#Contextos: A profissão perigo de Rincon

Rincon

As primeiras grandes matérias e entrevistas com o rapper Rincon Sapiência que saíram no Bocada Forte foram publicadas em 2009. Antes disso, o rapper já tinha uma trajetória no freestyle e nos palcos alternativos da periferia. Com talento, Rincon chamou a atenção de produtores de dentro e de fora da cena rap, um deles foi Rick Bonadio. Escolhendo um caminho independente, Sapiência seguiu gravando com seus parceiros e desconstruiu a imagem de rapper “fashionista” espalhada aos quatro cantos pelos grandes veículos. Em “SP Gueto BR”, seu mais recente trabalho, o rapper definitivamente provou que seu campo temático é amplo.

Rincon Sapiência é um dos novos nomes do rap brasileiro que entrelaçam timbres e influências atuais para continuar a correria iniciada no final dos anos 1980. Em tempos que nos apresentam MCs do autoelogio, Sapiência refez uma conexão com o hip-hop no videoclipe “Profissão perigo”, trabalho que registra as contribuições de Sharylaine, Dexter, Kamau, Stefanie, Xis e o skatista Marcelo Formiga. Abaixo, na série Contextos, Rincon fala a respeito das lições que aprendeu com seus antecessores.

Profissão perigo
Por: Rincon Sapiência

“Foi uma série de fatos que me levaram a pensar em fazer um clipe na favela, homenageando personagens de grande importância no rap. Converso muito com meus parceiros sobre o atual momento da cena e temos total noção que muitos valores se perderam, mas um ponto que reconheço, é que, em se tratando das gerações mais novas, os artistas de periferia, que fazem parte da escola mais ‘tradicional’ do rap, estão um pouco ausentes.

Consequentemente, rappers mais novos, de uma escola mais desprendida, que viveram e vivem sua juventude num momento econômico melhor, esses sim são mais atuantes, lançam seus clipes, gravam suas músicas e estão na ponta da lança.

Então mesmo com limitados recursos audiovisuais, fiz a minha versão da profissão MC, talvez pro figura mais jovem e de uma classe social mais privilegiada, ser MC seja algo como estúdios, festas, garotas, drinks, maconha, mas pra alguém de origem pobre, pagando contas, com responsabilidades artísticas e pessoais, ser MC de rap é algo complexo.

O plano do clipe foi transmitir que tudo que acontece agora foi estruturado por pessoas que passaram dificuldades para o rap ser algo consistente hoje. Eu toco na noite, volto pra casa e sigo minha vida normal, os integrantes do 509-E, por exemplo, faziam seus shows, cativavam multidões e depois voltavam pra suas celas, não havia expectativas profissionais com o rap no passado, então muitos conciliavam o rap com o crime, morriam, abandonavam seus sonhos em algum momento, mesmo assim gravaram, tramparam e deixaram obras maravilhosas pra nós darmos continuidade.

Mulheres no rap hoje em dia vivem um momento ótimo, talvez o melhor em toda história do rap, mas vale a pena lembrar que, no passado, uma MC chamada Sharylaine foi a primeira mulher a gravar rap no Brasil, abrindo os caminhos para as mulheres que fazem rap hoje e são menos discriminadas que antes. Diria que o vídeo da música “Profissão Perigo” tem uma contribuição importante com a contação de histórias dentro da cena, estamos em 2014, caminhando para a terceira década de Hip-Hop, é um tempo considerável. Se não nos comprometermos em contar nossas histórias, elas naturalmente se dispersarão. Isso pode ser ruim para o futuro da cultura.”

Fotos: Facebook do artista

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