Moradores de periferias morrem 15 vezes mais por eventos climáticos extremos, diz IPCC

0
24
Redação
Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Foto | Carl de Souza / AFP

Os impactos da mudança climática causada por seres humanos já provocaram perdas e danos para pessoas e ecossistemas, mas as consequências são ainda mais graves para a população urbana marginalizada, a exemplo de moradores de favelas e periferias, em sua maioria formada por pretos e pobres.

Na última década, em todo o mundo, habitantes dessas regiões morreram 15 vezes mais por secas, enchentes e tempestades do que aqueles que vivem em áreas seguras.

Esses e outros dados estão no segundo volume do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (ONU), publicado nesta segunda-feira (28).

No Brasil, a tragédia de Petrópolis, que já fez mais de 220 mortos, evidencia o aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos e como eles atingem com mais força as populações marginalizadas.

Segundo o documento da ONU, a mudança climática foi responsável por reduzir o crescimento econômico, ameaçando as seguranças alimentar e hídrica. Assim, atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para 2030 fica cada vez mais distante.

:: 2022 e clima: “Não precisamos esperar o futuro, o clima já está mudando”, diz pesquisador ::

Luta por justiça climática 

“Em cidades, o número de pessoas expostas a secas e enchentes muito provavelmente mais do que dobraria entre 2000 e 2030, com 350 milhões de pessoas a mais expostas à escassez hídrica devido a secas, com 1,5 ºC de aquecimento”, diz o relatório.

“A grande mensagem do Grupo 2 do IPCC nesse relatório é que a mudança climática é um brutal agravador de desigualdades e um perpetuador de pobreza”, afirma Stela Herschmann, especialista em Política Climática do Observatório do Clima.

“A justiça climática precisa entrar na ordem do dia, e esse relatório é a demonstração mais cabal já feita de que já estamos vivendo um contexto de injustiça climática, onde os impactos adversos de eventos climáticos extremos variam por diferenças na exposição e vulnerabilidade, com regiões como a África e a América Latina sendo desproporcionalmente afetadas”, complementa.

A dengue, velha conhecida dos brasileiros, pode atingir bilhões de pessoas ao redor do mundo no fim do século 21, por causa do aumento da área de incidência do Aedes aegypti. Outras doenças relacionadas ao clima — como desnutrição, problemas vasculares por estresse térmico e transtornos mentais — vêm crescendo, principalmente entre mulheres grávidas e crianças.

:: Congresso estuda projetos de prevenção a desastres climáticos após tragédia em Petrópolis ::

Efeitos catastróficos a curto prazo 

Mas não é preciso esperar tanto tempo. No curto prazo, até 2040, os efeitos da mudança climática causarão aumentos “substanciais” nos riscos à humanidade e aos ecossistemas — alguns deles já inevitáveis devido às emissões de gases de efeito estufa. Já nos próximos anos, novas espécies e ecossistemas estarão ameaçadas por condições climáticas às quais não conseguirão se adaptar.

Entre esses ecossistemas, o destaque é a floresta amazônica. Juntos, os impactos da mudança do clima e do desmatamento devem elevar em 2ºC a temperatura no bioma, produzindo “perdas severas e irreversíveis de serviços ecossistêmicos e biodiversidade”.

O IPCC também calculou os impactos da elevação do nível do mar no curto prazo sobre as populações costeiras. A elevação dos oceanos é um evento lento, que costumava ser projetada para o fim do século.

O IPCC, no entanto, já prevê consequências para um curto prazo. A estimativa é que uma subida adicional de 15 centímetros no nível médio global dos oceanos aumentaria em 20% o número de pessoas expostas a inundações costeiras extremas, eventos que antes eram esperados apenas uma vez por século.

Leia mais: Coluna | Crise da energia exige fortalecer luta por justiça climática e soberania energética

Previsões pessimistas 

Com o aumento da temperatura da terra, o relatório estimou que, em todos os cenários de emissões considerados, a temperatura global ultrapassará 1,5ºC nos próximos 20 anos, e em apenas um deles ela voltaria a ficar abaixo desse limite neste século.

Com isso, geleiras pequenas em cordilheiras como os Andes, os Alpes e o Himalaia desapareceriam quase completa ou completamente, colocando em risco o suprimento de água de populações que dependem delas. Recifes de coral em grande parte do mundo, florestas de sargaços, manguezais e marismas perderiam a capacidade de regeneração.

O IPCC reconhece a adoção de medidas de adaptação ao redor do mundo e que, sem elas, os impactos sentidos hoje seriam muito maiores. Mas essas adaptações vêm sendo adotadas em escala muito pequena, com baixo financiamento.

Países amenizaram teor do relatório

Na avaliação da ONG Observatório do Clima (OC), o sumário do segundo volume do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC foi finalizado num clima de animosidade entre governos e cientistas do Grupo de Trabalho que cuida de impactos e vulnerabilidades.

O documento destinado a governantes teve, segundo o OC, suas conclusões amenizadas em relação à primeira proposta, discutida em 14 de fevereiro entre os membros do painel e os representantes de 196 países.

Edição: Rodrigo Durão Coelho

Interaja conosco, deixe seu comentário, crítica ou opinião

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.