneira diferente. Gosto de flow, cadência e ideia. Um sem o outro não vinga. Adoro detalhar as minhas histórias. Acho que, no futuro, também irei trabalhar como roteirista.

BF: Suas letras trazem histórias com personagens, sempre com alguma ligação com a cidade de São Paulo. De onde tira inspiração para compor esses personagens e histórias?
Rodrigo Ogi: Eu me vejo nesses personagens. Eles são pessoas que vivem em São Paulo e eu procurei contar a história de cada um deles no Crônicas da Cidade Cinza. Na música Eu tive um sonho, eu falo dos nordestinos e de como eles construíram a cidade. Falo dos sonhos, dos sofrimentos que eles viveram. Em Profissão perigo, eu me coloco no papel de um motoboy circulando pela metrópole. Em Por que, meu Deus?, eu retrato os dois lados da moeda: o lado do ladrão e o do policial. Sem puxar sardinha para nenhum deles. Só questiono o porquê de tudo ser assim. E por aí vai. Todas as faixas são inspiradas no cotidiano de pessoas que vivem em São Paulo. Coisas que vivi e vi pessoas vivendo.

BF: O que as pessoas podem esperar desse seu primeiro álbum solo? Fale-nos sobre a parte musical: beats, produções, músicos, participações, etc…
Rodrigo Ogi: Eu procurei atingir todas as pessoas. Não é um trabalho direcionado somente ao povo do rap. Os beats são de Dario, Nave, DJ Caíque, Sala 70, Leleco, Menor, Drunk, Stereodubs, DJ Zala e Ogi. As participações são de Rodrigo Brandão, Munhoz, Espião, Lurdez da Luz, Savave, HenRick Fuentes, Dr. Caligari, Mascote e Don Cesão.

BF: Atualmente o que anda tocando em seu player? Você tem influências da cena rap internacional?
Rodrigo Ogi: Ouço muito samba, música brega e rap. Geraldo Filme, Germano Mathias, Roberto Silva, Dora Lopes, Aparecida, Roberto Ribeiro, Adoniran Barbosa, Sidney da Conceição, Nelson Sargento, Nelson Cavaquinho, Tereza Cristina, Evaldo Braga, Reginaldo Rossi, Barto Galeno, Odair José, Rodrigo Brandão, Lurdez da Luz, Rashid, Projota, Kamau, Munhoz, Cabal, Emicida, Criolo Doido, Jr Dread, HenRick Fuentes, Jamés Ventura, Funkeiro, Rapadura, Xará, Shaw, Elo da Corrente, Racionais, SP Funk, SNJ, Parteum, Espião, Savave, Nairobi, Terra Preta, DJ Caíque e por aí vai. O rap americano também é forte influência no meu trabalho.

BF: Na sua opinião, o que é rap popular?
Rodrigo Ogi: Rap popular é o rap que é mais conhecido pelas pessoas. Quanto mais divulgado na mídia, mais pessoas irão conhecer e isto o tornará mais popular. É só isso. Não vejo diferença entre os raps. A diferença tá na temática, na batida…

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Foto: Ênio Cesar.

BF: Mas e quanto à relação das pessoas com o miami bass, que é conhecido no Brasil como “funk carioca”? Por que você acha que esse estilo musical se tornou tão popular e aceito no país e o rap ainda é visto com certo preconceito?
Rodrigo Ogi: Já tive várias teorias sobre o sucesso do funk carioca. Esse estilo atinge fortemente os adolescentes. A maioria dos jovens, até mesmo pela idade, ainda não tem opinião formada. Eles gostam de bagunça, de festa… A maioria dos funks que ouço por aí falam disso. Pra molecada, isso é um prato cheio. Mas você não vê uma tiazinha ouvindo funk. Pelo contrário, os mais velhos até recriminam. Eu admiro muito o ritmo do funk, a batida, isto é muito original, mas não vou além disso. Fico só com o ritmo mesmo.

