Os muros da cidade: entre o silêncio e a revolta | Por Arthur Moura

O Museu Aberto de Arte Urbana em São Paulo

POR ARTHUR MOURA*

A questão do graffiti e da pichação tem entrado em pauta recentemente principalmente pelo que vem ocorrendo em São Paulo a partir da posse no novo prefeito da cidade João Doria. O novo prefeito elegeu-se no jogo democrático-burguês com certa vantagem com relação aos demais candidatos não pela sua suposta competência em administrar e resolver os problemas da cidade, mas pelo lugar que ocupa na sociedade, por ser um capitalista milionário e ter forte ligação com figuras importantes politicamente como Geraldo Alckmin o que alavancou a sua campanha devido ao apoio do atual governador.

A eleição de Doria também resultou da conjuntura que vem se formando na política do país onde se criou grande ódio aos políticos sobretudo de correntes da esquerda parlamentar – neste caso específico notadamente o PT criando forte sentimento anti-petista sendo Doria também entusiasta desse sentimento – tendo Doria supostamente um caráter diferenciado por ser um gestor capitalista e não um político profissional. Temos que ressaltar aqui que esse repúdio pela corrupção e a políticos vem sendo construído de forma paulatina, sistemática e maniqueísta pelos direitistas e movimentos como o MBL (Movimento Brasil Livre) financiado por grandes empresários com objetivo principal de alimentar o mal estar social sem qualquer alternativa factível ao atual estado de coisas. O fato é que gestores do capital e políticos profissionais atuam em conformidade com os ordenamentos de mercado garantido e normatizado pelo Estado burguês questão que não debaterei aqui devido aos limites do texto.

Ação de marketing do prefeito João Doria apagando um graffiti

Desde as manifestações de 2013 é grande a ascensão da direita, mais especificamente da extrema direita com claros contornos fascistas. O fascismo, devemos ressaltar aqui, resulta quando da organização de frações dominantes da burguesia nacional em reorganizar a economia e todas as esferas de poder da sociedade construindo para isso um inimigo central ao qual deposita todo o seu ódio. No caso do nazismo foram os judeus. No caso do fascismo brasileiro hodierno trata-se do PT e a esquerda de uma forma geral. Nesse ponto a eleição de Doria apenas resume o quadro político atual do país.

Proibir o graffiti e criminalizar a pichação é na verdade mais um aspecto da política repressiva e de controle social numa clara tentativa em tornar São Paulo uma cidade silenciosa denunciando o temor dos governantes com relação à juventude que se manifesta. Ao tornar a cidade cinza, proibida de se manifestar e expressar suas demandas estanca-se a comunicação com a população restando apenas às grandes corporações midiáticas o controle sobre as informações.

Em “Graffiti: intervenção urbana e arte”, Anita Rink diz o seguinte: “a globalização torna muito semelhantes as cidades contemporâneas, torna-as feitas de grande homogeneização subjetiva, fazendo delas o efeito de uma lógica disciplinar de controle.” As cidades vem sendo gentrificadas tornando-se grandes empresas sobre as quais as populações pobres são cotidianamente comprometidas para dar lugar às movimentações de capitais. As cidades vem tornando-se artigos de luxo. Na construção desse ideário estão empresários que através de sucessivos exemplos de cidades mundiais estabelecem formas virtualmente análogas ao processo de mundialização das cidades em grandes mercados, ou se quiser, a transformação das próprias cidades numa mercadoria a ser consumida por um público específico, a saber as classes dominantes. Dentro dessa configuração as cidades tornam-se pátrias, empresas e mercadorias. Isso tudo não deixa espaço obviamente para as expressões populares ou transgressões como a pichação e graffiti que favorece a produção de novas subjetividades. Sobre o caráter político da pichação, Rink coloca o seguinte:

“A pichação foi amplamente utilizada como um dos poucos recursos possíveis no momento em que havia restrições à liberdade de expressão no Brasil. Muitos jovens, principalmente do movimento estudantil, registravam sua insatisfação e suas ideias nos muros das cidades, produzindo frases de impacto, aversão, desprezo e indignação contra o regime militar. A pichação foi o melhor recurso disponível naquele momento, pois eram rapidamente feitas, e, por isso, difíceis de serem reprimidas ou denunciadas.”

A escritora Anita Rink com o grafiteiro LC Carvalho durante o Meeting Of Favelas

E continua:

Graffiti d’Os Gêmeos

“Bosco (2010) compara a pichação com a violência. Segundo este autor, a pichação representa as pulsões dos socialmente excluídos e sua manifestação geralmente desrespeita o pacto social. Os pichadores atuam em qualquer lugar que ofereça alguma visibilidade à sua marca, independentemente do valor histórico ou social atribuído ao local. As tags, porém, não são decodificadas pela sociedade, somente por um pequeno grupo de pichadores, o que torna a pichação algo que não pode ser incorporado socialmente.”

Percebe-se, portanto, que a proibição trata-se na verdade de um aspecto do projeto de sociedade defendida pelos conservadores. Demonstra uma preocupação do Estado e consequentemente das frações de governo (neste caso principalmente de gestões da direita brasileira) em não tolerar as divergências e antagonismos que a cidade expressa. Tudo isso se configura como um atentado contra a liberdade de expressão. “A grande São Paulo congrega 10% de toda população nacional. É um barril de pólvora. Um caldeirão fervendo e logicamente que toda a censura, toda essa repressão ela tem um objetivo muito claro. É impedir o barril de pólvora de explodir. É impedir o caldeirão fervendo de entornar. As penas de prisão para pichadores não tem nada a ver com a limpeza da cidade. Tem a ver com a tentativa de estrangular totalmente qualquer liberdade de expressão. (Rui Costa Pimenta)

*Arthur Moura é cineasta,
graduado em História pela
Universidade Federal Fluminense,
mestrando em Educação pela
Universidade Estadual do
Rio de Janeiro.

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