O ‘Mr. Boogie’, Marcelinho Back Spin

PIONEIRO NA CULTURA HIP HOP DE SÃO PAULO, O DANÇARINO E COREÓGRAFO MARCELINHO BACK SPIN LANÇA O ÁLBUM ‘MR. GROOVE’ E TEM HISTÓRIAS PRA CONTAR

Thaide e Marcelinho Back Spin. Foto: acervo do artista.

A história de MARCELINHO BACK SPIN começou nos anos 70, quando ele teve contato, pela primeira vez, com a música funk. O ‘original funk’, como hoje nos referimos, em função da proliferação, pela mídia do chamado ‘funk carioca’. Foi nos bailes da região do Taboão da Serra, em São Paulo, que ele sentiu a vibe do funk pela primeira vez. No entanto, somente em 1979, quando escutou James Brown, é que Marcelinho despertou para a dança. “Aquilo me pegou de cheio. Senti uma sensação incrível, que tomou conta do meu corpo“, explica.

Durante os anos 80, Marcelinho começa a frequentar os bailes black de Sampa, comandados pelas lendárias equipes de som (Sound System). Lá só tocava soul, funk, samba rock, r&b (melodia ou charme, como é conhecido em outros lugares). E foi aí que teve contato com um videoclipe do grupo Chic, que mostrava um moleque dançando Poppin. “Na época não sabia o que era, mas aquela forma de dançar me impressionou“, conta.

A partir daí veio o boom da dança de rua, através dos filmes no cinema, videoclipes, comerciais de TV. O “break dance” virou sensação. E em 1985 o movimento se iniciava no berço do hip hop paulistano, a estação de metrô São Bento, no centro da capital paulista. “Na São Bento pulsava o electro funk, hip hop, miami bass, músicas que só se ouvia nos boom boxes, que ficam em torno das rodas de dança. Era fantástico!” Revela Marcelinho. O resto é história…

Já nos anos 90, Marcelinho Backspin produziu uma mixtape de break beat para o seu grupo de dança, a Back Spin Crew. A produção foi de DJ Hum. Desde aquela época, Marcelinho alimenta o desejo de lançar um disco. Continuou pesquisando e estudando ritmos até que, surgiu a ideia de trabalhar o álbum “MR. BOOGIE“.

Na sequência, você confere um bate-papo do BF com a lenda da dança urbana paulista.

Da direita para esquerda: Thaide, Marcos Telesforo, Helio, Fernando, Marcelinho Back Spin e DJ Hum. São Bento, 1988. Foto: acervo do artista.

Bocada Forte (BF): Fale-nos dos tempos da estação de metrô São Bento, em São Paulo, quando ainda nem se sabia o que era a cultura hip hop. Que mistura de sentimentos tinham vocês, jovens da época, ao se encontrarem por lá para celebrarem a dança e a música.

Marcelinho Back Spin: O street dance chegou ao Brasil e no mundo, como um fenômeno, que foi rotulado como break dance; em l985 esse fenômeno desapareceu dos noticiários, os espaços foram cortados, tudo isso foi tratado apenas como uma moda, mas para mim e outros dançarinos na época era muito mais do que uma coisa descartável e foi quando conheci o João Break e o Luizinho, e assim iniciamos os encontros, no metro São Bento onde rolava muito rachas entre as gangs como denominávamos as turmas de b-boys e poppers naquela época. Ninguém conhecia a cultura hip hop, estudamos e desenvolvemos, articulamos e criamos um espaço para dançar e se divertir, porque neste período o hip hop não era negócio. Estávamos fazendo história, mas não nos preocupávamos com isso. A ideia, era dançar, grafitar, fazer letra de rap, bater na lata do lixo da São Bento. Era muito bom. Todos se conheciam e, apesar de algumas diferenças, conseguíamos nos relacionar e fortalecer a cultura hip hop em São Paulo.

Nelson Triunfo e Marcelinho Back Spin. Foto: acervo do artista.

BF: Sobre o hip hop em geral. Que diferenças fundamentais você vê e sente entre a cultura hip hop das antigas e a atual? O que você encara como positivo e negativo na cultura depois de todos esses anos?

Marcelinho: Antes era mais por amor, todos se conheciam. A São Bento era o único lugar que íamos para celebrar a cultura e aprender uns com os outros. Hoje em dia esta tudo globalizado. O hip hop ganhou muitos adeptos, se desenvolveu, ocupou espaços. A dança há muito tempo já esta mais esclarecida. Não é mais break dance, tanto o b-boying, Popping e Locking são danças que estão enraizadas nas periferias de todo o Brasil. Temos campeonatos, oficinas, cursos, espetáculos, que circulam por todo o país e muitos jovens tem oportunidade de viajar, fazer intercâmbio com outros países. Então, se olharmos para o panorama atual da cultura hip hop, podemos afirmar que as pessoas que moram nas periferias conseguem, através de suas próprias produções, serem protagonistas de seus projetos e isso é uma grande vitória, pois nos anos 80 os jovens não tinham tanta oportunidade de se expressar como nestes últimos anos.

