‘Falem apenas de música. Parem com esse negócio de política’

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Por DJ Cortecertu | Especial para o Bocada Forte

Alguns fãs de rap escutam as rimas dos artistas, compartilham pelas redes tudo o que falam que é o verdadeiro rap brasileiro, mas não gostam quando ativistas, jornalistas, blogueiros e membros de coletivos abordam questões políticas e sociais. “Falem apenas de música, dos clássicos do hip-hop, dos artistas da Golden Era. Só parem com esse negócio de política”, é o que deixam registrado nas entrelinhas de seus comentários nas redes sociais.

Outros dizem que rap de verdade é o de protesto feito nos anos 1990. Estes moleques do trap só querem saber de drogas, tretas e ostentação”, repetem.

Entretanto, uma parcela destes novos e velhos críticos é reacionária, demonstra preconceito, tem viés fundamentalista em suas afirmações e faz questão de minimizar a luta dos grupos sociais historicamente excluídos. Temos ainda os “nem de direita, nem de esquerda que só querem um Brasil melhor”, mas ficam incomodados com posts sobre  combate ao machismo e ao racismo, por exemplo.

Foto ilustrativa. Reprodução/Google

Há algo errado em criticar, combater a desigualdade e lutar pelos direitos humanos? 

É como se os raps do Eduardo Taddeo, Rap Plus Size, GOG, Oquadro, Rap Nova Era ou Xemalami, entre outros, fossem apenas simples canções para ninar jovens e adultos ou peças pop descompromissadas e com fortes doses de infantilidade.

Esta contradição – que para uma fração do rap não é contradição – faz parte da normalidade brasileira. Em 2005, minha coluna no Bocada Forte abordava esta questão:

Imaginem a cena: um jovem, durante a transmissão de um jogo do São Paulo na TV, xinga o jogador Grafite, o chama de macaco, de macaquito e acha que foi um exagero tudo que aconteceu no caso que todos nós conhecemos bem. Continuem me seguindo. Este jovem é pobre tem pele parda, é descendente de negros.

Não sabemos se ele se considera negro, branco ou mestiço, mas podemos notar uma coisa: ele está vestindo uma camiseta dos Racionais MCs que tem estampada a frase ‘Sobrevivendo no Inferno’. O garoto da cena é real e também freqüenta bailes blacks, shows de rap e de samba.

Como vemos, esta parada não é nenhuma novidade, não é apenas fruto do que chamam de polarização política atual nas redes sociais e do avanço da direita radical.

Sabemos o quanto a guerra cultural e a disputa da narrativa criadas nos últimos anos, recheadas de conceitos como marxismo cultural, globalismo e o combate ao que chamam de ideologia de gênero tiraram muita gente do armário e forneceram elementos para a afirmação de um número considerável de pessoas que querem bons beats e bons flows, desde que não sejam dominados pelas “ideias esquerdo-feministas e ações comunistas de artistas que querem uma ditadura socialista e gayzista.”

Quantos brancos racistas ou brancos indiferentes com as questões sociais e raciais se unem aos pretos que colocam em seus perfis no Twitter, Instagram e Facebook a identificação: Negro não vitimista?

Quantos destes afirmam que amam o rap e a cultura hip-hop, mas dizem que Emicida, Rashid, Juliana Sete e Negra Li são escravos do marxismo cultural?

Outras perguntas:

Ouvindo a reclamação dos “não vitimistas” e dos “Isentões MCs” que dizem que -desde os anos 1990- as rimas do rap de protesto divergem da ideologia de direita e de uma nova “prosperidade”, conseguiremos entender o real valor das letras de combate dos diferentes artistas brasileiros?

Conseguiremos entender o real valor das entrevistas e palestras dos produtores e ativistas do hip-hop que continuam levando aos jovens o conhecimento da história brasileira carregada de uma desigualdade que precisa ser combatida?

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