Conheça AfroRagga (MOVNI), o criativo rapper de Brasília que te leva para outra dimensão musical

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#RapBR #MêsDaConsciênciaNegra | Criatividade, reflexão, ousadia e posicionamento: nada disso falta ao AfroRagga, vulgo do rapper de Brasília, Willians Mathias. Além de diversos singles solo, o artista lançou, enquanto membro do grupo MOVNI (sigla para Música Orbital Viajante Não Identificada) os álbuns “Laboratório” (em 2014) e “Spacetape #1: Siga o Coelho Branco” (em 2016). Com trabalhos cada vez mais conhecidos e reconhecidos no cenário underground, AfroRagga amplia agora seu público com o lançamento do single “Abracadabra” pelo Rap Box.
(Foto de Capa por Florear Fotografia)

Aquariano, são marcas de seu trabalho a inovação instrumental e, muitas vezes, o uso de temas científicos, filosóficos e tecnológicos como recursos metafóricos para abordar questões políticas, comportamentais e estruturais da nossa sociedade, sempre tendo como base o rap e a cultural Hip Hop.

Em entrevista exclusiva, conversamos com AfroRagga detalhes sobre sua caminhada, seu ecletismo de referências, seu novo som, sobre os impactos do próximo governo, conservador, para quem trabalha e produz dentro do Hip Hop e muito mais! Confira em primeira mão:

Bocada Forte: Pra começar, queria te pedir para contar, da maneira como quiser, sua trajetória na música até o presente momento.

AfroRagga: Estamos fazendo essa entrevista em 2018 então palas contas são 15 anos de jornada musical e 10 anos desde que decidi fazer música de maneira profissional. Desde pequeno a música fez parte da minha vida. Minha mãe tinha o hábito de ouvir rádio o dia inteiro e também costumava comprar vinis, fitas k7, discos e tudo que evoluía tecnologicamente para ouvir música. Ela curtia ouvir músicas de estilos variados então essa foi a minha base musical. Versatilidade de gêneros e rádio. Meu pai também herdou uma bela voz e gostava de cantar nos bares e rodas de samba por hobby. Então além de um ambiente família que estimulava a musicalidade o dom também é de sangue. Eu sempre amei música como um todo mas o Rap, sua estrutura musical e a história do Hip-hop me pegou em cheio. O primeiro rap que minha memória registrou com firmeza foi o do Provérbio X , “Não perdi a minha fé”. Conheci com a minha irmã que também é cantora, Janine Mathias. Mas quem me colocou no rap mesmo foi o Dj Liso em 2003. Eu costumava me apresentar na escola com um colega que me acompanhava com um violão. Ai minha irmã namorava o Dj Liso na época o levou pra ver uma apresentação minha.

Depois que a apresentação terminou ele me perguntou se eu cantava Rap. Eu disse que curtia bastante o estilo mas não tinha experimentado cantar nada nessa vertente. Não sei porque mas ele disse que iria me ensinar. Isso mudou a minha vida por completo ! O Liso me mostrou muito nomes importantes para a estrutura do Rap, tanto nacional como internacional. Graças a ele conheci Black Alien e Speed também, uma das minhas maiores inspirações. Mais tarde em 2006 conheci um cara chamado RaggaDeMente pela internet. Nosso contato foi se intensificando até nos conhecermos pessoalmente. Ele também foi uma pessoa chave na minha trajetória, porque ele me conheceu numa época de muita dúvida, de como fazer a minha música acontecer e ele me ensinou a perceber a importância do flow, especificamente com o Raggamufin, o estilo musical irmão mais velho do Rap. Passei um tempo cantando com ele, produzindo músicas e aprendendo. Quando chegou 2008 decidi viver a música de maneira profissional e ele me ajudou a criar o meu nome artístico oficial – AfroRagga. E desde então nunca parei e nem pretendo parar. Só quando não tiver mais saúde pra isso.

BF: Em suas palavras, quem é AfroRagga hoje? Existem diferenças entre você na vida pessoal e seu eu-artistico?

AfroRagga: AfroRagga hoje é uma pessoa que encontrou o seu caminho, o seu propósito e enxerga maneiras de realizar os seus sonhos. A música é essencial para a minha vida e com ela conquistei tudo o que tenho. Não existe diferença entre o pessoal e o artista. Eu não acredito em personagens. Eu sou eu. A minha vida é música e arte.

