‘Meio preto, meio índio, crescido em rua de barro’ – conheça Raphael Warlock

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#RapBR #LGBT | Raphael Caldeira, com o vulgo de Raphael Warlock, é MC de Florianópolis (SC). Com 22 anos, o MC participa do coletivo NRecords e de dois grupos de rap: o Teoria do Caos e o Zona Morta.

Em Janeiro desse ano, Warlock lançou seu álbum solo de estréia – “Vilão Órfão de Vilania“. Criativo, ácido e cheio de referências nerds, o MC não desperdiça linhas em seus ataques endereçados a pessoas brancas racistas, ao racismo estrutural, à discriminação religiosa provocada pelo conservadorismo cristão e ao fascismo na sociedade. Em 11 faixas, fala sobre suas vivências enquanto gay, meio negro, meio índio, nerd, criado na quebrada.

Em entrevista exclusiva para o Bocada Forte conversamos sobre sua carreira, a construção de seu álbum solo e suas visões principalmente enquanto LGBT no rap. Confira:

Bocada Forte: Quem é Raphael Warlock para você?

Raphael Warlock: É um viado sulista e nerd que fica puto muito fácil e desconta toda a raiva em cima dos intrumentais. É uma bagunça sentimental ambulante, numa busca insaciável por conhecimento. E, por fim, diria até que Raphael Warlock é uma fusão de “Babylon By Gus Vol. 1” com “Lemonade”.

BF: E, ao contrário, existem diferenças entre o Raphael Warlock e o Raphael Caldeira?

Warlock: Ô, se tem! O Caldeira é quieto, observador e muito bom em absorver o que acontece ao redor. Já o Warlock, por outro lado, solta todo esse conteúdo absorvido. O Caldeira é solidário e sempre tenta ajudar quem precisa de ajuda, enquanto o Warlock ajuda o Caldeira melhor do que ninguém. Chega a ser terapêutico, sabe? Se complementam muito bem.

BF: Você poderia nos contar um pouco da sua trajetória até o presente momento?

Warlock: Eu vim de uma quebrada em Viamão, antiga capital gaúcha, saí de lá com uns 10 anos e moro em Florianópolis desde então. Na ilha eu tive o meu primeiro contato com o rap através de uns CDs piratas que o meu tio gravava pra ouvir no carro dele, a maioria era rap carioca, então ouvi muito De Leve, Black Alien e Speedfreaks, MV Bill e Shawlin (ironicamente só fui conhecer o Quinto Andar e Subsolo alguns anos depois). Em 2014 o Álvaro Mamute criou no canal dele o primeiro Rap Contest, onde ele dava um beat pro pessoal rimar em cima e os melhores eram premiados. Um amigo me mostrou e já de cara me interessei, ali foi o segundo rap que eu tinha escrito na minha vida toda. Acabou que não ganhei o Contest, mas recebi um convite do próprio Mamute pra montarmos o nosso selo, a NREC 727, junto de mais uma galera (todos oriundos de edições do Rap Contest).
De 2014 pra cá eu mudei muito, levei esse tempo todo pra achar o meu próprio som, sabe? Tenho um duo com o Alexandre PS, o Teoria do Caos, onde brincamos muito com diversos temas, do mais brincalhão ao mais sério. Eu adoro isso, de verdade, mas ainda assim sentia que faltava algo. Foi então que decidi focar no meu primeiro trabalho solo e acabou saindo o que saiu, bem diferente de qualquer outra coisa que eu já tenha feito com os caras da NREC.

E nego me pergunta
Por que eu sou tão violento
é porque ficou marcado
O cassetete na minha coxa
Racistas ouvindo rap
E fumando bongue
Me chamaram de macaco
Esmaguei igual King Kong

(“Bixa Preta”)

BF: Como foi a criação do seu vulgo? Você contou que é super nerd (a entre outras, a faixa “Gene X” é uma linda prova disso). O “Warlock” vem desse universo geek?

Warlock: Álvaro Mamute é o culpado! Certa vez ele escreveu uma rima em que me chamava de Adam Warlock (personagem da Marvel que saiu de um casulo), porque eu apareci de repente. Como eu tava sem vulgo na época, acabei escolhendo esse. Hoje eu odeio, mas não tenho planos de mudar.

BF: Falando já sobre o “Vilão Órfão de Vilania”, como foi a construção do álbum?

