Opinião: Depende da Lupa | Por Slow da BF

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*Partes do texto retiradas de vários blogs e de uma imensa pesquisa.

Na cidade do Rio, na década de 80, Def Yuri, Suave, Fat Boy, Paulão, Lord Sá (falecido), Tito e muitos outros menos conhecidos, podiam ser vistos na Praça Saens Penã na Tijuca (Zona Norte) e no Largo da Carioca (Centro), reunidos em rodas e grupos aos montes. Na mesma época na Baixada Fluminense (Mesquita, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo e outros municípios) um montão de outros jovens como: Mad (Vozes do Gueto), Luck (GBCR), Gilmar Artigo 288 (falecido), Genaro, Nino Rap (falecido), MC/DJ Alex Jack (Fator Baixada), Mocassim de Caxias e outros faziam o mesmo.

DJ Marlboro.

Em meados dos anos 80, o DJ Marlboro apareceu em São Paulo para vários bailes e levou consigo algumas fitas cassetes com demos de grupos de rap cariocas. Naquela época o estilo Miami Bass e Electro Funk eram largamente utilizados pelos rappers do Rio nas construções de suas bases. Um dos rappers cariocas dessa época era “Afrika Batata” que cantava uma música autobiográfica, com letra cômica, sobre seu nascimento até a estréia como rapper.

O rapper Tito (Tito Gomes) que fez dupla com Gabriel o Pensador durante anos, fazia parte dessa banda lendária. Também haviam muitos grupos que faziam uma fusão de Rap com Funk como: Funk Firmeza, Ponto 50, Movimento e outros. Marlboro nessa época produziu um beat com o instrumental da música “O quê?”dos Titãs. A letra dessa música falava de preconceito contra as pessoas que curtiam funk na época. O vocal ficava a cargo do rapper Move (Marcelus) outro membro do Afrika Batata.

Exemplos como os citados aqui ocorreram no país inteiro e ao mesmo tempo, portanto, é quase impossível identificarmos onde realmente o rap brasileiro eclodiu pela primeira vez. E com a arte de mixar discos também fica difícil estabelecer um marco zero pois esta “profissão” começou há muito tempo atrás e os pioneiros devem ser sempre lembrados.Já nos anos 50, haviam DJs desbravando o árduo caminho e preparando terreno para os que viriam nos anos 70, 80 e 90, rumo à consagração da atividade.

As famosas “orquestras invisíveis” tinham por trás a mão anônima de um DJ, que trabalhava apenas com uma vitrola e tinha que interromper a música para fazer a troca dos discos. O público, muito respeitosamente aguardava em silencio a troca dos discos para depois, voltar a dançar. Uma das orquestras invisíveis mais famosa era a “Hi-Fi-Let’s Dance” de Oswaldo Pereira, que fazia tudo sozinho com sua vitrolinha holandesa e um amplificador de 100 watts que ele mesmo montou.

Monsieur Limá.

Era bastante potência para a época e o público nunca conseguiu entender como tanto som podia existir sem uma orquestra de verdade presente. Oswaldo ficou em atividade de 59 até 68, quando começou a febre do samba-rock. Outro grande nome nos anos 70, era do carioca Monsieur Limá (Messiê Limá). Limá foi um dos primeiros a ir para a TV. Ele apareceu em vários programas da extinta Tupi até ganhar seu próprio programa. Esse maranhense baixinho e de roupas espalhafatosas, sapatos plataforma e muita atitude ganhou fama com suas coletâneas de disco music.

Apesar de não ser um expert em mixagens ou viradas, Limá marcou pela ousadia e pela postura, faleceu em 1993 com 50 anos. Outro grande carioca, radicado em SP foi o Alcir Black Power. Muito do que sabem hoje sobre funk, R&B e Soul foi ouvindo essa fera tocando suas fitas de rolo nos bons e velhos tape-decks Akai. Alcir só tocava música de qualidade e muita coisa que ele tinha ninguém mais tinha. Naquela época (início dos anos 80), as equipes de som tinham espiões que iam nos bailes das outras equipes checar o que eles estavam tocando. Quando Alcir rolava uma daquelas raridades que só ele sabia garimpar os olheiros ficavam loucos e não conseguiam descobrir que som era aquele. Alcir guardava tudo a sete chaves.

