Entrevista com Tajai, do Hieroglyphics

Hiero Crew no Indie Hip Hop 2004 – Foto Acervo BF

Criada no início dos anos 90, a Hiero Crew é formada por: Del The Funky Homosapien, Souls of Mischief (Aplus, Phesto, Opio e Tajai), Casual, Pep Love e Domino. Todos são do lado leste de Oakland (Califórnia) e têm em comum o amor pelo Hip-Hop, foi isso que os uniu e fez com que atravessassem mais de uma década fazendo música de boa qualidade. A Crew em si tem apenas dois discos com todos os MCs cantando, o Third Eye Vision (1998) e Full Circle (2003), ambos lançados pela sua própria gravadora, a Hiero Imperium Records.

De todos eles Del The Funky Homosapien foi o primeiro a gravar, com uma grande ajuda do primo na produção, o rapper e ator Ice Cube (ex-NWA), ele lançou em 1991 “I Wish My Brother George Was Here”. O grande sucesso desse disco, pelo menos por aqui, foi a faixa “Mistadobalina”, ainda tem DJ que rola esse som nas festas.

Depois desse disco ele lançou mais três – “No need for alarm” (94), “Future development” (98) e “Both sides of the brain” (2000) – e prepara um novo para 2005 (‘Eleventh Hour’). Vale lembrar que desses, apenas o “Future…” foi lançado pela Hiero Imperium, já que a gravadora foi criada em 1997.

Para quem não sabe nada sobre o Del, é ele quem rima na música “Clint east wood” da banda virtual Gorillaz. Aplus, Phesto, Opio e Tajai (Souls Of Mischiefs) foram os próximos a gravar, em 1993 lançaram “93 til infinity” pela Jive Records. Em 1994 foram lançados mais dois discos de MCs da crew, Extra Prolific – que não está mais com os Hieroglyphics – lançou “Like it should be”, também pela Jive e Casual lançou “Fear itself” (Jive Records). Os Souls Of Mischiefs ainda lançaram “No man´s land” (95-Jive), “Focus” (99-Hiero Imperium) e “Trilogy: conflict, climax, resolution” (2000). Casual lançou “Meanwhile” (97-Hiero Imperium) e “He think he raw” (2001). Pep Love lançou em 2001 o álbum “Ascension”.

Assista ao vídeo de “Mistadobalina”

O disco mais recente é o do Tajai (Souls Of Mischiefs) Power Movement, lançado esse ano pela Hiero Imperium. Foi ele que nos concedeu uma entrevista exclusiva poucos dias antes da vinda dos Hieroglyphics para o Brasil, eles vão se apresentar no Indie Hip-Hop, mas infelizmente o Del não virá. Na entrevista ele fala sobre o início da Crew, seu início no Hip-Hop como B.boy, política, Hiero Imperium e a cena atual do Rap estadunidense.

Tajai no Indie Hip Hop 2004 – Foto Acervo BF

Bocada-Forte: Fale sobre o início do Hieroglyphics?
Tajai:
 O Hieroglyphics é Del The Funky Homosapien, Souls of Mischief (Aplus, Phesto, Opio e Tajai), Casual, Pep Love e Domino. A gente cresceu junto no mesmo bairro, no lado leste de Oakland e tínhamos um interesse mútuo e amor pelo Hip-Hop. Quando nos tornamos adultos, levamos a música mais a sério e começamos a vê-la como uma carreira em potencial. O Ice Cube, primo do Del, o ajudou e produziu o primeiro disco dele, “I Wish My Brother George Was Here”. Depois disso, o Del nos ajudou e eventualmente assinamos contratos com gravadoras grandes. Depois de passar pelo sistema de gravadora comercial e depois de abandonarmos nossos contratos anteriores, nós nos juntamos e formamos a Hiero Imperium Records, nosso selo independente. Desde então, estamos fazendo tudo assim.

B.F: Porque esse nome e qual o objetivo da Crew?
Tajai: Os hieróglifos são retratos de palavras e tentamos fazer nossa música e nossas letras pitorescas e detalhadas. Estamos tentando lançar música de qualidade consistentemente e também fazer da Hiero Imperium uma casa em prol de música inovadora e inspiradora.

