Em tempos obscuros, Rap Nova Era mostra a necessidade de ser real

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A evolução tecnológica impacta a produção artística das quebradas, possibilita novas expressões, fornece elementos e bases para vários artistas expressarem em seus Raps a forma como leem o mundo, mas esta evolução não é neutra.

Em cada esquina, cada beco, em cada favela, a face da exclusão social é parte dessa modernização tecnológica calcada no consumismo. É aí que a discriminação e o racismo são renovados e replicados pelo país.

Os habitantes do gueto assimilam e ao mesmo tempo combatem esse processo de desenvolvimento desigual. Do outro lado, a sociedade racista escolhe quem deve viver, quem são os matáveis, quem serão condenados ao esquecimento. Não é diferente no Rap.

SER REAL

Falar de armas, aventuras sexuais, drogas e crimes não é nenhuma novidade. Também não é novidade o fato de muitos rappers surfarem no hype e nos temas mais populares para ganhar destaque. Fazem o que é preciso, o que a mais recente tendência dita.

E essa atitude não é exclusiva dos rappers. Youtubers e blogueiros também usam suas fantasias “da rua” para vomitar seu “interesse” pela cultura hip-hop. Falam sempre dos mesmos, para os mesmos.

Escolhem quem deve viver no Rap e quem serão condenados ao esquecimento. E a vida nas quebradas, quando não é usada apenas como enfeite, não tem muito valor.

É FÁCIL SER SOLDADO QUANDO NÃO HÁ GUERRA

Rapper Dexter. Foto: Vaidapé

Dexter, numa entrevista ao Bocada Forte em fevereiro de 2009, falou sobre os artistas que rimavam sobre o crime e o cotidiano violento, mesmo sem viver o que cantavam, mesmo sendo livres.

“Talvez isso aconteça porque eles não estiveram presos, porém, mesmo quando eu estava fora dos presídios, eu já fazia música falando de esperança e fé. Eu acho que o Rap é uma música que veio pra mudar. O Rap mudou a minha vida, realmente salvou a minha vida.”

Em duas faixas do disco Platinum O.G., lançado recentemente pelo veterano gangsta Spice 1, o MC também fala sobre as bravatas dos rappers que afirmam ser o terror das ruas e transmitem em suas rimas uma vivência que não lhes pertence. Easy To Be A Soldier When There Ain’t No War (É fácil ser um soldado quando não há guerra) e Studio Gangstas são críticas ao falatório dos novos rappers que usam a retórica bélica em seus traps.

O Rap Nova Era. Foto: Reprodução/Facebook

NOVA ERA

Não parece ser o caso do novo trabalho do grupo baiano Rap Nova Era, que está na cena desde 2011. Formado por Ravi, Moreno e DJ Kbeça, o grupo lançou a mixtape Nem Tente Contar Com a Sorte (2011) o disco Brutality (2015) e Renovação (ouça abaixo), seu mais recente trabalho.

Cada faixa deste álbum remete ao que Dexter disse em 2009. Não em relação ao fato de ter sido preso, mas sobre a mobilização para mudança, falando de esperança e fé sem esquecer os problemas que afetam os pretos e pobres das quebradas.

A guerra travada pelo Nova Era é igual a de muitos jovens que vivem com o pior que a cidade oferece e lutam para sair desta realidade. O disco é periférico e político.

Arte de Raphael Brito para o disco ‘Renovação’ do Rap Nova Era. Foto: Reprodução/Facebook

Com rimas cortantes que destroem os “criminosos” da cena rap, “Renovação” tem um link com o melhor do Rap feito nos anos 1990, mas com timbres, formas e leituras atuais. O álbum tem participações de DJ Cia, DBS Gordão Chefe, Yzalú, Lord (ADL), Godines, Vandal e do produtor Gedson Dias.

Falar em renovação, mas sem esquecer do que deve ser continuidade e de quando deve haver ruptura. Esta é a importância do novo trabalho do grupo baiano.

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