Braguinha é outro grande nome das pick-ups que já passou para o outro lado. Foi, entre outras coisas, DJ dos programas de rádio de Mister Sam. Esse grande artesão da música, lançava clássicos no Brasil como Ya Mamma do Wuf Ticket ou Non stoppin that rockin do Instant Funk. Tudo que Braguinha tocava sexta, às 23h no programa de Mister Sam era ouvido no sábado e domingo seguintes nos sound systems das equipes de som do início dos anos 80. Mister Sam trouxe do exterior, nos anos 80, raridades e artistas undergrounds como Sasha (nada a ver com Xuxa) e produzindo artistas brasileiros como: Baby Face (Nahim), Gretchen, Bebeto, Black Juniors e dezenas de outros.

Sônia Abreu.

Sam atuou como DJ em casas como Dancing, Soul Train, Be Bop, Latitude 3001, Station. Todas em SP. Sônia Abreu foi uma das primeiras mulheres a assumir as pick ups, já nos longínquos anos 70. Sônia, além de ser um exemplo de garra e persistência, foi também uma desbravadora, abrindo caminho para as mulheres no machista mundo dos DJs. Ela trabalhou na extinta rádio Excelsior AM, ainda nos anos 60, quando resolveu radicalizar e só tocar o que achava bom. Isso custou-lhe o emprego na rádio mas abriu outras possibilidades. Sônia foi para a boate Miragem, na rua Augusta, em São Paulo. Lá também teve que aguentar o preconceito do público e de alguns DJs da casa. Em 1977, vai para a aclamada Papagaio Disco Club e fica por lá por 2 anos. Nos anos 80, inovou ao fazer festas ao ar livre em um coreto na Augusta e logo em seguida montou um Sound System em uma Kombi e depois em um barco.

Na segunda metade dos anos 70, um novo tipo de música surgia, a Disco Music, que elegeu as Discotecas como seu reduto. Os caras que tocavam os discos para o pessoal desse bailes, nessa época, eram chamados de Discotecários.No começo dos anos 80, surgiram várias equipes de bailes, as chamadas Equipes de Som, cada uma capitaneada por um DJ que não fazia grandes mixagens com os discos porque na época vinil não chegava em todas cidades.Algumas importações eram proibidas e os bailes eram feitos com fitas de rolo piratas. Muitas delas, chegavam sem os nomes das bandas e das músicas, o que tornava impossível sua identificação, os DJs dessa época apenas rolavam o som. Eram poucos os que dominavam a mixagem, as famosas viradas. As remixagens ou montagens como eram chamadas na época, eram feitas com Gillette e fita adesiva. As fitas eram gravadas, cortadas e coladas artesanalmente e era um trabalho árduo e muito, muito difícil de se fazer.

Os primeiros DJs eram verdadeiros artesões da música. O Funk da época era chamado de balanço, termo cunhado pelas gravadoras que tentavam popularizar o ritmo que era taxado de música de negro pobre.No fim da década de 70 surgiu uma avalanche de grupos e bandas, a maioria com um DJ. As letras eram mais simples e não havia ainda a crítica social na maioria das letras, como em 83 com o grupo Grandmaster Flash e The Furious 5, “The Message”.

Dois outros artistas gravaram músicas com as rimas tradicionais do rap mais conhecido de hoje. O primeiro foi Pigmeat Markham em 1967. Isso mesmo Pigmeat gravou a música Here comes the judge em 1967 e para mim em particular é um Rap com R maiúsculo. A segunda a gravar um rap antes do Sugarhill Gang foi a banda Fatback e a música chamava-se Personality Joke. Muito se diz sobre qual foi o primeiro rap feito no Brasil. Gerson King Combo, já em 1977, fazia um soul com falas que lembrava muito o rap, mas não podemos considerá-lo um rap na essência do termo. O showman falecido Miele gravou em 1979, uma versão de “Rappers Delight” do Sugarhilll Gang chamada “Melo do Tagarela”.A rádio Cidade FM de São Paulo lançou um rap em comemoração a sua entrada no ar, em 1980.

