Opinião: Por que o rap vem se tornando conservador? | Por Arthur Moura

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POR ARTHUR MOURA*

Em janeiro desse ano, o site Bocada Forte divulgou um texto sobre a questão da ascensão conservadora e a adesão por parte dos rappers a discursos neofascistas. O texto ressaltou a trágica participação dos MCs Maomé (ConeCrewDiretoria), BuddyPoke, Caio Kacuein, Estudante e Gok numa cypher-propaganda para o Vem pra Rua de caráter neoliberal (foto abaixo). O MBL se mostra atualmente como uma tropa de choque da direita que atua fundamentalmente contra os trabalhadores organizados. Para o MBL, o trabalhador organizado é uma ameaça à ordem. Basta acompanhar a página deles e ver as atrocidades que se diz ali. Penso que é necessário continuar este debate. A conjuntura corrobora a ascensão neoconservadora e isso vem refletindo diretamente na cultura Hip Hop e no rap de forma mais evidente, pois há uma adesão cada vez maior a um pensamento despótico e que deveria ser por nós combatido. A era do capital monopolista, diz Mészáros, “globalmente saturado não pode tolerar, no que diz respeito aos fundamentos e não aos acessórios decorativos, a prática do pluralismo político parlamentar, que outrora já serviu como a autojustificativa de estratégias reformistas social-democratas.”

Os rappers que gravaram a cypher apoiando o golpe de estado. Foto: Google

O Hip Hop como cultura de resistência deve ser intolerante contra o fascismo. Não existe relativizar isso com falsas polêmicas. A violência é usada contra os mais pobres sistematicamente ao longo da história. O rap deve denunciar e combater essa violência.
As culturas de resistência forjam-se sempre da necessidade vital da construção de uma contra-narrativa que vise o enfrentamento direto contra a ordem e todo o sociometabolismo do capital e também como uma forma de entretenimento, claro. Com o rap não foi diferente. Já é demasiado sabido sobre os primórdios do rap. Ele nasce numa sociedade cindida pelos interesses do capital, com o agravante do racismo estrutural que gera uma violência sistemática contra os negros, sobretudo os mais pobres. Giordano Barbin coloca de forma resumida:

Oriunda, por um lado, da falência histórica do projeto de integração social e de expansão da cidadania mediante o assalariamento, e, por outro, do esvaziamento da politicidade da relação sociedade civil e Estado, em grande parte convertida na gestão de “políticas de segurança”, sobrevivendo à violência pública dos aparelhos de Estado, a gramática política do rap não fala a língua da ordem institucional legal, dos movimentos, partidos, eleições, órgãos estatais, tampouco a da sociabilidade violenta em processo de intensificação. Ao contrário, apropria-se de ambas, sem que coincida totalmente com nenhuma delas.” (Errâncias Racionais)

O Hip Hop nasce e organiza-se para reestruturar os bairros mais pobres através da cultura com a intenção clara de resistir contra os desígnios dos interesses dominantes. Há uma bibliografia enorme que trata desse tema. O rap não nasce como um braço do capital. Engana-se profundamente quem pensa assim e quem pratica isso na cultura está numa contradição evidente. Não a toda, Rafael Lopes de Sousa intitulou seu livro “A Anticordialidade da República dos Manos e a estética da violência” para mostrar que o rap é anticordial por uma questão social e política. Não é simplesmente uma defesa contra os ataques da classe dominante simbolizada pelos boys, mas sim um ataque contra eles de forma organizada. Isso gerou uma rejeição por parte das elites ao ponto de chamar o rap de cultura de bacilos igualando-os aos seres mais repugnantes. Ainda que hoje o rap tenha se mercantilizado tornando sua postura mais dócil, já se sabe historicamente que não é possível conciliar certos interesses. No capitalismo, há os que dominam e os que são dominados. Nessa relação se os dominados não se levantam contra o estado de coisas, simplesmente perecem sem ao menos ser notados. O rap é um grito contra a dominação de classe. Ora, quando o rap passa a incorporar um conjunto de valores ultra-conservadores há algo de muito errado aí.

O projeto da direita é tornar a cultura absolutamente inofensiva e ela faz isso infiltrando os seus valores. Para isso, ela moraliza a cultura assim como faz com a política, desvirtuando o seu verdadeiro caminho. Para que serve a arte numa sociedade opressora? Existem dois caminhos apenas: afirmar ou reproduzir a ordem.

Esse ultra-conservadorismo tem como referenciais figuras como Olavo de Carvalho, Luiz Felipe Pondé que por sua vez gerou uma infinidade de YouTubers como Nando Moura, Bernardo Kuster, Paulo Kogos, Rafael Hide, Arthur do Val, Kim Kataguiri, Fernando Holliday, que apoiam políticos como João Doria e Bolsonaro justificando e tentando legitimar o injustificável. Na verdade, essas são apenas filiais de um pensamento neoliberal que se formou nos anos 30 e aí temos diversos referenciais como Milton Friedman, Mises, Hayek, Poper, Roger Scruton, William Bukley, Russerl Kirk, Ayn Rand, Murray Rothbard, David Friedman, e outros. Milton Friedman, por exemplo, foi o economista da ditadura Pinochet. Para entender melhor esse panorama, recomendo a leitura do texto “As reflexões de Gramsci sobre o fascismo e o estudo da direita contemporânea” de Demian Bezerra.

Cada vez que um MC adere ao pensamento de um Olavo de Carvalho, por exemplo, nós perdemos um combatente para a tropa de choque neofascista que se forma e se apresenta cinicamente como a salvação da nação quando só vê seus interesses privados. O fascismo não é um fenômeno restrito à Itália dos anos 20 e 30 e tampouco é de esquerda como os intelectuais absurdamente afirmam em suas teses. O fascismo, segundo Leandro Konder, é a organização da alta burguesia em favor dos seus próprios interesses. Toda vez que o capital entra em crises mais agudas, os camisas negras ressurgem para salvar a economia capitalista lutando contra os trabalhadores organizados. É uma tentativa ignóbil de falsificar a história dizer que o fascismo é uma manifestação da esquerda. Pelo contrário. São os trabalhadores organizados que lutam contra o fascismo.

Para compreender por que o rap se tornou conservador é necessário fazer um longo resgate histórico sobre o seu processo de mercantilização que por sua vez abre as portas para discursos de direita. O que eu busquei fazer no meu trabalho de dissertação foi justamente isso em quase 200 páginas. O Bocada Forte em breve disponibilizará com exclusividade. De toda forma, resta a nós reacender este debate colocando de fato as teses pra jogo para que possamos comprovar o nosso antagonismo com os valores neoconservadores. A resistência continua sendo contra o capital e todo o seu sistema sociometabolico.

Assista ao vídeo onde Arthur Moura discorre mais sobre o tema:

*Arthur Moura é cineasta,
graduado em História pela
Universidade Federal Fluminense,
mestrando em Educação pela
Universidade Estadual do
Rio de Janeiro.

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