Tradução: Hip Hop palestino surge em meio as tensões do oriente médio

'Se soldados israelenses começarem a atirar, não vamos parar a entrevista'

A rica herança do Hip Hop na Palestina, nasce de toda a tensão existente na região, mas o selo e coletivo de trap da cidade de Ramallah, BLTNM, não quer somente produzir música inspirada nos conflitos. Eles querem se divertir também

Por Tom Faber (The Guardian)

Antes de eu conhecer a nova onda do Hip Hop palestino eu já ouvia a respeito em todos os lugares. As elegantes produções de Al Nather ecoam nos alto-falantes no deserto da Jordânia e os raps de Shabjdeed bombam nos bares da cidade de Haifa. E, é claro, você os escuta por todo o canto em sua cidade, Ramallah.

Os rappers Shabjdeed e Al Nather. Foto: Siko Tatour

O Rap foi trilha sonora da revolução na Tunísia, em 2011, e tem uma longa história no país vizinho, a Argélia. Recentemente, o trap da cidade norte-americana de Atlanta inspirou rappers em Marrocos, Tunísia, Jordânia

Na estrada, em direção ao estúdio deles, perto da capital palestina, contornamos as colinas cheias de árvores oliveiras. O forte muro que separa Israel da Cisjordânia ocupa o horizonte. As letras de Shabjdeed são evidentemente forjadas nos conflitos entre os países: sua música que expressa fúria e uma delas é mantida tocando por horas num posto de controle militar. No entanto, quando pergunto no estúdio sobre o tema política ele se irrita, e rebate com uma pergunta: “Como é viver sob ocupação?” Isso não faz sentido para ele: ele nunca conheceu nada além disto. Os soldados israelenses poderiam vir até aqui, começar a atirar e não vamos parar a entrevista. É como o tráfego na cidade de Londres; é perturbador, mas não perguntamos: “Como é viver em meio ao trânsito de Londres?”

Seu coletivo, BLTNM, representa apenas mais um posto avançado no mundo do Hip Hop árabe. O Hip Hop é popular e sua música se estendeu muito além de suas origens, nos EUA. O Rap foi trilha sonora da revolução na Tunísia, em 2011, e tem uma longa história no país vizinho, a Argélia. Recentemente, o trap da cidade norte-americana de Atlanta inspirou rappers em Marrocos, Tunísia, Jordânia, onde as batidas acessíveis e suaves do trap unem-se as letras de conteúdo local.

Poucos lugares na região têm uma herança do Hip Hop tão rica quanto a da Palestina. Suas primeiras estrelas foram o grupo DAM, da cidade de Lod, com altos índices de pobreza e criminalidade, assim como a casa original do Hip Hop, o bairro do Bronx, em Nova York. O hit de 2001 do grupo, intitulado Meen Erhabi (Quem é o Terrorista?) ficou famosa com seu discurso acalorado contra a injustiça sistêmica, que catapultou o gênero musical.

Logo em seguida, outro grupo, o Ramallah Underground, surgiu como uma voz forte na Cisjordânia. Mohammad Masrouji, de 26 anos, também conhecido como Al Nather, foi inspirado por eles quando adolescente e mais tarde co-fundou o coletivo experimental chamado Saleb Wahed, núcleo da segunda geração do Hip Hop palestino. Suas produções misturam jazz, alguma “sujeira” e sons de vanguarda, enquanto as letras políticas se espalham por uma poesia abstrata.

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Shabjdeed, um rapper de 24 anos, é obcecado pelas faixas de Saleb Wahed: “Eu memorizei todas as sílabas”, revela. Em 2016, ele pediu a Masrouji que tentasse fazer Rap e, em pouco tempo, eles estavam fazendo faixas juntos no estúdio, escrevendo músicas em poucas horas e gravando no mesmo local.

Você pode ouvir a hiperatividade de Shabjdeed em seus Raps, num fluxo constante de palavras que preenche todos os cantos da música, com refrões repetindo-se como num disco quebrado. DAM cita 2Pac como uma inspiração importante. Os dois adoram os rappers Young Thug e também Future. A produção de Masrouji é uma mistura de sons estrondosos, teclas cintilantes e percussões que marcam.

Ao invés de criarem todo um álbum, eles resolveram lançaram uma faixa on-line toda semana, adotando hábitos de escuta da Cisjordânia, onde Israel não permitia acesso 3G até janeiro de 2018. Eles se autodenominavam BLTNM. Pronunciada “blatinum”, é uma referência à instituição musical de Dubai chamada Platinum Records, a consoante [P por B] foi trocada numa piada sobre o sotaque de Shabjdeed – não há som da letra “p” em árabe.