Quando eu trabalhei na Febem, eu tinha alunos que se sentiam incentivados a roubar depois de ouvir um “rap violento”. Hoje eu vejo meninas de doze anos rebolando ao som do funk. Acho que isso está muito além. Acho que isso vem da educação. O ensino é fraco, a televisão é que educa. Sem conhecimento, você acredita que o que estão vendendo é real. Eles querem que o povo tenha pouco conhecimento e, assim, seja facilmente manipulado. Isso já vem de muitos anos atrás. Em outras épocas, só os nobres tinham acesso aos livros e o povo era analfabeto. Assim, o poder ficava na mão de poucos e a massa era facilmente subjugada. Hoje continua assim, não mudou nada! Na quebrada, tem um bar a cada esquina. Eu não vejo biblioteca.

BF: Sobre seu trabalho com internos da antiga Febem [atual Fundação Casa]: até que ponto a música rap pode recuperar um jovem infrator?
Rodrigo Ogi: A maioria era analfabeta. Meninos de 15, 16 anos, que vinham sem base nenhuma. Ali eu tive noção de como a educação era precária. A Febem, onde trabalhei, recebia vários adolescentes todos os dias e a maioria deles mal sabia desenhar o próprio nome. Tive alunos que cursavam a oitava série e mal sabiam ler.

No começo, eles só queriam ouvir rap violento ou funk que exaltasse o crime. Aos poucos, eu ía colocando outras músicas e eles iam entendendo o outro lado das coisas. Como falar de livros com jovens que não sabem ler? Era uma tarefa difícil, mas prazerosa. Sempre tinha um, dois ou três que se interessavam e o resultado era visível. De 20, eu salvava um. Vinte iam pro crime novamente e apenas um largava.

Deixei a Febem tem quatro anos. Encontrei vários alunos pelas ruas. Quase todos eles estavam no crime. Uns acabando de sair da cadeia, outros nas drogas. Um dia eu entrei em uma loja e encontrei um aluno meu lá. Eu tinha dado aula pra ele numa unidade de risco grave na Febem. Ele tinha deixado o crime e tava trabalhando ali fazia quase dois anos. Foi o que ele me disse. Ele se lembrou das ideias que trocávamos e chegou até a chorar. Aquilo foi uma vitória pra mim. Espero que ele ainda esteja no caminho certo.

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Foto: Filipe Borba.

BF: E a sua trajetória com o Contra Fluxo? Como começou a história de vocês? Fale de um momento marcante seu junto com o grupo.
Rodrigo Ogi: Tivemos vários momentos marcantes. Só de estarmos todos juntos já é muito bacana.

BF: Quais são os projetos futuros do grupo? Pode adiantar alguma coisa pro leitor do CHH?
Rodrigo Ogi: O Contra Fluxo continua. Só estamos dando um tempo. Eu tô lançando o disco, o Mascote prepara o dele. Cada um focado em seu projeto atual. Estamos preparando um som novo que vai sair na mixtape do Laudz e futuramente iremos dar inicio ao terceiro disco.

BF: Como surgiu a parceria com OsGemeos, que fizeram a capa do ‘Crônicas da Cidade Cinza’?
Rodrigo Ogi: Conheci os caras faz um tempo. Acho que em 1999, através de amigos. Eu fiz o convite da capa e eles toparam na hora. Uma semana depois, o desenho da capa já estava em mãos.

BF: Um bate-bola.
Viver em São Paulo é: Tenso, mas não saio daqui por nada.
Um lugar: São Paulo.
Uma comida: Arroz, feijão, bife e batata frita.
Uma coisa boa: Música.
Uma coisa ruim: Fofoca.

BF: Espaço aberto.
Rodrigo Ogi: Deixo um salve para Deborah Di Cianni, Rodrigo Brandão, Pifo, Juk, Henrick Fuentes, Jamés Ventura, Gabi Jacob, Vitinho Ferrari, Fernando Reginato, Zorack, Drunk, Nave, Dario, Menor, Leleco, Munhoz, DJ Caíque, Dani Piroti, Flip Yung, Kaur, Mascote, Cléo, Bugalu, Calex Fi de Buga e a todos que acompanham o meu trabalho.

Ouça o álbum “RÁ”, lançado em 2015:

*Entrevista originalmente publicada no dia 13/6/2011.

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Dia 18 de agosto, o rapper RODRIGO OGI faz apresentação no BAR OPINIÃO, em Porto Alegre.
Festa de 1 Ano da produtora GRIOT. Não perca!

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