X (ex-Câmbio Negro) fala sobre seu primeiro disco solo

Capa do álbum

X (éks) vocal do extinto grupo Câmbio Negro, grupo de Brasília surgido no início dos anos 90 com X e DJ Jamaika (que hoje está em carreira solo), está lançando seu primeiro disco solo, ‘Um Homem Só’ (Trama). O rapper de Brasília, autor de um dos maiores clássicos do Rap brasileiro, a música “Sub Raça”, continua com seu som pesado e agressivo, agora sem banda e de volta as raízes.

Bocada-Forte: Por onde andava o X?

X: Depois que nós terminamos o disco em setembro, eu e minha esposa fomos para Minas, onde estamos hoje, e dependendo como caminhar esse disco a gente vem pra São Paulo. Eu tenho o projeto de conseguir um espaço pra fazer um programa de rádio, mas um programa pra arrebentar. Fazer igual um trabalho que eu fazia com TDZ (DJ Tydoz) no Cultura Hip-Hop de Brasília, que eu tive que abandonar e agora quem faz é o TDZ e o Léo. Pena que o espaço lá seja pequeno, só uma hora, uma vez por semana. No mínimo eu queria duas horas, se fosse uma vez por semana, pra poder tocar Rap nacional, Rap gringo e os originais, pro pessoal mais novo saber de onde os grupos tiram os samples.

E também uma vontade que eu tenho é levar quinzenalmente ou semanalmente grupos de Rap, DJs, Grafiteiros, B-boys pra falarem como andam os seus trabalhos, levar também donos de estúdio pra explicar pros mais novos como se preparar antes de entrar em estúdio, pra não ficarem perdendo tempo, já que o estúdio é pago por hora. Chamar também os letristas pra falar sobre o processo de criação de uma letra. Tem uma coisa que acontece comigo, não sei se com os outros também, que é mostrar as letras pra outros rappers antes de sair no disco, as letras do último disco do Câmbio e a maioria desse solo o GOG já conhecia antes de lançar e eu a mesma coisa com as letras do CPI da Favela. Tem cara que tem medo de mostrar, mas eu acho legal que às vezes o cara te dá um toque. O que já aconteceu comigo e com o GOG e de repente daí pode até surgir uma participação. Então é isso que eu quero fazer em um programa e vamos ver se eu consigo.

B.F: Tudo que você escreve você grava?

Ilustração do encarte

X: Não, tem coisas que eu escrevo e uso pra outras finalidades. Por exemplo, teve um espetáculo com crianças da periferia de Brasília chamado ‘Ópera Rap’, que eu fiz as letras e junto com o Marcelinho e o Bel fiz também a produção musical e nunca usei as letras pra outra coisa, até que surgiu a ideia do solo e eu usei a letra “Violência gratuita” nesse solo, mas com outra produção, um negócio mais Old School. Tem gente que vai achar que eu andei pra trás, mas não, foi proposital pra relembrar os velhos e bons tempos. Mas é assim, nem tudo eu uso. Que nem, eu já tô escrevendo acabei de lançar o disco e já tenho letra nova, de repente eu uso em um outro disco solo ou em alguma participação especial, o Marcelinho tá preparando um disco de DJ e antes de eu voltar pra Minas ele vai me dar a base, aí dependendo eu escrevo algo novo ou alguma das letras que eu tenho se encaixam.

B.F: E como tá a divulgação a gravadora tá dando um suporte legal?

X: Tá, tá tranqüilo. A gente começou a divulgação esses dias e eu tô falando em média umas 5 horas por dia com jornais e revistas do Brasil e ainda tem muito mais, falta as revistas especializadas em Rap. E aqui desde a época do Câmbio eu sempre tive liberdade pra trabalhar. Quando o Câmbio acabou, a Trama não tinha a obrigação de ficar comigo, o contrato era com o Câmbio Negro. Então antes de procurar outra gravadora sobre o solo eu perguntei aqui se eles tinham interesse, porque a minha intenção era continuar, e eles concordaram. Só que eu disse que a minha intenção com esse disco não era fazer show, por enquanto, por que o nosso meio tá uma podridão só, tem muito canalha que não tem nada a ver com Hip-Hop, caindo de pára-quedas, aproveitador, comprando carro importado, comprando casa, montando programa, instaurando a desunião entre os grupos e os grupos cada vez mais se afundando. Os caras não respeitam o Rap, colocam som de péssima qualidade em uma casa que se diz “black”, isso numa sexta, você vai lá no sábado e tem um grupo de pagode com som de primeira. Só que ele tá cobrando ingresso, tá ganhando dinheiro e o público tem que ser respeitado, o som tem que ser de qualidade…

B.F: Mas não falta também atitude dos grupos?

