‘Quem é, é. Quem não é, cabelo avoa’

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Porto Alegre, janeiro de 1993.

O Rap estava se tornando a voz transformadora das periferias espalhadas por todo o Brasil e isso se refletia em outra camada da sociedade, a classe média. Essa galera já manjava mais de inglês, sendo assim, muito amigo meu só descobriu o que o Public Enemy estava dizendo porque algum amigo traduziu, mas faltava ouvir a nossa própria voz e foi nesse momento que apareceu, pra gente aqui embaixo, Naldinho, Thaide, Racionais, GOG…

Gabriel, O Pensador. Foto: Reprodução/Google

Não eram todas as rádios que tocavam Rap gringo. Nacional então muito menos. Fora isso, o Rap nacional ser considerado agressivo, as produções eram mais simples, a grana era curta e poucas gravadoras investiam. Foi nesse período que apareceu um cara no Rio de Janeiro com uma rima mais leve, batidas dançantes e “refrões chiclete”: Gabriel, o Pensador. Vamos vou fazer um pequeno adendo aqui, preciso contar uma coisa pra vocês…

Quando o Gabriel, o Pensador, surgiu, foi uma loucura em Porto Alegre. Não vou nem entrar no mérito da capital ter seu “Q” de racista, porque não é legal ficar falando mal da cidade que já matou tanto preto sem querer… Enfim, Gabriel estourado na rádio mais pop do sul e uma turnê acertada para o Rio Grande do Sul. Primeiro show, uma das casas mais underground da cidade, o famoso Porto de Elis. Um templo do rock. Ali tocaram DeFalla, Replicantes, Sangue Sujo e todas as bandas que surgiam a cada semana.

Essa casa ficava no bairro Petrópolis, frequentado por toda a classe média pequena burguesa da cidade. Um lugar de sexo, drogas e rock’n’roll… Mas naquela noite iria receber, pela primeira vez, um artista nacional que cantava Rap. Lá se foi a Osvaldo Aranha em peso. Lembro que era dia de semana, coisa rara pra galera que trabalhava, mas o pessoal se puxou e lotou o lugar.

O Rap sempre foi sinônimo de periferia, e claro, estávamos presentes em peso. Quem tinha grana comprou o ingresso e entrou, alguns ficaram pela frente pra fazer o rateio com outros amigos. Uns pediam dinheiro emprestado, outros sabe lá o que fizeram pra conseguir o ingresso. Quando chegou a van com os artistas teve uma revoada de amigos entrando e cantando felizes da vida. Pra muitos era a primeira vez que conheciam alguém que fazia Rap em português com letras simples e pegajosas.

Porto Alegre, 1993. Da esquerda para a direita: o produtor Roberto, Tito, Padeiro, Gabriel o Pensador, Noise D (BF) e DJ Frias. Foto: acervo pessoal do Padeiro

Entrou o Gabriel e o Tito, que fazia a voz de apoio. Foram cercados por dúzias de fãs. A frente do bar quase vazia, ficou eu e um gordinho inquieto, que falava muito e usava uma camiseta branca e um colar de couro no pescoço. Neste momento desceu da van o DJ Frias e o Roberto, que era o produtor. Eles carregavam o equipamento de palco. Quando vi os caras carregando aquelas caixas pretas com o logo, me ofereci pra ajudar. O gordinho viu e se ofereceu pra ajudar também, assim nós entramos no show.

O show foi foda, a gente cantou, pulou, dançou, se divertiu. Quando terminou o show, vi que o gordinho conhecia uma galera da Osvaldo, ele se chamava Diego, mas no futuro todos nós teríamos um nome no mundo do Rap. Ele seria o Noise D e eu o Padeiro, mas isso é uma outra história, outro dia eu conto.

O Noise foi pra plateia, mas eu resolvi ficar ali atrás no backstage. Quando acabou o show, ajudei o DJ a guardar suas coisas. Frias era um guri legal, conversei bastante com ele, depois que guardei tudo na van, pensei que ali terminaria uma noite de sorte, mas não, antes da van partir o produtor Roberto me chamou e perguntou se eu não queria trabalhar com eles na turnê. Na época tudo era em dólar e, pra minha surpresa, ganharia 60 dólares por show pra fazer o que eu faria de graça! Foi a primeira vez que eu senti na pele o que era estar no meio de uma realidade tão absurda, os bastidores do mainstream. Trabalhei quarenta e cinco dias e foi muito massa, quase ninguém conversava com o Gabriel, apesar de ser um cara de boas e concentrado. Eu só queria estar naquele ambiente. A turnê terminou com um grande show no bar Opinião. Uma coisa me chamava atenção: a galera que era mais roots não curtia e aí eu comecei a questionar o porquê.

Gabriel, o Pensador, apareceu na cena carioca com Hoje eu to feliz, matei o presidente, uma música que fazia alusão ao então presidente Fernando Collor de Mello. Primeiro presidente a sofrer impeachment na história recente do Brasil, pós-ditadura. Logo, o rapper estava no Domingão do Faustão entrando na casa de todo mundo. Ele tinha algo a dizer. Falou sobre preconceito na música Lavagem Cerebral. Foi machista pra caralho em Lôrabúrra (mas na época todo mundo achou demais, até as minas.). Na música 175 Nada especial, ele fez um retrato do Brasil que poderia ser tocado hoje e seria atual.

O primeiro disco era muito bom. Bem produzido. Além de ser bom, aquelas músicas entraram no inconsciente coletivo. Ele apareceu em todos os programas de TV daquele ano. Muitos rappers conheceram Rap nacional por causa dessas músicas. Mesmo assim, o Gabriel nunca foi aceito no meio da cena.

Tudo tem um porquê, né? O fato dele não ser aceito tem a ver com a sua origem. Ele era branco, surfava, morava no Leblon e era filho da marqueteira que elegeu Fernando Collor de Mello. Seu primeiro contrato foi direto com a Sony Music, a maior gravadora do país. Mano, quando essa informação rodou foi como colocar água no chope. A coisa pesou tanto na carreira do rapper que ele foi se apagando como uma vela num canto da sala. Mas só para o movimento, porque seguiu sendo um artista totalmente descaracterizado. Hoje ele escreve livros e é empresário, mas sem a essência do Rap, já era.

Hoje falamos muito sobre apropriação cultural, lugar de fala… Estes são sintomas necessários da nossa atual situação como sociedade. Gabriel, o Pensador, pensou que sabia como se sente alguém que vive na rua, achou que sua maneira de ver os pobres fosse verdadeira, mas na real eram só letras bem escritas e uma divulgação em massa. Faltou conhecimento de causa pra tornar aquilo verdade, mas sobrou dinheiro para a produção. Por isso seu primeiro disco ganhou notoriedade, está entre os grandes discos de Rap nacional da época, mas a leveza do disco revelou a grande estratégia de marketing para que se tornasse algo que ele não é.

Assim como Fernando Collor, Gabriel, o Pensador, era um embuste. A indústria fonográfica queria alguém que pudesse manipular a gurizada da periferia, só que a Sony esqueceu que na periferia a lei é diferente e não seria colocando um rato no ninho de cobras que eles se dariam bem.

Não é assim que funciona. Como diz o RZO: “Quem é, é. Quem não é, cabelo avoa.”

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