Ouça a música “The dum dum” do Tajai

B.F: Desde o surgimento da Crew, tem algum integrante que não está mais com vocês ou algum novo integrante?
Tajai:
Teve o Extra Prolific, mas ele tá fazendo seu próprio trampo agora. Não temos nenhum novo integrante, mas trabalhamos muito com vários músicos fodas, que consideramos família.

B.F: Como começou o seu envolvimento com a Cultura Hip-Hop?
Tajai:
Comecei como B.boy e me envolvi um pouco com o Graffiti. O A Plus me envolveu no lado musical, fazendo cassetes de duas a quatro faixas e cantando nas festas, showcases, etc. O Too Short é o rei por aqui e ele foi minha inspiração durante aquela época. Tô rimando com o A Plus desde 1983! Desde aquele tempo, meu amor pelo Hip-Hop só tem crescido.

Capa do disco Power Movement

B.F: O seu disco solo (Power Movement) foi lançado pela Hieroglyphics Imperium, fale sobre esse disco e os planos futuros da gravadora de vocês?
Tajai:
 O disco foi feito basicamente pra fazer as pessoas pensarem, planejar e também festejar. Enquanto os jovens crescem, fica necessário pensar no mundo e na sua posição nele. Queria fazer as pessoas ficarem prontas para focalizar, sem pregar muito. Os fãs estão gostando do disco e vou lançar um disco de remix chamado “Power Movement Remix Álbum”, em breve! Nós também temos discos novos do Ópio (Triangulation Station), Casual (Smash Rockwell) e Del (11th Hour). E o DVD e CD Full Circle Live, em breve.

B.F: O que está achando do Rap nos E.U.A atualmente?
Tajai:
 Agora mesmo o Rap manda nas casas noturnas e nas rádios. Alguns são bons, outros não. Há uma cena comercial grande e também uma cena underground grande. O que eu não gosto é o acesso limitado dos artistas que não são comerciais à tv e rádio. Isso é ruim, porque só mostra (especialmente às crianças) um lado do Hip-Hop como se fosse de um jeito só. Também, o acesso limitado faz os artistas políticos ficarem praticamente calados. Mas tá tudo bem, porque isso faz com que nos organizemos e promovamos nosso trabalho num nível mais pessoal nas comunidades e com nosso público.

B.F: A Crew de vocês é só de MCs ou tem DJs, B.boys/B.girls e Grafiteiros que fazem parte?
Tajai:
DJs, MCs e produtores. Phesto e Del fazem uns trampos de Graffiti também.

B.F: Você conhece alguma coisa sobre o Hip-Hop ou a música Brasileira?
Tajai:
 Escutei muita música brasileira, mas pouco Hip-Hop. Vocês têm uma rica história musical, então eu imagino que o Hip-Hop aí deva ser forte!

B.F: Para você o que é um grupo underground? Os Hieroglyphics são underground?
Tajai:
Underground significa desconhecido, também chegou a significar “o oposto de comercial,” mas existem muitos artistas desconhecidos e “underground” que fazem música que tem um som comercial, então não gosto de usar essa palavra assim. Creio que underground é simplesmente desconhecido, impopular. Os Hieroglyphics são reconhecidos mundialmente, mas ainda estamos underground porque não recebemos muita exposição comercial. Agora mesmo acho que o Pigeon John ou Shake the Mayor representam grupos do underground. Os dois têm um grande potencial comercial.

B.F: A Crew de vocês tem alguma postura política, o que achou da vitória do Bush?
Tajai:
 Foda-se a política, tenho mais interesse nas necessidades básicas como alimentação, roupa e moradia. Não existe nenhum político vivo no qual eu confie nem um pouquinho. Sendo assim, é evidente que os americanos estão num estado de hipnose em massa e que não vamos acordar até as condições por aqui ficarem tão ruins, a ponto de não podermos ignorá-las mais.

B.F: Deixe um recado para o público brasileiro.
Tajai:
 Estamos muito animados para vê-los, isso é um sonho nosso. Continuem apoiando músicas positivas, que nós continuaremos fazendo música positiva!

[+] Ouça e leia a entrevista no Programa Boomshot #21
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