Memória BF | Talib Kweli: Perfil de um MC

Texto por Felipe Schmidt, do Blog Boombap. Publicado originalmente em 09 de dezembro de 2008, última edição em 02 de outubro de 2019.

Nascido no bairro do Brooklyn, em 3 de outubro de 1975, o rapper, empresário e ativista Talib Kweli pode ser considerado um representante legítimo da cultura Hip Hop. Além de ótimo MC, ele vive engajado em movimentos contra o racismo, violência policial e também questões sociais. Hoje ele completa 44 anos, resgatamos um conteúdo publicado em 2008, ano que o MC fez sua primeira passagem pelo Brasil.

Em entrevista ao Bocada Forte ele falou sobre diversos assuntos. Ilustramos a matéria com fotos do show no Indie Hip Hop 2008, alguns vídeos e no final uma mixtape especial, com seus maiores sucessos. Confira!



Por: Felipe Schmidt – Boombap

Flyer do Indie Hip Hop 2008 – Acervo BF

Talib Kweli é um dos maiores nomes do Rap americano atualmente. Com grandes álbuns em seu currículo e tendo trabalhado com vários pesos pesados da indústria artística dos EUA, ele conseguiu fãs em todo mundo, inclusive no Brasil.

É por isso que o emcee de 33 anos vem a São Paulo, nos próximos dias 13 e 14 dezembro. Ele será a atração principal do Indie Hip-Hop, evento que terá lugar em Santo André. A equipe do Bocada Forte conversou rapidamente por E-mail com ele para saber um pouco sobre esse talentoso artista.

“Meu nome é Kweli e eu adoro rimar, mano. Eu falo sobre amor e vida, mulheres, venham me conhecer”
Talib Kweli (“We Know” parti. Faith Evans, ‘The Beautiful Struggle’, 2004)

O ano era 1998 quando, tomado de assalto pela primeira onda de sucesso do Sul – na forma de Master P e os “No Limit Soldiers” – e começando a entrar de vez na cultura popular americana, o mundo do Rap viu surgir uma dupla de emcees auto-intitulados Black Star. Os jovens em questão eram Dante Smith (Mos Def) e Talib Kweli. Junto com o DJ Hi-Tek, eles criaram um álbum que, dez anos depois, é considerado um dos clássicos do gênero. Numa época em que a maioria dos rappers seguia o caminho do pop já traçado por nomes como Notorious B.I.G. e Jay-Z, Talib e Mos voltaram aos tempos de “Native Tongues”, com rimas sobre afrocentrismo, comentários sociais, narrativas urbanas e o próprio Hip-Hop. No grupo, enquanto Mos Def assumiu as rédeas como o cara progressivo, Talib representava o lado mais lírico, mais raiz da dupla. Até hoje, os fãs clamam por uma sequência do clássico, algo que não é negado por Kweli: “Mos Def é meu irmão. Uma seqüência é sempre uma possibilidade”, afirma.

Talib no Indie Hip Hop 2008 – Foto de Paola Vianna – Acervo BF

Entretanto, esta não foi a estréia oficial de Kweli. Um ano antes, ele aparecera em algumas faixas do álbum do grupo Mood, junto com o amigo Hi-Tek. Dois anos após o sucesso de Black Star, ele se reuniria novamente com o amigo deejay para lançar um álbum do projeto Reflection Eternal. O trabalho, chamado ‘Train of Thought’, rendeu o primeiro hit da carreira do emcee, a música “The blast”. As rimas conscientes acabaram tornando-se marca registrada de Kweli, algo que ele atribui à sua criação.

“Minha mãe é professora de Inglês e meu pai, de Sociologia. Isso influenciou minha abordagem no Rap, a minha formação. Eles são definitivamente uma das minhas fontes de inspiração”, afirma.

Cada vez mais conhecido na cena, Talib decidiu que era hora de lançar seu álbum solo. Com produtores de todos os cantos dos Estados Unidos, ele criou ‘Quality’, projeto bastante aclamado pela crítica e que rendeu o segundo hit da carreira: “Get By”. A faixa, com as já tradicionais rimas bem escritas e significantes, estourou no país e foi produzida por um ainda relativamente desconhecido Kanye West. O mesmo que, hoje rendido à moda do autotune, é criticado sutilmente por Kweli: “Autotune é algo legal, sim. O problema é quando se exagera no seu uso”.