Warlock: Vish! Conturbada deve ser a melhor descrição… Fiquei uns 2 anos tentando encontrar o meu discurso solo, nesse tempo o VODV teve umas 20 e tantas faixas. Eu não gosto de me organizar tanto quando se trata das minhas músicas, sabe? Prefiro só ir juntando elas pra ver o que resolvo fazer com o resultado. Tudo o que eu tinha no começo era um quadrinho da Laerte, chamado “Muchacha”, em que uma personagem questiona a outra “O que será de ti, vilão órfão da tua vilania?”. No fim das contas, das 20 e tantas, apenas 8 músicas sobreviveram, separadas por 3 intros. Nas primeiras faixas do álbum eu abordo o mesmo tema, basicamente, porque tinha muita gente que ainda não tava ligada que eu sou gay. Após a segunda intro eu já falo de onde vim e o ambiente onde cresci, e pro final deixei as mais pessoais.
Como, na época, eu não sabia gravar direito e não tinha o auxílio de ninguém, resolvi ir atrás de alguém competente pra mixagem, porque eu também não mexia com essa parte do processo musical ainda. Foi aí que apareceu o Rodrigo Zin e fez a sua mágica. Uma curiosidade interessante é que a “Gene X” não ia entrar porque é uma música antiga (tem outra versão dela no YouTube) e eu não gosto tanto assim. Ela entrou na última hora, pra tanto que em alguns lugares ela aparece após a segunda intro, sendo que era pra entrar antes.

BF: Mas “Gene X” é uma ótima faixa! Por que ela entrou na última hora? Aliás, aproveitando, como foi a composição daquela letra? Normalmente a gente acaba associando todas as sagas dos X-Men com a questõea raciais principalmente pelas comparações do Magneto com o Malcom X e do Charles Xavier com o Martin Luther King. Porém, a aproximação que você fez do universo X-Men com o aquilo que vivemos enquanto LGBT’s foi preciso. Poderia comentar mais sobre essa faixa?

Warlock: Eu achava que não combinava com o resto do álbum, deve ser a mais “leve” das 8 faixas. Por insistência do Gabelegal eu acabei cedendo, aí ele descolou um instrumental e foi isso. “Gene X” surgiu numa época que eu só queria fazer rap com referências nerds, nada mais profundo que isso, mas ao que parece não deu certo, não é mesmo? A ideia veio de uma necessidade de me assumir pra quem ouvia os meus raps, até então eu nunca tinha ouvido falar do Rico Dalasam e achava que o que eu estava fazendo era tudo novidade. Acho que essa alegoria que fiz, no fim, era algo que precisava ser notado, principalmente no meio nerd, que é tão escroto quanto o público do rap. E longe de mim querer inibir a alegoria original, uma vez que me encaixo nela também.

BF: Você é gay, se identifica como meio negro e meio índio e ocupa dois espaços onde há uma grande reprodução de preconceitos, como você mesmo disse: o rap e a cena geek. Na sua visão, como você sente tudo isso na pele nesses dois ambientes, na comparativa?

Warlock: Cara, é foda! Tenho um episódio muito marcante em mente, no qual estou voltando de um evento de anime com o meu irmão mais novo, ele fazendo um cosplay perfeitamente fiel, aí um garoto chega nele e pergunta se era pra ele ser tal personagem. O meu irmão ficou péssimo, não tava entendo o porquê de não reconhecerem o personagem, uma vez que ele deu atenção à todos os detalhes da fantasia, o único “problema” é que ele é preto. A ingenuidade privou ele da verdade, mas por mais que eu tentasse reanimar, fui inútil.

Esse lance de identidade racial foi um longo processo, meu pai vivia dizendo que não sou preto por ter o cabelo liso e minha mãe dizia que não sou branco por causa do tom da pele. Isso confunde fácil uma criança. Ironicamente já cheguei a acreditar que sou branco (risos) e isso deixou algumas situações um tanto quanto complicadas de processar. Aos poucos fui pescando uns tratamentos diferentes dos meus sogros quando o namorado era branco, os amigos também agiam estranho. Nas baladas a mesma coisa. Não demorou tanto pra cair a ficha, afinal, mas foi um baita rolê.

E quanto a ser gay no rap, eu tive muita sorte de ter amigos incríveis nesse cenário. Tem muita gente escrota, é claro, mas aí é preciso saber com quem se anda. Acho que o segredo é não ligar tanto pro público do rap no geral, dar atenção pra quem te ouve de verdade, mesmo que não acompanhe o trampo. Essa galera é tóxica pra caralho, sendo você LGBTI+ ou hétero.

Não me afundo mais na merda da bad
Agora xingo pra caralho expelindo o que o meu interior pede
Não é possível que tua merda não fede
Fala da minha pele vê meu pau e teu cu pisca igual led

(“PNC do mundo (em posições obcenas)”)

BF: Uma coisa que chama atenção no VODV é a intro e os skits onde várias pessoas mandam você se fuder. Qual a mensagem por detrás disso?

