O Som É | ‘Artistas ou não?’, primeiro sucesso do Facção Central

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Antes de falar sobre a música escolhida dessa semana, é preciso sempre ressaltar a importância do espaço que dedicamos a alguns trabalhos historicamente importantes. Essas músicas não retratam apenas a realidade da época em que foram lançadas, elas também abordam relações pessoais que envolveram a produção, divulgação, composição, a recepção do púbico e também a sua função artística, social, cultural e política.

Capa do disco – Acervo BF

Escolhi a faixa do álbum ‘Juventude de Atitude’, o primeiro do grupo Facção Central, lançado em 1995. Disco muito difícil de ser encontrado nas lojas até na época do lançamento. Conheci o Facção na coletânea Movimento Rap Volume II, de 1993, onde o grupo participou com a música “Cor”. A canção já existia antes da coletânea e o Eduardo ainda não era do grupo, a formação era MC Nego (Mag), F7, Dum-Dum e DJ Garga. Pouco tempo depois,  escutei duas músicas do grupo na rádio, ai já com Eduardo, DJ Garga e Dum-Dum. Uma das músicas foi “Malandragem toma conta” e a outra “Artistas ou não?”, a escolhida para essa coluna.

As tracks já estavam tocando em alguns programas de Rap, mas o disco ainda não tinha sido lançado, assim que anunciaram na rádio que o disco ia pras lojas, corri pra garantir o meu, quase não consegui. Essa faixa é uma dura crítica a discriminação sofrida pelo Rap nos anos 90 e um retrato das dificuldades encontradas pelos artistas: as pilantragens dos aproveitadores, gravadoras, distribuidoras, produtores, contratantes, empresários, etc.

Contracapa do disco – Acervo BF

Na abertura Dum-Dum já detona – “se não bastasse a humilhação já sofrida todo dia / tinha que acontecer também na tal vida artística” – e continua – “tinha de ser fudida como é a nossa / otários sempre na frente, os melhores sempre na bosta / um mundo tão filha da puta quanto é o normal / uma panela constante, pilantragem capital”. Nesse espaço a nossa intenção não é analisar a qualidade da letra ou da produção e sim, repito, ressaltar a importância histórica da música. Era um momento de busca de espaço, afirmação, resistência, e a letra retrata tudo isso, inclusive em uma parte do Eduardo ele rima sobre a repressão policial, que era sim muito forte, prendendo, agredindo, interrompendo shows e não foi alguém que me contou, eu vi, fiquei, corri, joguei pedra (de verdade). No trecho da letra ele canta sobre isso o seguinte – “e no DP o bicho pega e pega legal / já fui em cana por nada eu só cantei a real / não teve compreensão, nem consideração / artista porra nenhuma muita porrada e o silêncio então / que consideração, que valorização / cantor de rap nacional tapa na cara que premiação”.

O disco foi todo produzido pelo saudoso Fábio Macari, que manteremos viva sua história enquanto estivermos por aqui, e foi gravado e mixado no estúdio Atelier pelo mais importante engenheiro de som da história do Rap nacional, Vander Carneiro. O sample usado na faixa foi nada mais nada menos que um som do Funkadelic, a faixa “You and your folks, me and my folks”. A música foi relançada em 2017, sem o Eduardo, num remix do DJ Panthera usando o sample da música “Black Frost” do Grover Washington Jr..

Isso mostra uma tática usada por muitos grupos dos anos 90 para tentar recuperar os direitos sobre suas músicas. Vários grupos foram enganados, poucos falam sobre isso, mas tem muitos discos que alguns grupos não tem direito nenhum sobre os fonogramas. Por isso que existem alguns grupos que não cantam mais em shows músicas que são clássicos, para não ter que pagar direitos da sua própria obra para outra pessoa. Isso aconteceu com discos, com singles, com nomes de grupos e até apelidos que não estavam registrados. Quem pesquisa sabe que vira e mexe encontramos a mesma música em versões diferentes, o mesmo disco lançado por uma, duas ou até três gravadoras diferentes. Lançando a track novamente, com outro instrumental, você cria uma nova música, um novo fonograma, corre atrás da burocracia e garante o direito autoral da obra na nova versão.

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Claro que na prática não é assim tão fácil e simples, mas é só uma forma de explicar a realidade da época. E tem mais, a maioria das gravadoras dessa época nem existem mais e os responsáveis também nem estão mais no Rap, aí fica mais difícil ainda de correr atrás de algum direito. Quem estiver curioso, revisite alguns clássicos dos anos 90 e repare quantas regravações foram feitas, onde você encontrar regravação pode acreditar que a possibilidade desse artista ter sido musicalmente enganado é grande.

“Artistas ou não?” tratou de temas muito pertinentes. Nunca no Rap alguém tinha questionado isso em uma música. Eles conseguiram falar dos oportunistas, da repressão, do estereótipo marginal e da desvalorização. Isso foi uma grande ousadia, coragem e o tempo mostrou o que se tornou o Facção Central, um grupo com uma legião de fãs espalhados por todo país. Muitos dos fãs são mais novos e talvez nem conheçam bem as primeiras músicas, até porque a ascensão, o grande sucesso do Facção atingiu o auge com o disco Versos Sangrentos, o terceiro deles.

Muitos dos problemas citados na música ainda existem, principalmente o que diz respeito aos oportunistas, questões sobre direito autoral ainda são um problema para muita gente no Rap por aqui.

P.S.: Usei como referência o vinil e as imagens usadas também são do vinil. Existe um CD, que traz duas faixas a mais, “Vida baixa” e “Pilantras” e a falta delas pode ser notada nas imagens.

Escute a música “Artistas ou não”

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