“Se talento vendesse, verdade seja dita
Liricamente, eu seria, provavelmente, Talib Kweli”

Jay-Z (“Momentof Clarity”, The Black Album, 2003)

Assista ao vídeo da música “Get by”

“Sim, eu sou negativo, quer positividade?
Vá comprar um CD do Mos Def e do Talib Kweli”
R.A. the Rugged Man (“Die, Rugged Man, Die, Die, Rugged Man, Die!”, 2004)

Talib no Indie Hip Hop 2008 – Foto por Paola Vianna – Acervo BF

Após ‘Quality’, entretanto, os projetos seguintes não tiveram tanto sucesso. Tanto ‘The Beautiful Struggle’, quanto ‘Righ About Now: The Official Sucka Free Mix CD’ falharam em agradar tanto à crítica quanto aos fãs. As coisas só mudaram à partir do final de 2006, quando, junto com o produtor Madlib, Kweli lançou ‘Liberation’. O álbum, gratuito, foi disponibilizado para download na Internet. A iniciativa, bastante elogiada, é vista pelo emcee como algo natural. “Em um momento de retração, com artistas vendendo cada vez menos, se eles não entenderem a natureza selvagem dos negócios, irão perder, sempre. A tecnologia tornou a música livre, então agora temos que ser criativos ao vender a nós mesmos”, explica.

Assista ao vídeo da música “I try” com participação de Mary J. Blige

Em 2007, Talib lançou seu mais recente álbum, chamado ‘Eardrum’, e voltou a ter sucesso entre fãs e críticos. Na época, o emcee já mostrava seu descontentamento com o rótulo de “consciente” que recebera ao longo dos anos. “Isto (o rótulo) é algo que me incomoda, sim. As vezes, os próprios fãs limitam os artistas. Mas nenhum artista quer ficar preso a uma caixa”, diz ele, que aproveita para explicar o porquê de os grandes nomes do Rap não trabalharem mais com grandes produtores, como DJ Premier e Pete Rock“Ninguém quer retroceder. A nossa natureza é buscar sempre novos sons. Mas, ainda assim, tive duas faixas produzidas por Pete Rock no meu último álbum”, afirma.

“Novo ano, novo álbum, tempo de fazer coisas maiores”
Talib Kweli (“Put In The Air”, Quality, 2002)

Talib Kweli no Indie Hip Hop 2008 – Foto por Paola Vianna – Acervo BF

Para 2009, a previsão é de ainda mais lançamentos por parte do emcee. Seu novo álbum solo, intitulado ‘Prisioner of Consciousness’ e ainda sem data para ser lançado, trata exatamente do problema em ser rotulado. Além disso, há inúmeros projetos: “Tenho um trabalho paralelo com a cantora Res, sob o nome de Idle Warship. Quero trabalhar com a Jean Grae, Strong Arm Steady, Blu, etc.”, diz. Questionado se ele poderia seguir o caminho da amiga Jean Grae e cogitar uma possível aposentadoria, Talib é enfático: “Esta música é quem eu sou. Eu não posso me aposentar de mim mesmo”, conclui.

Quanto ao estado atual do Hip-Hop, Kweli não se mostra tão desanimado como a maioria dos fãs. “O Hip-Hop é a música do povo, então irá para onde o povo está indo. Nós deveríamos seguir as mudanças sociais que têm ocorrido, porque a música sempre irá junto”, afirma. As mudanças sociais a que ele se refere têm nome e sobrenome: Barack Obama, presidente eleito dos Estados Unidos. “Isto não é um feito exclusivo dos negros. A eleição de Obama é uma das maiores coisas que o mundo já viu”, empolga-se.

A repercussão da eleição de Obama mostrou como o mundo está interligado. Talib Kweli é um exemplo disso, ao contribuir com artistas de vários outros países. Um deles é o produtor francês Dela, que produziu, em seu álbum de estréia, ‘Changes of Atmosphere’, uma faixa exclusiva para Kweli. Questionado sobre como o Rap estrangeiro pode contribuir para a matriz americana, ele é evasivo: “O Hip-Hop é algo do povo, não apenas dos americanos. Todas as culturas podem contribuir para o movimento”.

Quanto ao Brasil, palco dos shows do dia 13 e 14 de dezembro, Kweli é sincero:  “Não conheço o Rap feito aí. Conheço apenas a música brasileira feita pela velha escola. Gostaria de saber como o Hip Hop influenciou nesta cultura”, admite. Porém, ele faz uma promessa para os fãs brasileiros: “Vocês podem esperar um grande exemplo de Hip Hop ao vivo”, garante.

Ouça a mixtape ‘The Best Of Talib Kweli’ do DJ Eleven



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