Hip-Hop 50 Anos | Depois de 11 de agosto de 1973, os guetos do mundo nunca mais foram os mesmos

Cultura de rua celebra a data da primeira festa de Hip Hop da história. Publicado pela primeira vez em 11.08.2019, última edição em 11.08.2023

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DJ Kool Herc. Foto: The Source

Publiquei esse texto pela primeira vez em 11 de agosto de 2019, no ano que o Bocada Forte completou 20 anos e quando a Cultura Hip-Hop, simbolicamente, completava 46 anos. De lá pra cá venho atualizando algumas informações, pois existem muitas controvérsias ainda, estórias e histórias. No final do texto tem um vídeo muito bom, do Jaspion da True School Crew, da cidade de Franca (SP), que aponta e fala sobre algumas dessas controvérias, lendas e romantizações.

O dia 11 de agosto de 1973 é simbólico, como me ensinou MC Who?!, é o “mito de origem”. Foi nessa data que o DJ Kool Herc, com apenas 19 anos, tocou na festa de volta às aulas a pedido e organizada pela sua irmã Cindy Campbell na Avenida Sedgwick, 1520, no bairro do Bronx, em Nova York.

Afrika Bambaataa e DJ Kool Herc. Fotos: Reprodução/Google

O termo Hip-Hop ainda não era usado para nomear a união dos 4 elementos (Breaking, MC, Graffiti e DJ), mas todos eles estavam presentes nesse dia. Herc estava comandando os toca-discos e quando possível também comandava o microgone. Reza a lenda que até quem não é de dançar, dançou.

Uma coisa é certa, Cindy Campbell foi fundamental para que essa festa acontecesse. Ela não foi apenas a produtora da festa, foi também a promotora, pensou na compra de bebidas, confeccionou os convites à mão, e entre as diversas lendas em torno da data, ainda dizem que Kool Herc estava de castigo e ela convenceu os pais a liberarem ele para a festa.

O que motivou Cindy a organizar a celebração foi a necessidade de comprar roupas novas para a sua volta às aulas, com as entradas e a venda de bebidas ela conseguiu juntar pouco mais de 300 dólares. Em relação às bebidas, mais uma vez ela precisou recorrer ao pai, pois ela não tinha idade para poder comprar. Com apenas 15 anos ela pensou em tudo para atingir seu objetivo e sequer imaginava que a sua festa seria considerada o pontapé inicial de uma Cultura que hoje movimenta bilhões ao redor do mundo!

Uma outra curiosidade em relação à festa é que os pais e as mães de alguns dos convidados, muitos moradores do mesmo endereço, fizeram o papel de “seguranças”, eles e elas ficaram ali por perto cuidando dos seus filhos e de todos e todas que estavam na festa.

Convites originais de outras festas organizadas e promovidas por Cindy.

O convite que muitos de nós usamos para ilustrar essa data, não é o convite original. A própria Cindy já disse em entrevistas que o convite original ainda não apareceu. Esse que está na montagem destaque desse post, é uma reprodução utilizando os mesmos dados e foi inspirado em outros que a Cindy fez para outras festas. Deixo aqui alguns exemplos de convites que ela fez a mão também, onde é possível ver a diferença, esses convites feitos por ela e muitos outros ítens dela e do Herc foram leiloados. Neste convite temos outros nomes, de amigos de Herc, são eles: Coke La Rock, Timmy Tim e DJ Clark Kent – sobre a presença dos amigos de Herc na festa, também há controvérias.

Sobre dizer que a data é simbólica, o “mito de origem”, nada disso diminui a importância da festa. É apenas para que as pessoas entendam que os elementos da Cultura Hip-Hop já estavam sendo praticados, a própria Cindy e seu irmão Kool Herc, eram grafiteiros ou writers, assinavam PEP 1 e CLYDE.

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Hoje, o endereço de onde a festa aconteceu é ponto turístico da cidade de Nova York e considerado o local de nascimento da Cultura Hip-Hop. O termo que usamos hoje para designar a união e celebração dos 4 elementos passou a ser usado à partir de 12 de novembro de 1974, no aniversário de 1 ano da Universal Zulu Nation (UZN). Afrika Bambaataa foi quem bateu o martelo – até mesmo sobre essas informações há também mais controvérsias, pois a própria UZN não tem registros ou documentos que comprovem tais afirmações e datas. Mas isso não tira de Cindy e Herc o título de “Pai e Mãe do Hip-Hop”, reconhecidos como tal pela própria Zulu Nation.

A tal festa gera controvérsias também sobre a quantidade de pessoas que dizem ter participado, é tanta gente que se todos estivessem falando a verdade, nem caberia no local. É algo parecido com o que acontece aqui no Brasil: o tal “eu tava lá”.

Print da página da Zulu Nation

Seja hoje ou em novembro, a Cultura Hip-Hop deve ser sempre celebrada e os seus princípios de Paz, Amor, União e Diversão levados adiante, para que as próximas gerações conheçam os seus valores e mantenham a sua essência.

Muitos insistem em dizer – “o Hip-Hop morreu” ou “o Hip-Hop perdeu a essência” – quem resume o Hip-Hop a um estilo musical pode até ter seus motivos para tal pensamento. Mas quem entende o Hip-Hop como Cultura e estilo de vida sabe bem que ele está muito vivo e presente em todos os lugares do mundo, espalhando-se e sofrendo influências das culturas de diferentes regiões. B.boys, B.bgirls, MCs, Grafiteiros e DJs sabem muito bem que as suas manifestações artísticas vão muito além da música!

O Hip-Hop não precisa das decisões de políticos para comemorar ou reconhecer as suas datas históricas, embora essas decisões sejam essenciais para o fortalecimento de políticas públicas em que o Hip-Hop seja o agente transformador. Mas só para registrar o que alguns compartilharam em forma de comemoração há alguns anos: Em 29 de julho de 2021 o senado dos Estados Unidos aprovou projeto que reconhece o 11 de agosto como ‘Dia de Celebração do Hip-Hop’. A mesma resolução do senado estadunidense, reconhece o mês de agosto como ‘Mês do reconhecimento do Hip-Hop’ e o mês de novembro como ‘Mês da História do Hip-Hop’.

Parabéns Hip-Hop! Obrigado, Cindy Campbell e DJ Kool Herc!

Assista ao vídeo do Jaspion, está bem completo

 

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