BF: O MOVNI foi fundado em 2012 com a proposta de liberdade criativa. Você poderia falar mais sobre isso?

AfroRagga: A criação do MOVNI seguiu o curso natural das pessoas envolvidas na sua concepção. É a reunião de pessoas que curtem fazer música com liberdade criativa. Isso só é possível se for natural na mentalidade da pessoa. Não fizemos nada para inventar tendências. Isso é o que somos. E claro, o Rap é a base da nossa musicalidade sempre. Alias acredito que o Rap é o estilo dos estilos. O Rap é o único estilo que sampleia qualquer estilo pra fazer música até onde eu sei.

BF: Em 2014 vocês lançaram o primeiro álbum do MOVNI, o “Laboratório” e, em 2016 o “Siga o Coelho Branco”. Além da mistura de gêneros musicais, nas composições vocês vão de assuntos que vão da robótica a alienígenas passando pela psicologia. Você poderia nos contar mais sobre o seu processo de composição?

AfroRagga: A gente gosta de fazer letras que tenham algum significado ou que possam somar em algo para os ouvintes. Acreditamos que a alienação e a omissão em relação a coisas que fazem mal a humanidade prejudica ainda mais o nosso processo evolutivo. Não temos nada contra músicas divertidas ou sem compromisso, inclusive até podemos fazer algumas assim. Mas a vida não é feita só de futilidade, é preciso aceita-la em 360 graus. Uma música pode curar consciências. Nem sempre o álcool, o sexo e a droga irão trazer a resposta ou a sensação demandada pela alma.

BF: Em “Abracadabra”, o novo single do MOVNI que foi lançado pelo RapBox, vocês usam analogias do mundo da magia para falar sobre problemas políticos contemporâneos. Poderia nos contar mais sobre esse som?

AfroRagga: Na minha visão essa foi uma das melhores músicas que já fizemos. Foi uma harmonia perfeita entre a letra, a linha de tempo que ela foi feita, a base, a interpretação, etc. “Abracadabra” foi uma incitação para acreditar na magia de novas possibilidades. Abracadabra tem uma origem diferente dessa mais popular. Essa palavra era usada como prescrição de um médico romano na época do Império para curar a malária. Então quando falamos Abracadabra pra uma nova visão estamos chamando as pessoas para acreditarem na magia da vida e invocar a cura nesse momento onde a ignorância é a enfermidade maior.

BF: Agora em Novembro, estamos comemorando o mês da consciência negra, logo após a eleição do Bolsonaro. Como você tem encarado tudo isso? E, para ti, qual o papel do rap e da cultura Hip Hop nesse processo?

AfroRaggaUma nuvem de ignorância estacionou no Brasil. Agora não vejo um tempo de diálogo com as pessoas no geral. Claro quem está aberto a conversar sempre podemos nos aprofundar, mas estamos vivendo um momento de idiotas convictos. As pessoas estão destilando os seus preconceitos e questionando sem embasamento todas as estruturas.
Aparentemente parece algo novo, mas é só o lado B da mesma ignorância.
O Governo continua agindo na mesma lógica – é o Reino Vs o Povo. O Bolsonaro venceu num conjunto de circunstâncias completamente atípicas – em mares mais naturais ele nunca seria presidente. Usou muita mentira para se tornar presidente. Fora que o golpe midiático empresarista aplicado contra o PT virou um tiro no pé. A elite brasileira não tinha ideia de que isso abriria espaço para um sem noção como o Bolsonaro.

Eu sou a favor da mudança. Também quero o diferente, mas não a todo custo. O Bolsonaro tem fatores que aparentemente o tornam uma possibilidade diferente mas eu tenho certeza que a mudança definitiva não virá do Parlamento. Se o Parlamento é tão essencial assim então porque banqueiro não se candidata?  A mudança é interna, comportamental. Temos que nos envolver mais politicamente além época de eleição. Ficar atento. Fiscalizar. Mas principalmente lidar com as corrupções dos nossos atos diários. O Rap nasceu em um contexto apartidário e contestador. Não espero menos que isso. Felizmente muita gente que é alicerce na cultura não nos deixou na mão. O Hip Hop se manifestou de uma maneira muito contundente. Agora o momento é de observação, não de debates. Temos que trabalhar de acordo com os passos dados pelo novo governo. Vamos deixá-los fazer o que pensam para termos espaço para atuar caso eles venham se atrapalhar. Não acho que vá demorar mais de 1 ano para termos uma real noção do que esse novo Brasil se tornou.