Acho apenas que é uma pena que, mesmo com todo este desenvolvimento, existe uma falta de interesse em conhecer como chegamos neste nível. Qual é a real da história. Tudo tem um começo e acho que isso não é muito valorizado pela maioria. você percebe isto, quando produzem eventos. O melhor sempre é envolver quem esta na moda, mas temos que lembrar sempre que temos uma raiz, que não começa somente com a explosão do street dance, música rap. Principalmente em São Paulo, tudo vem dos bailes blacks. Se não tivéssemos os bailes não teríamos uma raiz forte e que nos deu condições de evoluirmos.

Foto: acervo do artista.

BF: Sobre a cultura Breaking/B-Boying. Que mensagem você deixaria aos jovens de hoje, que estão começando a desenvolver sua dança e sua relação com a cultura hip hop?

Marcelinho: A dança B-Boying é a raiz da cultura hip hop. Foi através das festas que DJ Kool Herc promovia no Bronx, em Nova York, que tudo começou. Os dançarinos se enfrentavam nas block parties e isso ganhou o mundo. Hoje em dia temos representantes brasileiros nos principais campeonatos espalhados pelo mundo. O racha, como era chamada nas antigas, é a essência do B-Boying, mas não se pode apenas achar que isso seja o principal. Senão você fica condicionado a apenas ganhar campeonatos e o b-boy tem que vivenciar a cultura hip hop como um todo. Nas antigas fazíamos tudo: graffiti, rap, DJ. Esse era o barato. Nos interessávamos pelas origens, quem eram os personagens e como eles fizeram de uma cultura de rua a resistência de vários povos periféricos espalhados pelo mundo.

BF: DJ Hum é o responsável pela produção do álbum “Mr. Boogie”. Como é trabalhar com um dos monstros do rap e do original funk brasileiros?

Marcelinho: DJ Hum é um mestre na arte dos toca-discos e da produção em black music. Conheci ele em l986, na Archote. Era um baile que ele tocava na zona sul [de São Paulo]. Desde que nos conhecemos sempre conversávamos muito sobre música, dança; e trocávamos informações que tínhamos na época sobre hip hop. Ele é muito talentoso, honesto com seu trabalho. Um profissional exemplar. Não é difícil trabalhar com alguém assim e, na verdade, materializamos uma ideia antiga, que era fazer um disco juntos.

BF: Você vai realizar uma turnê para a divulgação do disco “Mr. Boogie”? Como está o processo de promoção do álbum?

DJ Hum e Marcelinho Back Spin. Foto: acervo do artista.

Marcelinho: Já estamos a mil com isso. Dançarinos, DJ, músicos. Tudo faz parte da nossa proposta. Tenho várias ideias que estão em processo de criação, para dar vazão, ao trabalho que fizemos, pois é um disco de original funk, com toda pegada dos anos 80, e por isso quero trazer as raízes em destaque e relacionar com o que é contemporâneo.

BF: E a partir de agora, depois de todos estes anos envolvidos com a cultura hip hop, lançando até um álbum musical… O que ainda sonha o Marcelinho Backspin daqui para diante?

Marcelinho: Quero fortalecer esse trampo, continuar dançando até quando Deus permitir. Mas, como profissional, me sinto bem feliz com tudo que conquistei e aprendi. Me tornei arte educador, pedagogo, coreógrafo. Fiz muitos amigos por onde passei. Continuo nos eventos, nas ruas, na São Bento, que há um ano e oitos meses voltamos a nos encontrar para celebrar os bons tempos. Hoje, com autorização do metrô, participei da articulação do retorno do berço do hip hop, em são Paulo, e me sinto feliz por isso. Na verdade, somente tenho agradecer a Deus, minha família e amigos. A cultura hip hop é um movimento da paz. É uma forma de aprendermos uns com os outros. Acho que com todos os problemas de relacionamento, que é normal em qualquer segmento, não devemos dar importância para as coisas negativas. Devemos procurar se ajudar e principalmente propagar o amor, pois somos seres espirituais encarnados neste planeta para que juntos consigamos alcançar a paz.

O disco “Mr. Boogie” está disponível nas plataformas Deezer, Spotify.

Ouça o disco “Mr. Boogie” na íntegra:

1 COMENTÁRIO

  1. Maceli.ho.tu e o prazer de ser seu parceiro no colegio anos 70. Onde carinhosamente o chamava de bitela. Por ser baixinho. …

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