Anos 1990: O dia em que mídia reuniu Bezerra da Silva e Thaide

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Mais um conteúdo de resgate do nosso acervo para comemorar os 20 anos do Bocada Forte. Diretamente dos anos 1990, trechos de uma conversa entre dois “marginais” da música brasileira.

Confira:

“Os dois nasceram pretos, pobres e tiveram a polícia sempre por perto, não exatamente para protegê-los. Jamais foram expulsos de uma universidade por mau comportamento porque sequer conseguiram chegar ao ginásio”, assim começa a reportagem de Ademir Assunção publicada em julho de 1991, no Jornal da Tarde.

Bezerra da Silva tinha 64 anos, Thaide, 24, no samba ou no rap, ambos mostram um país que até hoje as pessoas não gostam de encarar. Mesmo sem frequentar as FMs, Bezerra, artista que tocava piano e estudou violão clássico durante oito anos, tinha vendido três milhões de cópias e gravado 20 LPs, Thaide, que já foi sambista, apresentava seus dois vinis com muito rap ligado aos elementos do hip hop.

O rapper Thaide. Foto: Reprodução/Google

A reportagem registra que Bezerra nunca ouviu falar de hip hop. Thaide explica: “Hip hop é o movimento, cuja a música é o rap, a danca é o breaking e a manifestação artística é o graffiti.”

“Com todos esses nomes esquisitos, deve ser coisa de crioulo americano, certo?”, pergunta o sambista pra quebrar o gelo.

RACISMO

“Racismo existe e é forte no Brasil. Crioulo – como eu sou – é tolerado. No Brasil, branco é nervoso, crioulo é malcriado. Se eu estou aqui olhando pra vocês, dando essa entrevista, é porque represento uma máquina de fazer dinheiro em perfeito estado de funcionamento. Quando essa máquina não funcionar mais, eles me jogam fora”
, afirma Bezerra da Silva.

“Para um policial, o negro é sempre suspeito. É como o touro que não pode ver a cor vermelha e já avança”, conclui o rapper.

A lenda do samba, Bezerra da Silva. Foto: Reprodução/Google

FAVELA

“Sou favelado. Morei 20 anos no morro do Cantagalo. Durante esse período, só porque morava no morro, descia npra trabalhar e entrava em cana. Me levavam para averiguacão, me soltavam no dia seguinte, ficavam naquela briuncadeira”
, comenta o sambista.

“Morei quase toda a minha vida na Vila Missionária. Vi muitas pessoas morrerem. A favela mostra como o mundo realmente é. Todo mundo acha que a favela é um lugar onde só mora ladrão. Nada disso. Favela é o lugar onde moram pessoas que não têm condicões de morar melhor”, dispara Thaide.

REALIDADE

“Canto o que os compositores escrevem. Eles moram na favela: morro do cantagalo, Pavão, Mangueira, Rocinha. Os compositores falam o que acontece nesse lugares”
, diz Bezerra.

“Infelizmente ainda não tenho poder para falar certas coisas. Mas minhas letras falam a verdade do que acontece nas ruas. Já fui até chamado de o Bezerra da Silva do rap”, afirma Thaide.

*Publicada originalmente em 17/08/2015

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