BF: Uma das medidas já anunciadas por Bolsonaro para 2018 é desmontar o ministério da Cultura e reduzir os gastos na área. Essa redução provavelmente afetará o corre de muitos rappers que dependem de editais públicos para produzirem sua arte. Para você, de quais maneiras o Hip Hop pode lidar com isso?

AfroRaggaO Hip Hop nasceu no deserto. Na lama. No limbo social. Pra quem veio do nada, voltar a ter nada não é necessariamente um problema. O Hip Hop precisa se rever. Não temos que depender de editais, temos que ser empreendedores e criar uma autonomia como sempre foi na raiz dessa cultura. Cultura não é prioridade para um governo que cerca os nosso direitos mais básicos. A mentalidade governamental e da sociedade oligarca do país é alienar a nossa capacidade de se emancipar e roubar os nossos direitos.
Se os nossos direitos fossem respeitados, ninguém precisaria de edital. Então o Hip Hop vai ter que retornar para o seu conceito básico – faça você mesmo.

BF: Agora em Agosto o Artigo Dois lançou o EP “Plata o Plomo”, onde você faz uma participação em “Dinheiro, Sexo e Frevo”. Na faixa, você afirma que não é feio ou errado ganhar dinheiro com o rap, contanto que você mantenha o proceder. Você poderia falar mais sobre isso?

AfroRaggaTodo o arranjo social é fruto de trabalho. O dinheiro é uma tecnologia criada para facilitar essa troca de trabalhos. Não vejo problema na invenção do dinheiro em si, o problema é a hierarquia implantada no inconsciente coletivo – o dinheiro é maior do que a vida. É isso que dizem para nós subliminarmente. Mas na verdade é o contrário – sem a vida não há dinheiro. Não há notas. Esses valores precisam ser modificados para que possamos viver uma sociedade realmente econômica e acessível para todos.
As pessoas que controlam a lógica do dinheiro colocam em risco a vida de muitos para que elas possam manter os seus privilégios. Ao mesmo tempo não somos educados em relação a finanças e a assuntos que realmente causem emancipação como a ciência da prosperidade.
Como eu acredito que a vida é maior do que o dinheiro em nível de importância, não acho que vale tudo para obtê-lo. Existem valores mais importantes a longo prazo, como lealdade, honestidade, integridade. Valores que muitos gostam de dizer que não valem muito, mas nas prática desonesto detesta desonesto, safado não gosta de safado e ladrão não gosta de ladrão. Então com certeza a integridade importa.

BF: Antes de fechar, queria te perguntar rapidamente:
um livro (ou quadrinho)? The Walking Dead ! Esse quadrinho é sensacional!
– um filme (ou série)? Matrix, vejo esse filme todo ano.
– uma música inesquecível? “Be Quiet And Drive” do Deftones
uma pessoa que te inspira? Duckjay, Tribo da Periferia

BF: Poderia nos dar alguns spoilers de seus próximos projetos?
AfroRagga: O MOVNI costuma quebrar padrões mas dessa vez vamos nos alinhar com os parâmetros da nova era. Vamos entrar num ciclo de singles a partir de Janeiro de 2019. Encerraremos esse ano turbulento com o single “Abracadabra” que saiu no Rap Box no início do mês de Novembro e vamos fechar com uma Cypher muito potente no Rap Box também. Será lançado dia 28 de Novembro.

BF: Quais mensagens você gostaria de deixar para o seu público e para os leitores dessa entrevista?
AfroRagga: Estudem a “Ciência da Prosperidade”. Busquem no YouTube um vídeo chamado “Sucesso Não Ocorre Por Acaso” do Dr Lair Ribeiro. Esse conteúdo levou a minha vida pra um nível de consciência profundo sobre a minha capacidade de fazer acontecer.
Busque fortalecer o seu interior para que você possa ser capaz de ajudar outras pessoas.
E escutem MOVNI ! Muito MOVNI ! #MOVNIZE

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