Warlock: Pura estética (risos). Eu precisava bolar algo pra dividir os temas, então chamei pessoas importantes pra mim e pedi que me xingassem. Alguns xingamentos são pra valer, inclusive. Pensei em várias alternativas, mas nenhuma conversava com o disco, eu precisava de algo tão sujo quanto. Sobraram uma meia dúzia de áudios ainda, mas decidi cortar porque eu já estava ficando meio pra baixo enquanto criava as colagens.

BF: Em várias faixas, mas especialmente em “Bicha Preta”, você aproveita para alfinetar o movimento LGBT pela falta de representatividade negra, assim como cutucar as bichas brancas racistas. Poderia falar mais sobre isso?

Warlock: Não sei como é fora, mas na ilha os viados são extremamente tóxicos! Tô generalizando mesmo, porque eles fazem a mesma coisa quando me encaram de cima a baixo, sabe? Maluco dizer na balada que eu não apareço nas fotos porque é muito escuro, que só me enxergam lá dentro se eu visto branco, ou até mesmo quando mando nude e elogiam primeiramente a cor do meu pau, essas coisas são combustível pra esse tipo de letra, mesmo que sendo “piada”. Gays racistas existem, não são poucos e camuflam o preconceito com discurso de preferência. Eu costumava andar com essa gente, ignorava os comentários alheios, passava o famoso pano. Hoje eu me afastei (ainda tenho muitos pra afastar) e quero mais é que eles se fodam.

BF: Enquanto bicha, meio preto meio índio, para você quais são as principais pautas que o movimento LGBT deve priorizar e porquê?

Warlock: Inclusão das outras letras! Eu fico com muita vergonha, de verdade, porque eu clamo um espaço que outros como eu já conseguiram ocupar. Homens gays cis estão em todos os lugares, mesmo que como drag queens. Eu fico muito puto ao ver que a Luana Hansen, por exemplo, não tem o reconhecimento merecido. Ela tá aí na cena há séculos, poxa!

Na Parada do Orgulho LGBTI+ de Florianópolis desse ano esse episódio foi repetido. Me puseram no Bloco Trans e um par de DJs pretos no Bloco das Mães (de última hora porque eles reclamaram da falta de pretos no evento!). O rolê é que fui parar nesse Bloco Trans onde tinha somente uma trans… UMA! Fiquei me perguntando o que diabos eu tava fazendo lá, no fim nem cantei e caí fora, por causa do descaso e desorganização do evento.
A JuPat, MC trans finíssima, lançou um álbum maravilhoso nesse ano, com mais técnica e flow do que qualquer um desses MCs do hype e até agora não vi nada dela num RapBox da vida. Vejo geral cobrando um monte aí nas redes sociais, mas na hora H, cadê?

 

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BF: Hoje, quais são as e os artistas LGBT’s que não saem do seus fones no dia a dia?

Warlock: Gosto das poucas que o Allure Dayo tem lançadas, o álbum da Linn Da Quebrada, que pra mim é uma obra prima nacional! Monna Brutal, Gloria Groove, Renata Moraes (aqui de Floripa), a JuPat maravilhosa, o Gabelegal, Lucas Boombeat, Princess Nokia, o próprio Rico Dalasam, é claro, e eu mesmo.

BF: Antes de fechar queria te perguntar, rapidamente: – Um livro (e/ou quadrinho)? – Uma música? – Um filme ou série (e/ou uma animação)? – Uma inspiração?

Warlock: De livro, um que me ajudou muito no ano passado foi o “Na minha pele”, por Lázaro Ramos, já quadrinho eu fico com “Muchacha” da Laerte e “Angola Janga” do Marcelo D’SalteMúsica, as que me vem à mente agora são “Coytada”, da Linn e “Mina de Ouro” do Projeto PretoFilme é “Cidade de Deus”, que deveria estar no top 10 de qualquer pessoa que entende o mínimo de cinema; E, por fim, inspirações eu tenho várias, mas consigo pôr fácil no topo delas o meu MC favorito: Method Man.

BF: Para finalizar: quais são seus próximos passos e quais mensagens você gostaria de deixar para o público que acompanha o seu trabalho?

Warlock: Em novembro sai o primeiro álbum do Teoria do Caos, o “Na Prática” e, a princípio, em janeiro lanço o “Versos Oníricos do Ontem”, um álbum maior e mais sólido que o VODV. Ambos os trabalhos estão sujeitos a atrasos porque há pouco saiu o novo jogo do Homem-Aranha.

Pra quem me acompanha: Obrigado, vocês são importantíssimos, e a mídia física do VODV está por R$ 10,00 + frete, só chamar!

 

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