A marca do grupo é o seu profissionalismo, graças ao diretor criativo de 21 anos de idade, Ahmad Zaghmouri, também conhecido como Shab Mouri. “Quero deixar claro que é uma marca oficial, não apenas um grupo de amigos ou uma equipe”, diz ele com o objetivo de garantir a longevidade, num desejo de legitimidade, para provar que os palestinos podem executar uma operação profissional, apesar das restrições.

Estas restrições assumem muitas formas. Apesar de uma forte cena artística na Cisjordânia, existem poucos promotores, gerentes ou locais para se tocar. É difícil organizar festas, que precisam terminar à meia-noite e podem ser canceladas a qualquer momento, de forma arbitrária. Poucos artistas podem ganhar a vida com sua música, exceto através de financiamento, que – explica Masrouji – tende a ser alocado a artistas mais tradicionais, que “não distorcem a imagem confortável de ninguém da cultura palestina”.

 

A partir da esquerda, Al Nather, Shabjdeed e Shab Mouri. Foto: Siko Tatour

Precisamos de liberdade de expressão, liberdade de dançar da maneira que queremos dançar. Liberdade para ser apenas nós

No entanto, a equipe tem grandes ambições. O álbum de estreia de Shabjdeed e Al Nather, Sindibad el Ward, foi lançado em agosto (ouça abaixo). Além disto, Zaghmouri usa sua rápida ascensão como exemplo para oferecer gerenciamento para artistas através do selo BLTNM. Qual é o objetivo final? “Você escrever ‘música árabe’ no Google e a gente aparecer”, diz Shabjdeed. “É muito fácil se vender como palestino”, continua, imitando o uso de um cachecol do tipo keffiyeh e segurando uma bandeira. A cultura pode dar uma perspectiva de fora dos palestinos, definindo-os além do conflito. Mas o BLTNM não está fazendo música como uma espécie de missão. A música deles é de arte, de diversão, de desperdício. Há algo de subversivo nisso, considerando a frequência com que a mídia leva os artistas palestinos a uma narrativa simplificada de resistência cultural.

“Você não precisa estar com o território ocupado para fazer uma música de sucesso”, diz Masrouji. “Pode haver uma conexão entre a ocupação e alguns de nossos versículos, mas também somos inspirados pela vida cotidiana, pelo mercado, pela energia no centro de Ramallah.” Os outros concordam. “Precisamos de um descanso de tudo, não apenas da ocupação”, diz Zaghmouri. “Precisamos de liberdade de expressão, liberdade de dançar da maneira que queremos dançar. Liberdade para ser apenas nós.”

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O Hip Hop é um imenso polvo e seus tentáculos avançam para todos os lados, tudo isso de uma maneira impressionante e descontrolada

Publicado em 15 de maio de 2002, um texto do ex-colaborador do BF e pioneiro MC carioca, Def Yuri, abordava a influência do Rap estadunidense ao redor do mundo, incluindo a região de Israel e Palestina. Confira abaixo:

Várias vezes falei sobre a pluralidade no Hip Hop, seja em artigos ou de viva voz. É engraçado, às vezes estar informado é um problema. Dizem que ter e querer informação é uma doença. Bom, pensando desta forma sou terminal. Falar sobre os antagonismos da nossa cultura sempre foi uma constante em minha vida. Sempre disse e repito: o Hip Hop (H2) é um imenso polvo e seus tentáculos avançam para todos os lados, tudo isso de uma maneira impressionante e descontrolada.

Além de vivenciar o H2 (30 horas por dia), procurei e procuro estar informado sobre os vários tentáculos do Hip Hop e seus objetivos.

Ringo e Paolo Maldini no estúdio da rádio 105. Foto: Reprodução/Scoopnest

Lembro das caras de espanto de alguns camaradas quando eu abordei algumas notícias, exemplo: um dos caras que deu e dá a maior força para o Hip Hop na Itália, se chama Paolo Maldini. É ele mesmo, o capitão da Azzurra (Seleção italiana), dono da Def Jam Itália e ainda tem um programa bastante popular de rap na rádio 105 FM Milão [chamado Codice Rap]. Isso parece besteira, cultura inútil, porém faz parte da minha cultura, é tão importante quanto as notícias vindas da costa oeste ou leste estadunidense.

Outro exemplo foi quando no início dos anos 90 um camarada meu (Suave, ex-Jigaboo) retornou da França e me disse sobre a cena francesa e no restante da Europa. Lembra Suave? Ele expôs detalhes sobre as diferentes vertentes do rap inclusive uma ligada à frente nacional (nazis), confesso que fiquei grilado com aquela história e pesquisei muito – não é que era verdade!