Posteriormente, regravaram o mesmo rap com outra letra, em SP e RJ, em 1981. Essa nova versão foi lançada em um compacto chamado: Tema de Natal da Cidade que era um belíssimo rap, com a voz de seus locutores (naquele tempo locutor de rádio tinha que ter boa voz). O produtor, compositor, radialista, empresário e apresentador de TV Mister Sam produziu, em 1980, um disco de um cantor chamado Baby Face (primeiro pseudônimo do cantor Nahim) com um rap chamado Don`t push, dance, dance, dance. O grupo de Break e Rap Electric Boogies gravou Break Mandrake em 1983.

Um dos grupos surgidos no início dos anos 80, que trilhou um outro caminho foi o Eletro Rock. Formado por jovens de classe média de São Paulo e Santo André, no ABC paulista, falavam em suas músicas de festas, garotas e esportes radicais. Um exemplo é a música Surf, de1985. Um dos integrantes do Eletro Rock era o rapper Catito, que posteriormente fez parte de coletâneas de equipes como Kaskatas e Chic Show, cantando sozinho.

Recentemente, foi lançado na Inglaterra, um LP duplo chamado Black Rio, que tenta mapear o fenômeno black no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro, nos anos 70. A música “Melo do Tagarela” está nesse disco, em sua versão instrumental mas Miele não era um rapper e sim um compositor e apresentador de TV. Dois membros do Electric Boogies moraram nos Estados Unidos no início dos anos 80 e tiveram contato direto com a fonte e a cultura hip hop que moldava-se na época, em Nova York. Em 1982, um núcleo de criação de rap foi formado em Santo André. Alguns amigos, que se conheceram em bailes e rodas de break encontraram-se informalmente na casa de um deles para trocar informações e músicas Naquela época, não havia mp3, não havia cds, não havia internet, nem revistas especializadas. As informações passavam de boca a boca. Esse grupo era formado por Rogério “Vermelho” Riese (dono da casa), Marcio “MC L” Eufrosino, Marcelo “MC Mike” Rodrigues e Antonio “MC Brown” Cabrera.

No início os raps eram criados apenas por brincadeira, fazendo piada de alguma situação. Todos contribuíam com suas letras e as músicas eram gravadas em um gravador caseiro Sanyo com microfone embutido. Vermelho era o DJ oficial. Posteriormente o sistema de gravação melhorou e passaram a usar tape decks, pick ups e microfones melhores.

O primeiro rap deles foi escrito por Marcelo e chamava-se “Black Papa”. Em seguida, vieram outros raps em inglês que utilizavam a música “The Breaks” do Kurtis Blow como base instrumental e também “The invasion” do T Ski Valley”. Em 1983, Marcelo e Cabrera gravaram sobre a base de “The breaks” um rap em comemoração ao aniversário da danceteria “Clube Xadrez”, localizada no Vila Assunção, em Santo André. O DJ da casa era o lendário “DJ Zapp” que topou tocar a música na festa de aniversário da danceteria. Muita gente que dançava parou para ouvir um rap em português.

Em 1985, o “Xadrez” fechou suas portas e a galera mudou de endereço. Começaram a frequentar o “CEV – Clube esportivo da Vila Vitória”, também em Santo André. Alí, Marcelo, já utilizando o vulgo de MC Mike, conseguiu convencer os DJs da casa a gravar com ele o tema da equipe Tamantaurus. A base instrumental utilizada era If I ruled the world  de Kurtis Blow.

MC Pepeu.

Em São Paulo, MC Pepeu aparecia com sua versão da música Big Butt de Bob Jimmy que ganhou o título de “Pipoca”. Mike e Pepeu se juntaram e gravaram uma fita demo, com o auxílio do lendário “DJ Gege” da extinta Sunshine. O nome do som era Bastião e utilizava como base a música Fly guys do grupo Magic Trick. O DJ Gege da Sunshine juntou-se ao rapper Toninho Ray e gravou a música I wanna happy birthday Sunshine em homenagem ao aniversário da danceteria Sunshine com a base instrumental da música Tie me up do Mtume.

Mike, em seguida, gravou o tema de abertura do programa Super Special em 85 que era apresentado por Serginho Caffé. No mesmo ano, participou de uma coletânea, com uma nova versão de “Bastião” com o novo título Sebastian boys rap . A produção foi do DJ Grego. Por outro lado, em 1986, Cabrera compôs “Falando Macio” e participou ao lado e Marcio “MC L” do concurso de rap da danceteria “Club House”, antiga “Kaskatas”. Era uma das primeiras letras engajadas do rap nacional. Não ganhou o concurso que foi vencido por “Fresh Puma” e seu fenomenal Human Beat Box. Cabrera formou o grupo Heroína Verbal ao lado de Puma e seu irmão.