X:
Exatamente, não que eu seja precursor de porra nenhuma, mas eu não me rendo, quem foi nos shows do Câmbio viu que o som sempre foi de qualidade, e no palco eu sentia a energia positiva indo e voltando e isso não tava acontecendo mais comigo. A gente chegava pra fazer o show o som tava uma bosta, os nossos técnicos tinham que tirar leite de pedra, aí eu fiquei puto pô, eu não tô começando hoje. A gente já tem uma carreira, já tem história. Não é igual um monte de cara que tem hoje, que só porque gravou uma música em uma coletânea ou uma participação e já pede van, alimentação, cachê alto e fica pisando nos outros, você cola no baile aí te apresentam o cara – ‘esse aqui é fulano, gravou uma música na coletânea’. Eu falo – ‘pô mano, e aí beleza?’ O cara faz cara de mal e me mede de cima a baixo.

Ilustração do encarte

Ah, vai dar meia hora de bunda, eu não sei nem de que buraco você saiu, pô tem que ter respeito. Então por essas coisas eu não quero trabalhar com show por enquanto, a minha ideia é viajar o país fazendo palestras sobre o disco, produção, sample, porque que a gente não usa sample nacional. Teve sample que eu queria fazer nesse disco que o artista queria cobrar R$ 600, 800 por segundo, falei – ‘Beleza, então continua aí esquecido no anonimato’. O sample traz de volta vários artistas que estavam esquecidos, hoje tem diversos exemplos, James Brown, Gerson King Combo, Originais do Samba, etc. “Casa grande e senzala”, que saiu nesse disco solo, era pra Ter saído no último do Câmbio com sample da Clara Nunes, da música “Canto das 3 raças”, só que o viúvo dela, que é um dos autores não liberou. Eu respeitei, só que ele perdeu a chance da galera mais nova conhecer o trabalho dela, que quase ninguém com 16 anos conhece. E palestra é mais barato do que um show, a estrutura é bem menor e a entrada fica mais barata pro público. E facilita a troca de ideias com o público, no show só eu falo e muitas vezes tem cara lá embaixo que quer trocar uma ideia, sobre as suas experiências, tirar dúvidas sobre produção, release, direito autoral, registro de nome de grupo e letra.

Outra coisa que aconteceu e que tá acontecendo é que surgiram muitos grupos e inflacionou o mercado, então os caras te nivelam por baixo, você fala o cachê e o contratante diz que bota 3 grupos pelo preço que você pede. Não que os grupos estejam errados, quando você é novo você quer aparecer, tocar em todo lugar, o que o cara te pagar é lucro. Mas quando você já tem mais de 10 anos de estrada, 3 discos, tocando em tudo que é lugar aí não dá, o grupo que tem menos história, menos nome, tem que cobrar menos, com o tempo o cachê dele vai subir. Por isso que com esse disco a proposta é não fazer show, pelo menos por enquanto.

B.F: E Break, tá dançando ainda?

X:
Ah, bicho depois que você passa de 100 kilos não dá mais, aí é até sacanagem. Não, curto muito ainda, troco ideia com a galera, quando eu ouço tocar um Bambaataa, um Kurtis Blow, essas paradas antigas, ainda piro. Mas não é a mesma coisa, quase 33 anos, 103 kilos, nunca mais treinei, é diferente. Agora a sensação de ver uma roda é a mesma coisa como se eu tivesse ali, vê um moinho bem feito, um giro de cabeça, eu piro. Em quem eu me inspiro muito no Break é o pessoal da D.F Zulu, que eu tô sempre falando, sempre incentivando, ganharam o campeonato o ano passado, que pra mim foi uma lavada de alma. Por que eu vivia falando e o pessoal falava que era só porque eles eram meus amigos, que não dançavam porra nenhuma, aí chegou aqui todo mundo viu que os caras eram bons mesmo. E a minha satisfação dentro do break é essa, é ver que a coisa não morreu.

B.F: E o que você acha do futuro do Hip-Hop no Brasil?