Isso mostra o quão democrático é o Hip Hop, apesar dos rumos equivocados.

Ao comentar essas histórias, algumas pessoas não acreditavam ou não tinham capacidade de discernir sobre o que estava sendo exposto. Eu optei continuar seguindo pelo caminho da informação, do que o da cegueira cultural, bastante comum no meio.

O Hip Hop teve sua origem na comunidade negra hispânica e depois foi adotado e se consolidou como uma das, se não a maior expressão do nacionalismo afro-americano. Estão cientes do que eu estou expondo? E assim, o Hip Hop foi a um curto período se entranhando nas mais diferentes comunidades independente de etnia ou convicção religiosa.

Quem não se lembra do 3rd Bass (Judeus), Kid Frost (Mexicano), Mellow Man Ace (Cubano), Boo ya Tribe (Samoanos, acho que são de lá ou talvez sejam de marte), MC Solaar (França), DNI (Espanha), N Factor (Alemanha)? Enfim, o Hip Hop ganhou a sua cara multirracial e internacional. Isso em alguns aspectos foi muito bom. Digo em alguns aspectos, pois a nossa cultura de rua é camaleônica e se adéqua às necessidades de cada lugar em que aportar. Lembro da primeira revista espanhola que vi sobre o assunto (foi em 1989) e tinham várias pessoas vestidas tal qual o Public Enemy, Boogie Down Productions. Tudo era igual aos Estados unidos, quero dizer quase igual, pois não tinham negros. Já os assuntos posso dizer que eram até mais contundentes. Jungle Kings que o diga!

Constatei coisas impressionantes como alguns soldados israelis que escutavam rap antes e durante as missões. Eles ouviam sons de grupos como Cypress Hill, Jay Z, DMX, Subliminal

Com o decorrer do tempo, muitos outros exemplos foram aparecendo com a proliferação de grupos de rap nas mais diferentes correntes politico-partidárias ou religiosas. Hoje em dia, grupo político que se preza tem que ter um grupo de rap. No Brasil que o digam o MST ou algum partido de esquerda. É o jogo da ideologia e da necessidade e/ou promiscuidade. Em todo canto aparecem os grupos de rap que são pró ou contra algo. Normal.

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Dia desses estava lendo uma matéria sobre a febre do Hip Hop em Israel e lembrei que já tinha apontado esse fato. Decidi. Vou saber mais. E pensei – se tem em Israel é óbvio que tem na Palestina. E constatei coisas impressionantes como alguns soldados israelis que escutavam rap antes e durante as missões. Eles ouviam sons de grupos como Cypress Hill, Jay Z, DMX, Subliminal (rapper de Tel Aviv e sionista de carteirinha).

Automaticamente fui checar o lado palestino e lá a parada era a mesma, eles escutam sons como Public Enemy, NTM (França), Alliance Ethinic (França), entre outros (Principalmente rap francês) e locais como Arab Legion e uns MCs. Esqueci os nomes, vou ficar devendo… O que pra mim era óbvio agora é público – o H2 é o som dos dois lados. Do lado bom e do lado mal. Qual será o lado certo? Quem pode definir? É o transmissor das idéias de libertação e também das idéias de degeneração e/ ou ocupação. Navegando em meio a esses contrastes, apenas aumenta a minha certeza com relação a nossa pluralidade doida.

Querem mais? Vejam como os tentáculos do rap atendem a todos os gostos: são grupos de rap ligados: aos nazis, sionistas, anti-nazis, pró-crimes, anticrimes, católicos, pro-drogas, antidrogas, protestantes, muçulmanos, budistas, judaicos, hindus, espíritas, esquerda, direita, meio termo, anarquistas, indígenas, anti-religioso, policia, tráfico… Pelo mundo a pluralidade é enorme. E no Brasil não é diferente.

Em um artigo recente cujo tema era o ataque de 11 de setembro e suas conseqüências à autora, uma ativista do Hip Hop estadunidense bradava suas opiniões (entendo, respeito e discordo) e perguntava: “Nós do Hip Hop devemos lutar ao lado das forças americanas pela democracia e pela liberdade – Vocês estão preparados? Vocês estão preparados para entrar nessa guerra?” Ela é um ótimo exemplo de como a informação faz falta.

Ela deveria saber que muitos do Hip Hop estão preparados, mas isso não significa que estarão alinhados ao lado estadunidense. No Brasil existem outros tantos, e bota tantos nisso, com as mais diferentes posições…

Viram como a pluralidade é doida, ou isso é o que se chama democracia na prática? “A fé move montanhas… Mas os apressados preferem a dinamite.” Alfred E. Newman

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