Eliel “Mr Théo” Sobral, começou a cantar uma música de Cabrera chamada “Roleta Russa” com letra agressiva e politizada que fazia grande sucesso em seus shows. Theo já era conhecido nacionalmente pela música Cerveja uma versão de Go see the doctor de Kool Moe Dee. Posteriormente lançou uma versão rap do samba-rock 16 toneladas, ao lado do rapper Billy. Em seguida lançou a música Vida ao lado do MC Clau. Mike apareceu com mais uma demo com a música “O Trem” que participou de uma coletânea, já no estilo Miami Bass.

Teve também o quarteto infanto-juvenil de Break criado pelo produtor Mister Sam e integrado por : Laércio (voz), Adilson (voz), Francisco (voz) e Roberto (voz). Banda fenômeno da música negra no Brasil nos anos 80, que tocava rap romântico e groovers, com requintes de street dance. Lançados pela gravadora RGE, Black Juniors tornou-se sucesso nacional e o disco atingiu a vendagem de mais de 1.500.000.000 cópias, ganhando então disco de ouro.

Nelson Triunfo.

Nelsão Black Soul ou Nelsão Triunfo dançando break, conhecido também como “homem árvore” e o Funk Cia (que inclusive fizeram à abertura da novela Partido Alto na Rede Globo) sem esquecer que o Funk Cia já vinham desde a época do Black Power dançando Funk no bailes de São Paulo.

Thaíde e o Humberto, ou melhor, o DJ Hum, MC Jack que também é DJ, Pepeu, Racionais Mc’s, General G (considerado um dos melhores vocais), MC Mattar ou Marcelo Cirino, Mister Theo, Ndee Naldinho, Geração Rap, Sampa Crew, Dynamic Duo, Sharylaine, Os Irmãos Metralhas e os Irmãos Cara de Pau também apareciam no cenário.

Os breakers eram muito ligados no Rap… Existia um concurso de Break, o inesquecível programa de auditório, Barros de Alencar, que apresentou grandes Poppers como Os Cobras e as Buffalo Girls para a TV e uma grande final : Os Dragon’s Breakers versus Gang de Rua. Foi sensacional. O Gang de Rua, foi fundada por Marcelo Cirino, contava com mais três integrantes: Tijolo, Jorge Paixão e Daniel Paixão (o rapper da Gravadora Trama Criminal D). Depois da febre de 85, surgiram nomes como: Back Spin, Jabaquaras Breakers, Red Crazy Crew, Street Warrior’s e Nação Zulu, que mantiveram viva a arte do B.Boy. Toda essa galera dançavam na Rua, mas foram perseguidos por lojistas e policiais; depois foram para a São Bento e lá se fixaram.

A crew de break Back Spin, com DJ Hum (agachado).

Houve um período de divisão entre os breakers e os rappers, os primeiros continuaram na São Bento, os outros foram para a Praça Roosevelt e região. Mas em 1988 foi lançada a 1.ª coletânea de rap nacional chamada “Cultura De Rua”, de onde saíram Código 13, MC Jack (Jack foi o 1.º DJ a representar o Brasil no DMC) e o grupo O Credo do atuante MC Who que foi o cara mais importante nas negociações para esse vinil… Talvez o Who ou Ruberval seja o nome do Hip Hop Brasileiro mais fundamental na propagação da Cultura no Brasil nos anos 80. Em breve um post sobre esse cara que viabilizou e acreditou no primeiro disco de Rap produzido do zero do Brasil com cara e som de Rap.

Logo em seguida saiu o álbum Consciência Black de onde saiu o grupo o grupo Racionais MCs da junção de dois grupos. Em 1982 no clube Recreativo Caxiense em Caxias RJ tinha uma roda de Break, onde um cara que conheci chamado Mocassim, agitava o baile conforme lembra o cineasta Cacau Amaral… Em 1983 em Belém um índio tatuador que conheci também dançava break (ensinado por Jamaicanos) com um B Boy que tinha paralisia e dancava agarrado nas costas dos outros B Boys, seu nome B Boy Mochila.

Onde tudo começou? Depende da Lupa…

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