Ilustração do encarte

X: Pode durar muito tempo, pode ser eterno ainda, mas o pessoal precisa levar a coisa com mais seriedade. A gente não é mais pré-adolescente brincando de fazer música, brincando de curtir break, é legal, é diversão, mas Hip-Hop é sério. Você fazendo um trabalho honesto no Rap, no Break ou no Graffiti, só o seu bom exemplo já tá tirando muita gente da bandidagem. O cara olha e fala – ‘pô, o X não tá rico, não tá barão, mas também não tá morto, não tá na cadeia, não tem ninguém batendo na porta dele pedindo dinheiro. É um cara que é bem visto onde vai’ – e é esse o caminho. A gente precisa de referenciais, não só de bunda, de seio, de garrafinha, cordão de ouro, carro importado, mas porra, de ser gente boa, de ser legal, que você pode continuar vivendo em bairro de periferia sendo um cara honesto. Melhorar de vida todo mundo quer é ou não é? Se eu tivesse dinheiro eu também ia ter carro, casa, empregado só que eu trataria melhor a minha empregada eu falaria bom dia, boa tarde, boa noite como é que vai a senhora? A senhora tá bem? Só de você tratar bem a pessoa, ela já se sente gente, não é um objeto que quando você precisa é só estalar os dedos. É isso que precisa ser falado nas letras de Rap, conscientização, política, esse papo de que religião e política não se discute caiu por terra. Política tem que se discutir sim, se não a favela vai continuar do mesmo jeito, um exemplo é a Ceilândia. Há 20 anos atrás era só barraco, terra, esgoto a céu aberto, hoje 95% das casas são de alvenaria, 50% das casas tem telefone, 95% das ruas são asfaltadas. Tem favela aqui em São Paulo que é mais velha que a Ceilândia e continua do mesmo jeito e o povo continua votando no Maluf.

B.F: O que você tá achando dos rolos em Brasília?

X: Eu acho uma vergonha, parte disso é nossa culpa porque os caras que estão lá foi o nosso povo que votou neles e como eu sou de Brasília o pessoal fala pra mim – ‘Pô, o cara é da terra dos ladrões e tal’ – só que os caras não são de lá. Pô, Brasília tem 40 e poucos anos, não tem um senador com menos de 50. ACM é da Bahia, o Collor é de Maceió entendeu, os caras saem do país inteiro vão pra Brasília e fazem a cagada, aí todo mundo diz que é de Brasília, se ele faz coisa boa, aí não. O Juscelino fez Brasília, foi um grande mineiro, se tivesse feito uma cagada, era o presidente que tava em Brasília, é foda isso. Dá muita inspiração pra escrever, porque a gente tá mais próximo e ao mesmo tempo tá distante, da Ceilândia pro planalto são 40 km e a nossa situação é igual ou até pior que as periferias de São Paulo ou os morros do Rio de Janeiro, o descaso é maior só que não aparece na TV.

B.F: E a consciência política lá é maior?

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X: No Hip-Hop falta um pouco, mas no geral o brasiliense é bastante politizado, por exemplo: Se eu faço showmício, ou campanha aqui em São Paulo pro PT, PSTU, PC do B eu não vou me queimar, o pessoal vai entender que eu tô fazendo um trabalho pra um partido de esquerda tal. Em Brasília, se eu subir num palanque de qualquer político, eu fico 2 anos sem cantar em nenhum lugar, isso é certo. Um cara que de lá chamado Renato Matos, que faz reggae, ele fez uma propaganda pro atual governador, Joaquim Roriz, na época do outro mandato dele, uma música falando sobre a construção do metro, um reggae. Ele ficou mais de 2 anos sem fazer um show que prestasse, tocava em barzinho, tinha quem via que era o cara da propaganda, levantava e ia embora. É difícil fazer, mas quando fizer tem que escolher bem pra quem fazer, porque senão sua carreira já era.

B.F: E o Hip-Hop na internet o que você acha?

X: Eu acho legal, acho importante, tem que crescer cada vez mais, sempre com o cuidado de quando baixar uma música, se for usado mp3, que alguma coisa seja pago pro artista. Mas é importante esse tipo de inovação que leva o hip-hop pra dentro de outros segmentos. Quando a gente começou a fazer vídeo clipe, muita gente meteu o pau – ‘tá fazendo clip pra mostrar pros boy que assiste MTV?’ E hoje todo mundo tá fazendo clipe de Rap, então não tava tão errado assim.

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